O preço da elite medíocre


Londrina foi tão grandiosamente pensada que conseguiu suportar três décadas de elites medíocres que sequer conseguem produzir um Plano Diretor à altura da cidade
Londrina nasceu grande. Foi pensada por gente grande, administrada por lideranças que compreendiam que uma cidade não se constrói em quatro anos, mas ao longo de gerações.
Observe o seu bairro. Não importa de qual região da cidade você esteja lendo este artigo: haverá ali um fundo de vale, uma área verde preservada, com nascente e curso d’água. São mais de cem espalhados por Londrina.
Talvez você não saiba, mas isso não é acaso. Foi tudo pensado por políticos que planejavam a cidade em gerações, não em eleições.
Não sei precisar exatamente quando essa forma de fazer política mudou, mas nas últimas três décadas a política londrinense passou a oscilar entre o escândalo e a mediocridade.
O londrinense passou a elevar ao status de elite uma ralé intelectual que só não conseguiu destruir a cidade porque, talvez, lá atrás, os grandes nomes que a pensaram provisionaram até mesmo a possibilidade de gente astuta chegar ao poder. Até parece profecia de Monteiro Lobato: “Uma minoria astuta parasitará cruelmente uma maioria estúpida.”
É — parece!
O parasitismo pontuado por Lobato tomou conta da nossa cidade. Esta semana, por exemplo, a Câmara de vereadores me respondeu que solicitou ao Executivo informações sobre o almoxarifado da Secretaria de Educação. Como se desconhecessem o óbvio.
Materiais da secretaria estão misturados a um amontoado de inservíveis no barracão do antigo IBC, sem qualquer controle real de estoque. Compras continuam sendo feitas sem planejamento e sem qualquer controle.
Se você é pai de aluno da rede municipal, abra a mochila de seu filho: encontrará um caderno de capa dura, tamanho A4, com personagens do projeto Vidinha. Detalhe importante — a secretaria está há mais de dois anos sem receber novo lote desse material. O gasto desordenado acabou provocando justamente o oposto do que deveria: falta de itens essenciais nas escolas.
Mas o parasitismo não está apenas na educação. Ele se espalha por toda a administração.
Em 2010 a cidade inaugurou o aterro sanitário que deveria colocar fim, ao menos teoricamente, ao lixão a céu aberto do Limoeiro. Recentemente, porém, uma sequência de incêndios nos PEVs da cidade forçou a remoção do lixo acumulado nesses pontos. Caminhões e mais caminhões foram filmados — vídeos divulgados pelo próprio poder executivo.
Este que vos escreve, que não ocupa cargo eletivo nem integra qualquer órgão oficial do poder público, talvez tenha sido o único a levantar a pergunta óbvia: para onde foi parar todo esse resíduo?
A resposta? O destino de sempre: o aterro do Limoeiro.
Não há tratamento real de resíduos, apenas compactação no solo. E o problema não termina aí: inexiste qualquer projeto concreto para o tratamento futuro do lixo produzido pela cidade.
O tema, aliás, não é novo — chega a ser caduco.
Em 2020 escrevi sobre a necessidade de implantação de Unidades de Recuperação Energética (URE), ou usinas Waste-to-Energy (WtE), capazes de converter resíduos em energia elétrica, com impacto ambiental muito menor do que aterros sanitários.
Estamos falando da possibilidade de gerar toda a energia consumida por escolas, UBSs e outras estruturas municipais apenas dando destino adequado aos resíduos da cidade — além de economizar milhões em recursos públicos.
Mas essa possibilidade sequer aparece no Plano Diretor do município — justamente o instrumento que deveria projetar o desenvolvimento da cidade por uma década.
Como disse no início, Londrina foi tão grandiosamente pensada que conseguiu suportar três décadas de elites medíocres que sequer conseguem produzir um Plano Diretor à altura da cidade.
E o eleitor, maior desconhecedor da própria cidade, também não está fora dessa equação de resultados catastróficos. Muitos colocam seus votos à disposição de currais religiosos e, sem qualquer pudor, mantém vivo até hoje o velho voto de cabresto. Fato esse que nos garante até vereador importado do Rio de Janeiro — como se o caos carioca tivesse algo a ensinar a um povo tão peculiar como o londrinense.
Não que nascidos em outras regiões não possam contribuir com nossa cidade, mas que ao menos carreguem a nossa cultura no coração. Existem outros casos de caos espalhados por diferentes secretarias, mas esses ficam para a próxima.
É — Londrina suportou três décadas de elites medíocres.
Mas a pergunta que resta é: por quanto tempo ainda conseguirá resistir a elas?
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