Um caso perdido

Parece que a “lei de Gérson” reflete a índole do malandro, porque sempre existe uma maneira marota de levar vantagem em tudo

Os últimos acontecimentos reforçam a inevitável constatação de que o Brasil está se tornando um caso irremediavelmente perdido. E não somente por conta das lastimáveis escaramuças supremas ou das naturais dissonâncias ideológico-partidárias que sempre ocorrem em época de eleições, mas porque essa situação diz respeito também ao cidadão comum. O que se sobressai e causa perplexidade é o conjunto da obra, os fatos recorrentes que mostram uma tendência acelerada de degradação de valores morais, há muito estabelecidos e plenamente reconhecidos pela sociedade. A condição de passividade da maioria das pessoas, transformada em adesão quase incondicional ao modelo atual de comportamento em que o modismo inconsequente, impulsionado pela artificialidade das redes sociais estabelece regras e moldam gradativamente a personalidade daqueles suscetíveis a estímulos externos. Isso provoca incômodos entre os que ainda vislumbram alguma forma de minimizar ou quem sabe reverter essa tendência modernista.  

Evidentemente se espera do servidor público conduta ilibada e probidade irrefutável, muito mais ainda por parte daqueles que ocupam altos cargos nas esferas da administração pública, mas a premissa também se aplica a qualquer do povo até por uma questão de equidade. Sob esse aspecto, é possível elencar o nível de erosão social que permeia as interações sociais atuais através da análise absolutamente simplista de situações distintas. A proliferação de maus exemplos aponta para uma parcela de cidadãos brasileiros descompromissados com educação, respeito, consideração, apreço, honestidade e outros sinônimos análogos, sentimentos escanteados sem cerimônia alguma.

As referências negativas são tão extensas quanto diversificadas e geralmente desnudam o verdadeiro caráter de seus protagonistas. As manifestações de incivilidade gritante estão por todo lado. Assim ocorre com a prática de som altíssimo em veículos e “pancadões” infernais. Ou com o descarte irregular de lixo em vias públicas e fundos de vale. Outro exemplo de aniquilamento completo da moral pode ser verificado nas imagens de saques em cargas de veículos acidentados. Ou as cenas de violência extrema registradas durante furtos e roubos a motoristas e pedestres, que infelizmente fazem parte do cotidiano nos centros urbanos. Ainda os altos índices de golpes aplicados pelo telefone celular, nos caixas eletrônicos, em transações comerciais.

Parece que a “lei de Gérson” reflete a índole do malandro, porque sempre existe uma maneira marota de levar vantagem em tudo. Isso é comprovado nas filas de atendimento, nas relações comerciais, na prestação de serviços e até no trânsito, em que as gentilezas se tornaram escassas. Comerciantes sem escrúpulos usam a criatividade para ludibriar o consumidor nos postos de abastecimento, adulterando criminosamente os combustíveis. O segmento alimentício também não está isento de falcatruas, das mais criativas possíveis. Produtos com rótulos omitindo, sonegando informações básicas ou empregando artifícios de linguagem que enganam e lesam reiteradamente o consumidor. Um festival de irregularidades, amplificada pela incompetência da fiscalização pertinente.

Enfim, esse é o atual cenário dessa desafortunada nação. Dominada por castas privilegiadas a oprimir os que expressam opinião própria, governada há décadas por líderes populistas, esses pouco interessados em promover o desenvolvimento. A ignorância, a omissão e a indiferença coletiva estimulam a perpetuação da pobreza e a manutenção do poder. A continuar essa situação, não há mais jeito para nosso maltratado Brasil. É um caso perdido.


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR.

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