Sabotador, sem liderança e descumpridor de promessas: Moro não poupa ataques a Jair Bolsonaro em livro

O mundo dá voltas, mas não mais que a relação entre Sergio Moro (PL) e a família Bolsonaro. O ex-juiz da Lava Jato, que hoje é aliado de Flávio Bolsonaro e concorre ao Governo do Paraná com apoio do candidato a presidente, deixou o Ministério da Justiça e Segurança Pública fazendo duras críticas e acusações contra Jair Bolsonaro, e não poupou os “elogios”.

Em seu livro autobiográfico lançado em 2021, pouco tempo depois de sua belicosa saída do cargo de ministro, Moro afirmou que Bolsonaro tinha o costume de diminuir os seus subordinados publicamente, o que, na visão do hoje senador, demonstrava “falta de liderança”. “Aquele comportamento também demonstrava a falta de liderança dele. O bom líder extrai o melhor dos seus subordinados em vez de constrangê-los e humilhá-los”, criticou Moro logo no início do capítulo “O avanço sobre a PF”, em que narra a suposta tentativa do presidente de interferir na Polícia Federal.

As críticas continuam, em tom cada vez mais pesado. Em uma das passagens do livro, Moro acusou formalmente Bolsonaro de querer interferir na PF para blindar aliados políticos, indo contra a agenda anticorrupção defendida por ele quando aceitou, ainda antes do segundo turno das eleições de 2018, o convite para ser ministro do governo, abandonando a Operação Lava Jato.

“Aquela mensagem deixava ainda mais clara a motivação de Bolsonaro para a mudança do comando da PF. Ele queria alguém que pudesse controlar. […] Não havia como justificar a troca da direção-geral da Polícia Federal com base nesse argumento”, segue Moro, em sua narrativa sobre a posição de Jair Bolsonaro para blindar aliados, entre eles o próprio filho Flávio.

Além disso, Sergio Moro afirmou que Bolsonaro trabalhou para enfraquecer o combate à corrupção, bandeira que projetou o ex-juiz. “Se o principal propósito de meu ingresso no governo tinha sido o fortalecimento do combate à corrupção, não existia mais razão para ficar, pois eu já havia constatado que não seria possível contar com o apoio do presidente nos projetos executivos ou legislativos do Ministério da Justiça. Ao contrário: eu poderia esperar sabotagens, como ocorreu com o projeto de lei anticrime”, acusou. “Eu não confiava mais no presidente.”

Moro disse, ainda, que Bolsonaro o sabotou deliberadamente. “Mesmo com a sabotagem do Presidente Bolsonaro à agenda anticorrupção, estendi minha permanência no governo até onde pude para preservar a Polícia Federal de uma interferência indevida e, dessa forma, proteger indiretamente o país. Mas, com a intervenção do presidente, não havia mais qualquer motivo para permanecer”, abriu o capítulo 15 de seu livro, “O dia seguinte”.

A crítica mais forte, entretanto, vem na esfera política. Para Moro, Bolsonaro atuou ativamente para enfraquecer o combate à corrupção. “O Presidente Bolsonaro descumpriu todas as promessas da campanha eleitoral, inclusive aquelas feitas diretamente a mim. Em vez de fortalecer o combate à corrupção, agiu para enfraquecê-lo. Sem contar as investigações de um membro de sua família por atividades criminosas”, escreveu, em alusão justamente a Flávio Bolsonaro, hoje seu aliado.

No mesmo capítulo, Moro ainda compara Bolsonaro e Lula, colocando-os como equivalentes. “Ambos parecem seguir uma cartilha populista de sinal trocado: um de esquerda, outro de direita. Talvez, por estimularem o culto à própria personalidade, tenham tantos seguidores que fecham os olhos para sua verdadeira natureza”, concluiu.

A saída de Sergio Moro do ministério foi um dos primeiros traumas do governo Jair Bolsonaro. Com apenas um ano e quatro meses como ministro, ele abandonou o cargo no auge da pandemia de Covid-19, uma das principais críticas feitas a ele por adversários políticos. Além disso, a incoerência entre o discurso e a prática é outro ponto que merece atenção na carreira política do ex-juiz que, ainda na magistratura, afirmou jamais entrar para a política.

O hoje senador e candidato ao Governo do Paraná tem o histórico de se aliar por conveniência. Foi assim quando aceitou o convite do ex-senador pelo Paraná, Álvaro Dias, para se filiar ao Podemos, e o traiu para disputar sua vaga no senado, em 2022, pelo União Brasil. Também em 2022, após todas as críticas à postura de Bolsonaro, se aliou a ele no segundo turno das eleições presidenciais, o que muitos consideram como uma tentativa de voltar ao governo, ou até mesmo, uma vaga de ministro do STF.

Mais recentemente, em 2025, convidou a jornalista Cristina Graeml para se filiar ao União Brasil, garantindo a legenda para que ela concorresse a senadora. Com a falta de apoio dentro da Federação União Progressista, migrou para o PL, traindo Cristina, que ficou sem espaço na sigla. Agora, no Partido Liberal, se aliou a Flávio Bolsonaro, o mesmo que ele acusou de casos de corrupção, e integra o partido de Valdemar Costa Neto, condenado no mensalão, também alvo de críticas de Moro. (C/ Assessoria)

Imagem: Reprodução/O Globo