Voucher, sotaque britânico, prainha e outros experimentalismos


O projeto do cartão/voucher reconhece a incompetência do município e, por extensão dos vereadores, em dar conta de licitar e entregar os materiais aos estudantes, transferindo essa responsabilidade aos pais, já assoberbados com uma agenda imensa de cuidados com seus filhos
A presidente da Câmara de Vereadores, aquela cujo nome de inspiração inglesa (ou escocesa) é proncunciado normalmente sem o arrasto necessário nas sílabas finais, o que é imediatamente corrigido por ela, evocou a expressão ‘justiça social’ para justificar projeto de sua autoria que propõe atribuir aos pais a responsabilidade para a compra de uniformes e materiais escolares. A contrapartida seria o forncecimento de créditos pelo município para bancar o gasto.
Mas a Majorie Capdesboscq, a maringaense de nome britânico, exagera ao banalizar a expressão ‘justiça social’ para dar ao seu projeto verniz popular, como se o argumento bastasse para evitar as muitas contradições ainda não devidamente explicadas no projeto. Aliás, é de se reconhecer que a ideia tem suas virtudes, mas tamanha são suas implicações que fica difícil acreditar que, na prática, vai funcionar. A começar pela covardia da proposta.
O projeto reconhece a incompetência do município e, por extensão dos vereadores, em dar conta de licitar e entregar os materiais aos estudantes, transferindo essa responsabilidade aos pais, já assoberbados com uma agenda imensa de cuidados com seus filhos. Isso para ficar apenas num recorte raso da proposta, que mais levanta dúvidas do que esclarece, ao não dimensionar com a precisão necessária o formato de fiscalização do uso do voucher.
Na gestão anterior, do ex-prefeito Ulisses Maia, aquele da prainha, do eixo monumental inacabado, da pista emborrachada boiando, do descaso com o Parque do Ingá, das ruas recapeadas e novamente recapeadas, para de novo ser recapeadas, as licitações viraram novelas. Os certames para compra de uniformes escolares eram piores, ao acrescentar capítulos de drama e comédia. Atrasos recorrentes e explicações frágeis.
Não se trata de criticar e ser resistente a inovações como sugeriu um assessor de quatro costados, mas de não aceitar que a cidade seja palco de experimentalismos, que drena os recursos públicos por conta da omissão e negligência do gestor público e de vereadores, a quem cabe fiscalizar o Executivo, missão ignorada por conta da relação espúria que se estabelece entre os poderes, sem refinar os detalhes desse convívio.
Vide a Parceria Público-Privada da iluminação pública, aprovada no cair da noite, de forma apressada e sem a necessária discussão das implicações de um contrato nebuloso. Ainda que vereadores tenham sido cobrados a tratar o tema com mais cuidado, foi aprovado sem a devida análise técnica. Agora, comissão investiga o caso e não avança na conclusão, estendendo o prazo para buscar o entendimento do problema, ainda pouco iluminado.
A cobrança é por discussão mais amiúda da proposta, com interlocução mais democrática com o cidadão, ou melhor, os pais. Vereadores têm que ser chamado à responsabilidade para dispensar a projetos com essa repercussão um pouco mais de atenção e cuidado, para que daqui a pouco não sejam pressionados a montar comissão para investigar a incompetência de seus próprios atos. É o mínimo que o cargo exige e o eleitor espera. Oremos!
Foto: Arquivo/PMM
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