A vida dos mortos


Quem tem medo da morte tem medo da vida, rapaz, me repreendeu uma vez uma senhora simpática
Um painel com várias fotos de um casal, ela 32 anos; ele 35. Minha irmã explica. Ela morreu de câncer; ele de acidente de moto oito meses depois. Eram noivos. Estou no cemitério. Fui ajudar minha irmã a lavar os túmulos da família. Um pouco mais à frente está a sepultura do Sapecado. Figuraça, que conheci e com quem proseava na década de 1980. Finados ou na véspera dele, não é um dia em que gosto de ir aos cemitérios. Prefiro visitá-los em dias comuns, quando se pode degustar o tempo nos epitáfios e na arquitetura dos túmulos.
A memória está ali quase pedindo para que a transformem em história. Já visitei muitos cemitérios. Os casos se dividem. Há aqueles em que prevalecem os personagens. Políticos, autoridades e gente conhecida em determinada cidade. Em outros, aqueles que tiveram morte trágica ou casais, irmãos, amigos, cujas mortes têm alguma ligação, como citei acima. Cemitérios são bons lugares para aprender história. Em Apucarana, no Cristo Rei, por exemplo, vi o túmulo do Valmor Giavarina, advogado, político, escritor e apresentador de rádio e televisão. A relação dele com Brasília está lá no desenho das torres do Congresso Nacional.
Em Maringá, o túmulo do menino Clodimar Pedrosa Lô é um dos mais visitados. Ele morreu assassinado pela polícia, em 1967, acusado de um furto que não havia cometido. Os anjinhos também. Antigamente, havia nos cemitérios uma ala dedicada às crianças. Muitos recém-nascidos morriam ao nascer. Com a evolução da medicina, a mortandade infantil caiu. Às vezes, a gente anda entre os túmulos e, de repente, uma foto estampada. O espanto: mas, fulano, morreu? Reflito. “Nossa, não sabia”, continuo a refletir na brevidade da vida.
Mas a reflexão sobre a morte continua. Medo? Não. Quem tem medo da morte tem medo da vida, rapaz, me repreendeu uma vez uma senhora simpática. Garanto que é uma experiência fantástica porque se coloca fim a uma existência. Mas não creio que seja um fim definitivo. Prefiro acreditar num recomeço após uma existência na matéria densa, que não é fácil, mas necessário. Uma escola e tanto esse breve tempo na Terra. Que neste 2 de novembro haja muita vida para os vivos e os mortos.
Foto: Arquivo MN
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