O poder de um abraço

Este será o texto mais simples que você vai ler hoje. É que eu queria muito falar sobre o abraço. Esse gesto parece simples, mas pode salvar vidas.

Vou contar aqui a história de um velho desconhecido que insistiu em me abordar na rua para conversar. Isso acontece comigo com alguma frequência: pessoas me abordam e, de repente, resolvem estrear uma relação envolvendo confissões, ainda que diante de um sujeito estranho pelas ruas da cidade.

Não sei. Devo ter uma fisionomia de inofensivo, de “gente boa”. Sou daqueles que evitam o olhar quando encontram alguém conhecido. Daqueles capazes de mudar de calçada ao visualizar alguém que só almejava dar um “oi”.

Aquele senhor me abordou num momento em que não seria possível alegar pressa. Não havia como dizer que “hoje estou sem dinheiro pra comprar trufas, paçocas ou mesmo praticar a gentileza de dispor de um dinheiro para alguém que talvez precise mais que eu daqueles dois reais”.

O duro é que o estranho, em meio ao passeio público, estava bem vestido. Era um senhor dos seus 70 anos, vestindo calças sociais, sapatos dignamente lustrados e uma camisa pouco amarrotada. Os óculos escondiam um brilho no olhar.

“Você sabe o poder de um abraço?”, disparou, como um tiro contra mim, um mísero ser humano buscando retomar seus passos ligeiros para evitar qualquer tipo de contato humano.

Considerei a frase exótica e descabida. Tratei logo de acelerar os passos, imaginando ser um sujeito buscando abraços com segundas intenções ou alguma pegadinha de televisão que simula momentos fofos para a audiência ferver e fazer as senhoras diante da TV se emocionarem.

Ele foi insistente.

E eu não sou assim, digamos assim, tão mal-educado. A família ensinou a respeitar os mais velhos. Freei os passos naqueles tênis horríveis, fora de moda e suplicantes por aposentadoria, em meio a tantas andanças rumando para, admito, lugar algum.

“Sei, sim, senhor. Mas agradeço. Hoje eu dispenso o abraço, estou com pressa! E, quer saber? Estou há dois dias sem tomar banho. O senhor pode evitar sentir o meu cheiro de derrota e depressão”, disparei ao senhor estranho.

“Eu não quero abraçar você, rapaz! Olha pra minha cara! Fica tranquilo. Eu tenho apenas evangelizado em praça pública as benesses de um abraço sincero nesta vida. Há quanto tempo você não abraça alguém de verdade, sem segundas intenções ou por obrigação do nosso costume de etiquetas imbecis que tornam as relações humanas tão mesquinhas?”, proferiu o velho.

Fiquei surpreendido pelo linguajar culto e pela seriedade existente no semblante daquele ser estranho. Ele não estava sujo como mendigos, nem maquiado como atores que buscam a pegadinha a todo custo.

“Boa pergunta! Não me lembro quando alguém me deu um abraço sincero nesta vida, sem algum tipo de interesse nesse gesto tão íntimo de relar corpos e confirmar tamanha intimidade”, afirmei, tentando manter o tom elevado da seleção de palavras escolhidas para aquele diálogo insólito.

“Eu imaginei. Eu vi a tristeza no teu olhar. Notei seus ombros contraídos. E flagrei o músculo provocador de sorrisos e gargalhadas enferrujado nesta tua cara horrível, cheia de olheiras, rugas antecipadas e uma ansiedade fora do comum”, atirou o velho bocudo.

“Ah, vai se f…”, disse num ímpeto.

A dúvida imediatamente surgiu em meu semblante. E o velho, astuto, não perdeu tempo.

“Senti que ficou tocado, meu filho. Tenho idade para ser seu pai, ou seu avô. E serei breve, muito breve.

“Um dia, fui abraçado por dezenas de pessoas ao retornar a um velho emprego em minha área. Não vem ao caso dar mais detalhes. Digo apenas que as pessoas estavam sem me ver havia quase três anos. Quando retornei àquele ambiente, foi uma festa bonita de abraços apertados e sinceros… eu me senti tão valorizado. Entendi que era uma pessoa querida, quando daquele retorno. E entendi que fazer o bem vale a pena. A bondade sempre deixará saudades e poderá nos dar uma mostra daquilo que realmente importa nesta vida: tratar bem as pessoas e ser querido a ponto de haver comemoração quando do seu retorno.”

O velho foi embora sem pedir dinheiro.

E me deixou ali, no meio da rua, de boca aberta. Tentei imaginar o dia em que fui abraçado calorosamente quando do meu retorno.

Fiquei pensando nas pessoas que gostariam de receber um abraço sincero meu. Quase ninguém. E tive dificuldade em lembrar dos dias em que tive a chance de abraçar e ser abraçado.

Por fim, lamentei não ter abraçado aquele estranho.


(*) Willame Prado é jornalista – _pradowil@gmail.com