Acabou a graça


Conseguiram acabar com aquela magia cativante do esporte mais popular do planeta, deixando a certeza de que a época de ouro dessa modalidade esportiva já se foi
Aquele conhecido ditado popular ensina que “opinião é como nariz, cada qual tem um diferente do outro”. E se o assunto pender para o futebol vale a mesma premissa, porque já não se joga mais como antigamente. Pelo menos essa é a impressão que alguns torcedores tiveram durante a copa do mundo. Conseguiram acabar com aquela magia cativante do esporte mais popular do planeta, deixando a certeza de que a época de ouro dessa modalidade esportiva já se foi. É decepcionante constatar que a introdução de novas tecnologias, supostamente com o intuito de identificar eventuais equívocos de arbitragem transformou completamente o comportamento de atletas, árbitros e auxiliares. O verdadeiro espetáculo futebolístico foi colocado para escanteio, por conta de interesses muito bem dissimulados do conhecimento público.
E não é preciso ser expert na área desportiva nem conhecedor das obras de Shakespeare para saber que “há algo de podre no reino da Dinamarca”. Resolveram utilizar o VAR (Video Assistant Referee) que incorpora ainda a tecnologia de IA (Inteligência Artificial), uma maneira inteligente de verificação em tempo real. Acontece que essa parafernália tecnológica literalmente transformou o árbitro e seus pares em reféns da tecnologia. É notória a insegurança quando do apontamento de alguma jogada considerada inválida ou um lance com maior potencial polêmico. Se a decisão em campo é do árbitro, os meios adicionais de fiscalização deveriam apenas dar suporte para que eventuais injustiças sejam corrigidas, jamais influenciar diretamente o resultado do embate esportivo.
Um dos momentos mais icônicos e controversos desse esporte ocorreu na copa do mundo de 1986 realizada no México e marcou a história do futebol. O lance protagonizado por Diego Maradona ficou conhecido como “La mano de Dios”, em que o craque argentino utilizou astutamente a mão esquerda para vencer o goleiro adversário e empurrar a bola para o gol, que acabou sendo validado pelo árbitro. Esse é apenas um entre diversos exemplos, mas as entidades organizadoras de campeonatos poderiam readequar normas a fim de garantir um espetáculo versátil, dinâmico e interessante. Obviamente que se o lance for ostensivamente ilegal, não há necessidade do sistema eletrônico. Mas interromper o ritmo do jogo para comprovar que apenas o bigode do atacante estava em situação de impedimento é o fim da picada.
Outro indício de que as disputas mudaram radicalmente nesses últimos tempos é facilmente observado dentro das quatro linhas. Os goleiros estão sendo excessivamente requisitados. Não é admissível a um jogador profissional que possua ao menos um par de neurônios em funcionamento, quando posicionado próximo da grande área adversária recomeçar a jogada devolvendo a bola para seu próprio goleiro. Isso não é tática, é desinteresse, incompetência, falta de criatividade, de improvisação e no mínimo burrice crônica, ainda que com a vantagem no placar. É impensável um treinador orientar seus comandados para que procedam dessa forma, senão pela imposição de forças externas. Enfim, o que se poderia esperar desses presunçosos simulacros de astros da atualidade, que buscam em todo momento o melhor enquadramento das câmeras? Mas, e o espetáculo? E o futebol arte, aquele que encantava multidões com dribles, jogadas e gols cinematográficos? E a paixão incrustada no coração de cada torcedor brasileiro? Infelizmente, isso faz parte do passado. Vivemos a era da tecnologia. Acabou a graça. Game over.
(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR
Foto: Nelson Terme/CBF
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