A última ceia

Que decepção para os fanáticos. Enquanto os fiéis da política travam guerras santas nas redes sociais, seus profetas preferidos parecem ter descoberto o evangelho da boa convivência

Dizem as Escrituras que Judas sentou-se à mesa antes da traição.
Dizem também que Davi escreveu: “Preparas uma mesa perante os meus inimigos.”
O que ninguém imaginava era que, em Maringá, os inimigos resolveriam chegar juntos para o jantar.

A fotografia surgiu como surgem os milagres modernos: primeiro nos grupos de WhatsApp, depois nos cochichos dos corredores e, por fim, nos altares da fofoca política.
E que visão celestial ela proporcionou.

Ali estavam alguns dos sobrenomes mais conhecidos da República Independente de Maringá. Homens e mulheres que, em períodos eleitorais, são apresentados ao povo como personagens de um apocalipse permanente.
De um lado, o clã Barros. Do outro, de outro os Maia Kotsifas.
De um lado, os que prometem reconstruir Jerusalém.
Do outro, os que supostamente derrubariam os muros.
Mas bastou uma fotografia cercada dos amigos do reino para que a narrativa caísse mais rápido que as muralhas de Jericó.

Lá estavam todos.
Sentados.
Sorridentes.
Civilizados.
Nenhum cavalo do Apocalipse.
Nenhuma trombeta.
Nenhum anjo derramando taças de ira sobre a cidade.
Apenas taças. Das normais mesmo.

Que decepção para os fanáticos.
Enquanto os fiéis da política travam guerras santas nas redes sociais, seus profetas preferidos parecem ter descoberto o evangelho da boa convivência.
E talvez essa seja a maior heresia da fotografia.
Porque ela revela aquilo que os estrategistas odeiam admitir: a política raramente é uma guerra entre santos e pecadores.

É um baile.
Um baile onde os convidados trocam de parceiros conforme a música.
Onde os rivais de hoje podem brindar amanhã.
Onde os discursos inflamados da campanha descansam elegantemente sobre guardanapos de linho.

Enquanto isso, o povo não consegue nem observar da janela.
Sem convite.
Sem acesso ao salão.
Sem conhecer o cardápio.
Assistindo apenas às sombras projetadas pelas cortinas.

Há quem diga que era uma comemoração.
Há quem diga que era um encontro casual.
Há quem diga muitas coisas, e alinhamentos políticos.

Madame Savage não pretende disputar espaço com o Espírito Santo e tampouco reivindica o dom da revelação.
Mas sabe reconhecer uma parábola quando vê uma.
E a parábola daquela mesa é simples.
O eleitor acredita que está assistindo a uma batalha entre exércitos.
Os generais sabem que estão participando de um jantar.

Enquanto a multidão escolhe lados, veste camisetas, rompe amizades e transforma políticos em santos de devoção pessoal, os protagonistas da disputa seguem praticando um mandamento muito antigo: “Amai-vos uns aos outros”. Pelo menos durante o jantar.
Porque quando chegar a próxima eleição, os mesmos rostos voltarão aos palanques.
As mesmas falas serão repetidas.
Os mesmos adversários serão apresentados como ameaças existenciais.
Os mesmos seguidores voltarão a marchar para a guerra.

E talvez essa seja a passagem bíblica mais adequada para resumir tudo isso.
Não os Salmos.
Não os Evangelhos.
Mas Eclesiastes:
“O que foi tornará a ser; o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol.”
Nem mesmo os inimigos.
Principalmente os inimigos.
Até porque, na política, os milagres acontecem todos os dias.

Água virar vinho é fácil.
Difícil é explicar como adversários históricos sempre encontram uma cadeira vazia na mesma mesa para confraternizar.
Daquela que derruba as taças do apocalipse da hipocrisia,
Madame Savage