(Para aqueles que conviveram com computadores que não tinham interfaces gráficas)
Eu sou entusiasta da inteligência artificial. Eu tenho admirado textos jornalísticos e ensaísticos mais bem estruturados, fundamentados em dados e com narrativas mais elaboradas. Eu reconheço esse processo também nas publicações do LinkedIn, nos e-mails e até nas mensagens do dia a dia. Eu sei que, por trás de grande parte desse resultado, estão as plataformas de Inteligência Artificial, e eu aprecio mais a leitura destes textos. Eu, também, fico satisfeito com o aumento de qualidade dos organogramas, dos fluxogramas, das apresentações, dos filmes publicitários feitos por Inteligência Artificial: um salto de qualidade. Eu já proclamei aos sete ventos que não há problema nenhum nisso. Eu vou gostar de ler romances, ver filmes ou ouvir músicas produzidos por Inteligência Artificial, desde que sejam bons. Para mim, isso tudo é fruto da humanidade, e as discussões sobre autoria eu respeito, mas as considero bizantinas.
Abre o primeiro parêntese. Claro, toda Inteligência Artificial deve respeitar e remunerar efetivamente os direitos autorais dos humanos que estão por trás disso. Fecha o primeiro parêntese.
E voltando à origem da nossa conversa, eu tive uma experiência fantástica sobre a minha própria trajetória com tecnologia nos últimos 45 anos (o meu lapso de tempo de convivência com a tecnologia digital).
A Apolus.AI, empresa de três profissionais muito criativos, desenvolveu um modelo de sistematização de acervos para eventos intelectuais, personalidades, temas etc., muito eficiente. Eu fui agraciado por eles com a sistematização do meu acervo pessoal. Eles demonstraram o sistema no laptop, e eu fiquei bastante impressionado com o resultado. Além disso, são profissionais inteligentes e de boa conversa.
Eles me enviaram um link para que eu pudesse acessar esse acervo e usufruir do meu próprio material, que eu já acumulo há muitos anos. É interessante, pois posso sistematizar conceitos, dados, formatos que eu mesmo produzi, mas que ficaram espalhados em centenas de publicações, vídeos, entrevistas, comentários, publicações de redes sociais e até citações por outras pessoas. Também posso verificar a evolução de minhas teorias, bem como localizar ou extrair citações e trechos de que precisar.
Eles enviaram o acervo com dois caminhos para acessá-lo: usar o próprio Claude ou ou usando o prompt do MS Windows. Como eles também são muito eficientes em tecnologia, acatei a sugestão de instalar o acervo no meu computador (uma opção de segurança para dados sensíveis) e acessá-lo diretamente no prompt do meu computador.
Eu segui os passos e entrei no PowerShell do MS Windows (isto mesmo, eu não uso macbook mais).
Aqui vem um segundo parêntese, porém mais longo.
Eu comecei a operar com computadores em 1980, quando entrei no curso de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Paraná. Eu aprendi a fazer pequenos programas em um computador gigante utilizando uma linguagem chamada Fortran.
Na época, eu tinha parcos recursos, obtidos fundamentalmente ajudando os meus colegas a resolverem os exercícios das aulas, como uma espécie de monitoria. Parte desse dinheiro eu gastava para “rodar os meus programas e dados”: eu escrevia a programação em papel, e um serviço a traduzia em cartões perfurados que o computador lia. Obviamente, cada cartão errado exigia que todo o processo fosse repetido. E custava mais dos meus parcos recursos…
Anos depois, eu consegui comprar o meu primeiro PC, um antigo XT (uma espécie de SRD, sigla que hoje usamos para cães sem raça definida — e que cairia bem, porque eram computadores montados em fabriqueta por técnicos amadores —, mas era o que podíamos adquirir na época, e rezar para funcionar ou não precisar da garantia). Foi uma revolução.
A minha especialidade em configuração de sistema operacional ficou reconhecida, mesmo por alguns programadores experientes. Na época, chamava-se DOS, Sistema Operacional de Disco. Eu até rejeitava o da Microsoft, que era o mais popular, em favor do da Digital Research — empresa americana que eu nem sei que fim levou —, mas que tinha um sistema operacional muito semelhante ao da Microsoft e, para mim, mais eficiente.
Tanto é que todos os meus amigos me convidavam — e, às vezes, eu mesmo me oferecia — para fazer a configuração dos computadores. Eu organizava até os arquivos de inicialização, como o AUTOEXEC.BAT e o CONFIG.SYS. Eu era muito prático e muito eficiente nisso. Portanto, as telas escuras dos prompts dos sistemas operacionais eram um dos meus terrenos de trabalho.
Eu cheguei a montar uma escola de computação e a treinar grandes equipes — na antiga Telepar, Telecomunicações do Paraná, e em outras empresas importantes de Curitiba. Mas a vida me levou para um caminho intelectual e acadêmico. Ainda assim, eu sempre mantive uma relação muito próxima com computadores e configurações.
Quando o Windows com a interface digital chegou, eu continuei usando os prompts do sistema em diferentes momentos para determinadas configurações — era mais rápido e, às vezes, mais eficiente. E isso sempre me dava certo prazer, quase artesanal. Era como alguém que, mesmo tendo em casa um poderoso forno de micro-ondas ou elétrico, prefere, às vezes, fazer churrasco numa fogueira improvisada no quintal.
Sempre me fascinou essa convivência entre o artesanal e o high-tech.
Fecha o segundo parêntese.
A nossa história e a nossa memória são fatores preponderantes de nossas felicidades (ou tragédias). Por isso, eu vou relatar a experiência sui generis que envolveu estes dois tempos da minha vida – das noites inumeráveis diante das telas pretas de prompts ao idílio pela Inteligência Artificial. Aquele salto do passado em relação ao presente, que alegoricamente é o argumento central das poéticas Teses sobre a História de Walter Benjamin, um dos filósofos que em suas tragédias e incompletudes mais me faz pensar.
Como eu optei por acessar o acervo sobre a minha produção intelectual e profissional, elaborado pela Apolus.AI, pelo prompt do MS Windows eu me reencontrei com a sua tela preta. Obviamente, eu precisei de mais tempo do que o normal e pedi ao Claude para que me ajudasse a corrigir alguns erros. (Quem nunca trabalhou com programação de base ou usou o prompt do Windows ou do Linux, não sabe o que é purgatório). Erros de semântica ou digitação são fatais nesta plataforma analógica, alguns óbvios, mas que insistem em não ficar evidente diante de nossos olhos. Hoje em dia eu presto menos atenção à digitação, porque praticamente tudo é corrigido automaticamente nas plataformas digitais, mas as analógicas ainda não evoluíram neste quesito. Os meus olhos também já requerem lentes de um grau e meio, principalmente para textos com letras menores. Logo, trilhei alguns passos por este antigo purgatório…
Depois de idas e vindas, eu creio que levei cerca de quarenta minutos para concluir a instalação. O prompt estava pronto para eu utilizar o meu acervo.
Eu estava na velha e saudosa tela escura do Windows, mas agora o chat do Claude, ali no prompt, já nos permite dispensar alguns dos cuidados que tínhamos antigamente. Bem, nem tanto. O texto pode ter vários espaços e caracteres especiais, mas a digitação ainda é necessária e lenta.
Porém, desta vez, eu simplesmente digitei naturalmente. Eu formulei a pergunta como eu a faria oralmente, apenas em forma escrita.
Eu perguntei:
“O que eu, Marcos Cordiolli, formulei sobre a monetização de dados produzidos ou minerados nesta etapa do desenvolvimento da Inteligência Artificial, e quais oportunidades econômicas isso representa?”
E o sistema me respondeu, naquela antiga tela escura como a do meu primeiro PC, exatamente aquilo que eu formulei nos últimos anos sobre este tema complexo.
Eu fiquei simplesmente impressionado.
Afinal de contas, aqueles dois mundos conversavam entre si. Quase como se fosse um buraco de minhoca ligando dois tempos e diferentes espaços. Toda essa potência da inteligência artificial estava ali, naquela velha tela onde, décadas atrás, eu precisava trabalhar durante horas para conseguir fazer planilhas simples, organizar algoritmos para solucionar equações ou criar pequenos sistemas de dados.
Foi como reencontrar, na mesma escuridão de sempre, uma luz que eu não esperava mais encontrar ali.
Eu sempre disse — e continuo dizendo, aos meus 63 anos, idade em que pretendo lutar para viver, chegando, no mínimo, para alcançar os cem anos — que a vida daqui para a frente será ainda mais fantástica. Caso eu conseguisse viver ainda mais, outros cem anos, eu seria a pessoa mais feliz do mundo. Por quê?
Porque ver os novos mundos que a cada período mais curto de tempo será criado pelas ferramentas da Inteligência Artificial. Eu suspeito que a humanidade, em sua extrema e, muitas vezes, abjeta ignorância, ainda vai produzir muitas insanidades com a inteligência artificial, como sempre produziu com todas as grandes tecnologias, inclusive correndo o risco de se autodestruir. Mas, se a humanidade superar estes riscos autoinfligidos — ou mesmo que os supere apenas parcialmente —, a inteligência artificial nos trará coisas fabulosas.
E eu quero assistir, ainda, a outras, muitas outras, grandes maravilhas do futuro.
Eu sei, continuo sendo aquele jovem comprou a primeira luneta, que viajava de trem para acampar na Serra do Mar para avistar o céu noturno sem os inconvenientes da iluminação urbana, mas que ficava mais tempo com os olhos fixos no céu, à moda antiga, para observar os corpos celestes, sem instrumentos. O céu noturno e o prompt do computador sempre me pareceram duas telas escuras. Na juventude, eu via a primeira iluminar-se pelas estrelas e pelos planetas, que eu procurava reconhecer um a um. Hoje, eu vejo a segunda iluminar-se pelas respostas que a inteligência artificial faz surgir diante dos meus olhos. Como em outra alegoria, o Mito da Caverna de Platão — só que ao inverso: lá, a escuridão era a prisão da ilusão, e a verdade esperava lá fora, na luz; aqui, é a própria escuridão da tela que convoca a luz até os meus olhos — estrela, há quarenta anos; resposta, hoje.
Hoje eu disponho de recursos de inteligência artificial poderosíssimos, mas ainda prefiro, às vezes, por hobby, fazer cálculos diferenciais e integrais à mão, coisa de quem foi monitor de física teórica e cálculo integral e diferencial nos primeiros anos da universidade.
Eu continuo sendo aquele que gosta de escrever todas as suas poesias manuscritas para, só depois, calmamente, digitá-las no computador.
Enfim, esses dois lados convivem em mim — dois tempos, dois mundos, em fio tecido pela moiras especialmente para mim.
E poder utilizar o recurso de acervo, espalhado pela internet, na tela escura do prompt do laptop, foi uma experiência sui generis, ah, se foi.
Marcos Cordiolli, em Maringá, sob o Trópico de Capricórnio, no outono de 2026.
