Para Filipe Barros, caráter não é essencial


Em 2021, Filipe escreveu que “Moro e Deltan fizeram um acordo até com o capiroto para salvar as manchadas biografias” e que o que restava da credibilidade da Lava Jato havia “ido para o ralo”. Agora, Filipe pede votos para Deltan
A sabatina de Filipe Barros (PL) na RPC (Globo) nesta quinta-feira deixou uma curiosa definição sobre o que é — e o que não é — essencial para o candidato ao Senado
Questionado sobre como pode hoje dividir o palanque com Sérgio Moro depois de ter chamado o ex-juiz de “moleque com déficit de testosterona e de caráter”, Filipe disse que as divergências ficaram no passado e justificou a nova aliança afirmando que os dois concordam “naquilo que é essencial”.
A resposta provocou nova pergunta dos entrevistadores: falta de caráter não deveria ser justamente algo inegociável? Filipe não respondeu se mudou de opinião sobre o caráter de Moro. Preferiu dizer que as divergências ficaram para trás e que o grupo decidiu se unir para “derrotar o PT”.
O mesmo ocorreu quando a RPC recuperou ataques feitos por Filipe a Deltan Dallagnol, hoje seu companheiro de chapa ao Senado. Em 2021, Filipe escreveu que “Moro e Deltan fizeram um acordo até com o capiroto para salvar as manchadas biografias” e que o que restava da credibilidade da Lava Jato havia “ido para o ralo”. Agora, Filipe pede votos para Deltan.
A explicação foi novamente que existe algo maior que os une e que as divergências do passado foram superadas. “Nós não precisamos concordar 100% com tudo. Mas nós concordamos com aquilo que é essencial”, afirmou.
Pelo raciocínio apresentado na entrevista, portanto, a conclusão ficou por conta do telespectador: para Filipe Barros, aparentemente, caráter não está entre as coisas essenciais.
A contradição ficou ainda mais evidente quando a conversa chegou a Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL. Filipe, que construiu sua trajetória política com um duro discurso contra a corrupção, foi questionado sobre o fato de ser liderado por um político condenado no processo do mensalão.
Desta vez, não houve nem “divergência”. “Reconhece que errou, pagou pelos seus erros”, disse Filipe sobre Valdemar.
O candidato ainda fez questão de manifestar gratidão ao dirigente. “Sou muito grato ao presidente Valdemar”, afirmou, antes de repetir que ele “pagou pelos seus erros”.
Quando os jornalistas insistiram na contradição entre o histórico de combate à corrupção de Filipe e sua relação atual com Valdemar, o candidato desviou a resposta para Lula. E, questionado novamente sobre se corrupção e lavagem de dinheiro poderiam simplesmente ser perdoadas e deixadas no passado, Filipe preferiu falar em “retomar o combate à corrupção” e prometeu, ao lado de Moro e Deltan, “reinaugurar uma nova era em que a corrupção não será tolerada”.
A RPC apertou Filipe sobre Moro, Deltan, Valdemar Costa Neto e até sobre o uso de R$ 3,8 milhões do fundo eleitoral que ele próprio já chamou de “escárnio”. Mas deixou de fazer justamente uma das perguntas que mais ganharam relevância nos últimos meses: qual foi, afinal, a atuação de Filipe Barros no caso Banco Master?
Em dezembro de 2024, Filipe apresentou na Câmara o projeto de lei 4.935/2024, que propunha ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A proposta chamou atenção posteriormente por tratar do mesmo mecanismo da chamada “emenda Master”, apresentada pelo senador Ciro Nogueira e que, segundo as investigações da Polícia Federal, teria sido articulada pelo Banco Master.
A pergunta faltou justamente na semana em que o assunto ganhou novos contornos em Brasília, com mais revelações de conversas, contratos e trocas de mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro com políticos e ministros do Supremo Tribunal Federal.
Em junho, a Polícia Federal passou a investigar a chamada “emenda Master” e a possível atuação política em torno da ampliação da cobertura do FGC. A medida poderia beneficiar o banco porque a garantia do fundo era utilizada como instrumento de captação de investidores.
Em agosto, o PT do Paraná pediu à Polícia Federal que investigasse a atuação de Filipe, citando iniciativas parlamentares que, na avaliação do partido, poderiam ter beneficiado o Master. O pedido, por si só, evidentemente não comprova qualquer irregularidade cometida pelo deputado.
Mas torna a pergunta ainda mais necessária. Especialmente para um candidato que passou boa parte da entrevista falando em caráter, princípios e combate à corrupção. A RPC perguntou sobre as contradições do passado de Filipe Barros. Faltou perguntar sobre a que está no presente.
Imagem: Reprodução/Globoplay
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