Desventuras em série de uma Guarda que esqueceu sua missão


Desde quando a Guarda Municipal atende chamados de grupos privados de redes sociais? O WhatsApp substituiu o telefone de emergência 153?
Sempre soube que a Guarda Municipal de Londrina não era uma instituição perfeita. Ainda assim, nutria a ilusão de que, por sua juventude, estivesse em constante evolução. Pura ingenuidade.
Sabemos que as instituições de Estado — embora devessem ser imunes a isso — dobram-se e moldam-se ao sabor dos governantes de turno. Tornam-se passivas ou ostensivas, eficientes ou soterradas em burocracia, dependendo de quem senta na cadeira do poder. Mas existe um limite que jamais deveria ser cruzado: o esquecimento da sua verdadeira missão. A razão de sua existência é proteger o cidadão. Não caçá-lo.
Na quinta-feira, dia 9 de julho de 2026, a engrenagem do Estado se voltou contra mim. Fui tratado como um criminoso de alta periculosidade enquanto exercia minha atividade profissional de pesquisador de campo. Eu estava devidamente identificado. Meu crachá no peito atestava, em letras claras, que eu prestava serviço para a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Aconteceu aqui, em Londrina. Não é um boato de calçada, não é um “ouvi dizer”. A vítima que teve o cano de uma arma apontada para o rosto é este mesmo que vos escreve.
Da abordagem – Eu aplicava um questionário de pesquisa a uma senhora com mais de 70 anos, no Jardim Tropical. O sol batia no asfalto, e eu estava de costas para a rua. O estalo seco do descanso de ferro de uma moto batendo no chão quebrou o silêncio do bairro. Não houve aviso, abordagem padrão ou pedido de documentos. Apenas o som de passos pesados acelerando na minha direção e ordens cuspidas com violência.Quando virei o corpo, o mundo afunilou: a boca cinza, fria e vazia de uma pistola estava apontada exatamente para o espaço entre os meus olhos.
Atrás do gatilho, o agente identificado como GM Carvalho descarregava gritos, tratando-me com a crueza reservada a um assaltante em fuga. Olhei para os lados, o coração batendo na base do pescoço, procurando o monstro que justificasse aquela mira. Não havia ninguém. O alvo era eu, um trabalhador com o celular na mão e um crachá balançando como um alvo improvisado. O sangue sumiu dos meus dedos.
Identifiquei-me imediatamente. Mostrei a tela do aparelho com o questionário da Aneel ainda aberto, mas a lógica ali não tinha espaço. Fui emparedado por uma sequência de acusações absurdas. Segundo o GM Carvalho, eu era o autor de diversos golpes na região. Rosnou que eu teria acessado aplicativos de celulares de terceiros, que meu carro já estava cercado e que a corporação tinha mais de cem denúncias de moradores contra mim. Eram mentiras deslavadas, incompatíveis com os cinquenta minutos que eu havia passado naquele bairro.
No meio do cerco fardado, um veículo oficial da Câmara Municipal, prefixo 08, freou abruptamente ao lado da abordagem. O motorista chamou o GM Carvalho até a janela. Diante do absurdo da cena, a paranoia apertou meu estômago. Pedi licença e me aproximei.
Para minha surpresa, quem conduzia o carro era um assessor do presidente da Câmara, o vereador Emanuel Gomes. O poder político municipal assistia de camarote àquela execução do meu direito de ir e vir. Olhei diretamente nos olhos dele e disparei: “Isso é uma armação?”
A resposta veio em um dar de ombros burocrático. Ele afirmou não ter relação com o ocorrido, engatou a marcha e acelerou. O relógio marcava exatamente 12h29 daquele dia 09/07/2026 quando os pneus cantaram, deixando-me para trás, entregue aos lobos. Faço questão de registrar: não afirmo a participação do assessor ou do vereador nos fatos. Relato apenas a coincidência macabra que, naquele momento de vulnerabilidade extrema, congelou minha espinha. Talvez ele estivesse apenas indo almoçar com o dinheiro do contribuinte. Talvez tenha sido apenas isso.
As denúncias que ninguém apareceu para confirmar – Com a poeira baixando e o estômago ainda revirado, passei a exigir respostas. Solicitei o nome do suposto denunciante; pretendia registrar um boletim de ocorrência por comunicação falsa de crime.
A resposta de Carvalho veio em tom de nova ameaça: — Se eu trouxer ele para representar contra você, vou ter que te encaminhar. Engoli o seco e retruquei: — Então que apareça. Quero conhecer quem fez essas acusações.
O teatro começou a desmoronar. Questionei como poderiam existir mais de cem denúncias se eu tinha conversado com, no máximo, cinco moradores. Foi então que ouvi a explicação que transformou o susto em profunda perplexidade: as denúncias haviam sido feitas em um grupo privado de WhatsApp do bairro. Por essa razão, uma equipe cruzou a cidade, deslocando-se da Zona Sul até a Zona Norte, para me cercar.
Desde quando a Guarda Municipal atende chamados de grupos privados de redes sociais? O WhatsApp substituiu o telefone de emergência 153? Qual é o protocolo operacional que justifica uma equipe cruzar a cidade para atender uma fofoca digital enquanto os bairros vizinhos ficam desguarnecidos?
Porque quando uma instituição de Estado armada passa a atender a interesses privados, ela deixa de se comportar como polícia e passa a flertar com a lógica de milícia.
Enquanto eu exigia respostas, outro guarda, identificado como GM Torgetti, digitava insistentemente no celular, caçando os fantasmas do aplicativo. O silêncio na rua era pesado. Em determinado momento, Carvalho perguntou ao colega, quase implorando por uma denúncia que salvasse o seu orgulho: — E aí, alguém vem?
A resposta foi um balde de água fria na farda: — Ninguém.
Ninguém apareceu. Ninguém sustentou a mentira. Toda aquela operação de guerra havia sido montada sobre o vento. Ainda assim, exigi a identificação formal do denunciante. Fui informado de que o nome constaria no relatório e que eu deveria brigar por ele nos balcões da burocracia.
A conversa com o secretário – Como cronista político, tenho os contatos de quem manda. Liguei imediatamente para o atual secretário responsável pela Guarda Municipal. Achei que encontraria a indignação de um homem público diante do abuso. Não encontrei.
Ouvi uma sucessão de “veja bem”, “é uma situação complicada”, “precisamos entender o contexto”… O compasso de espera de quem protege os seus. Até que veio a frase que me causou náuseas: segundo o secretário, o GM Carvalho seria o seu melhor agente.
Um calafrio correu pelo meu corpo. Naquele instante, deixei de temer apenas por mim e passei a temer por toda a sociedade londrinense. Porque se o homem que aponta uma pistola para a cabeça de um trabalhador desarmado, guiado por boatos de WhatsApp, é a joia da coroa da corporação, nós estamos completamente desamparados. Deus nos livre dos demais. Deus nos proteja dos piores.
O secretário marcou uma conversa pessoal para a manhã seguinte. Meu objetivo era simples e direto: ter acesso às imagens da abordagem e ao relatório da ocorrência. Mas no dia seguinte, a autoridade não apareceu. Surgira um “outro compromisso”.
Fui recebido por seu assessor pessoal, Osmar. O roteiro foi o mesmo: mais uma enxurrada de “veja bem”. Em determinado momento, ouvi, em palavras polidas, que poderia ser desagradável para um cidadão ter uma arma apontada para a testa, mas que aquele era o protocolo. O absurdo virou método.
Quando exigi as imagens da abordagem e o relatório, veio a negativa disfarçada: não era uma recusa, mas eu deveria primeiro protocolar uma representação na Corregedoria para, quem sabe, daqui a alguns meses, ter o direito de assistir ao dia em que quase perdi a vida. Se as imagens não sumirem até lá.
Agora cabe às instituições – Fui à Corregedoria. Não porque confie cegamente no corporativismo do resultado administrativo, mas porque precisava cumprir o rito para provocar o Ministério Público. A representação está protocolada. Agora, caberá às instituições de verdade apurar se a atuação seguiu a lei ou se foi um manifesto abuso de poder.
Não escrevo esta crônica porque um guarda apontou uma arma para mim. Escrevo porque amanhã essa mesma arma, paga com o seu imposto, pode estar apontada para a sua cabeça, para o seu filho ou para qualquer um que saia de casa para trabalhar.
Nenhuma instituição armada pode exigir o respeito e a confiança da sociedade quando se esconde nas sombras e se recusa a prestar contas dos próprios atos. Não busco vingança. Busco respostas. Porque todo agente público investido de poder pelo Estado deve, obrigatoriamente, responder pelo sangue que faz correr e pelo terror que espalha em nome da lei.
(*) Israel Marazaki — fiscal por instinto, cronista por raiva e sentinela por missão
Arte s/ foto meramente ilustrativa: Reprodução/GML
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