Adolf Jr., ditador dos EUA, retoma o legado de seu pai

A história, essa velha professora que a humanidade insiste em ignorar, volta a repetir sua lição. E, como de costume, o cinismo contemporâneo finge não entender o quadro negro

No século passado, um agitador político chamado Adolf Hitler não prometia apenas guerra; prometia a restauração de uma grandeza perdida, o esmagamento de inimigos internos e a imposição de uma vontade inabalável sobre o tabuleiro global. A marcha foi coreografada: começou no calor de discursos inflamados, testou as instituições com ameaças externas e consolidou-se em demonstrações de força que o mundo, covardemente, preferiu chamar de “diplomacia”. Quando os tanques finalmente rasgaram as fronteiras, a Europa percebeu, tarde demais, que havia alimentado um monstro com o banquete da sua própria omissão.

O desfecho foi a World War II, a maior cicatriz da modernidade.

Décadas depois, o fenômeno ressurge em uma versão atualizada, com novas cores, mas a mesma gramática do poder. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece ter assumido o papel de imperador de um planeta sem lei. Entre ultimatos militares e a retórica de que pode aniquilar nações em uma única noite, a diplomacia do diálogo é substituída pela política do terror psicológico.

A justificativa, revestida de um verniz de nobreza, é um eco do passado: a defesa de interesses estratégicos, a segurança global e a preservação da civilização. Foi precisamente sob esse manto que a retórica nazista se expandiu.

O roteiro é rigoroso e previsível:
O Verbo: Primeiro, a estética da força e o culto à personalidade.
O Ensaio: Depois, a erosão das normas internacionais e as ameaças diretas.
O Ato Final: Por fim, a mais perigosa das etapas — a normalização da barbárie pela fadiga da opinião pública.

É profundamente perturbador observar que o mesmo país que liderou a cruzada para derrubar o Terceiro Reich em 1945 agora produz líderes que flertam com a mesma lógica do poder absoluto. Os Estados Unidos, que se apresentaram ao mundo como o bastião inexpugnável da liberdade, parecem hoje mais confortáveis vestindo o figurino daquilo que juraram combater.

A história é implacável com líderes que acreditam poder redesenhar o mapa-múndi pela força bruta: eles raramente terminam bem e, invariavelmente, arrastam milhões de inocentes para o abismo. A humanidade já assistiu a esse filme; sabemos que a trilha sonora do nacionalismo exacerbado sempre precede o som das sirenes de bombardeio.

Talvez a pergunta mais inquietante do nosso tempo não seja sobre o futuro, mas sobre a nossa própria memória: como foi que a nação que derrotou o nazismo permitiu que seus fantasmas voltassem a caminhar tão livremente?

A história é cíclica. E quando os monstros do passado trocam de farda e voltam a marchar, o silêncio da plateia costuma ser o último ato antes da próxima tragédia.


(*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão