‘Pé de chinelo’ e religião

Desconfio que haja o dedo de ‘influenciadores’ e de extremistas políticos, querendo desviar assuntos desfavoráveis para seu grupo, coisa de ‘pé de chinelo’
Em recente evento social, a conversa sobre política (ainda é possível conversar) derivou para religião, quando ouvíamos uma música de Fernando Mendes, gravada em 1976, ‘Sorte tem quem acredita nela’, cujo refrão é sempre atual: ‘Não adianta ir à igreja rezar e fazer tudo errado, e alguém disse que não tinha religião, o que me fez pensar se seria ateu (não acredita na existência de Deus), ou agnóstico (acha impossível se provar a sua existência), mas completou dizendo que acredita em Deus e em Nossa Senhora Aparecida, que reza todos os dias, fora de igrejas.
Expliquei que a palavra religião vem do latim religare, ligar, reconectar o humano ao divino, sendo um elo de conexão, defendido por pensadores como Cícero e Santo Agostinho. Completei, dizendo que o ambiente de uma Igreja, de um Centro Espírita, ou de qualquer dos chamados templos religiosos, possui, quase sempre, uma atmosfera favorável e muitos nos sentimos bem, participando das atividades, onde um religioso(a) ou palestrante podem nos ajudar na conexão com Deus, mas para orarmos não dependemos disso. Lembrei de uma passagem evangélica (“quando for orar, entra no teu quarto” (Mateus 6:6) , fechando a porta para se desconectar do mundo e focar na ‘conversa com o Pai’). E voltei ao refrão da música de Fernando Mendes, não adianta ir na igreja e fazer tudo errado, logo não é preciso frequentar um templo, dizer que é católico, evangélico, Cristão, o importante é ter uma filosofia de vida voltada para o bem, o certo, o ético, sem extremismo e discriminação.
Falando em discriminação e voltando para a política, comentamos a recente polêmica sobre a peça publicitária de uma sandália famosa, cujo fabricante lançou em 1907 um calçado chamado ‘Alpargatas roda’, que na década de 50 (que me lembro), era sinônimo de pobreza, simplicidade, até de discriminação. Os menos letrados chamavam de ‘precata roda’.
Era um calçado simples, feito de lona e sola de corda ou borracha, muito popular entre os trabalhadores das plantações de café da região e, posteriormente, em áreas urbanas. A Alpargatas S.A. cresceu e desenvolveu diversas outras marcas icônicas ao longo dos anos, como as Lonas Locomotiva, Rainha, Conga, Kichute e, o seu maior sucesso global, as Havaianas, lançadas em 1962.
A Alpargatas possui, hoje, mais de 10 mil colaboradores. Só a fábrica de Campina Grande, na Paraíba, é responsável por mais de 9 mil empregos diretos e indiretos. Mas, se dependesse que alguns extremistas de direita, até uns e outros que se dizem cristãos, muitos perderiam os empregos, com um boicote ao principal produto da empresa, com a polêmica da peça publicitária em que a atriz Fernanda Torres diz que não devemos começar 2026 com o pé direito, mas sim dos os dois pés.
Começar com o pé direito é expressão ligada à boa sorte, teve origem em superstições de povos antigos. Já começar com o pé esquerdo é uma superstição, também, no sentido contrário. Ora, não caberia numa propaganda de sandálias sugerir que você começasse 2026 com o pé esquerdo, ou seja, mal, de mau humor, ‘pra baixo’. Mas dizendo começar com os dois pés, pé na estrada, pé na porta, até ‘pé na jaca’, com a moderação possível, faz todo sentido.
Então por que a polêmica? Desconfio que haja o dedo de ‘influenciadores’, buscando monetização, e de extremistas políticos, querendo desviar assuntos desfavoráveis para seu grupo, coisa de ‘pé de chinelo’ (desculpem se parece preconceituoso), mas que rende.
Os verdadeiros crentes (que acreditam em Deus, ou não, mas são racionais), não podem se deixar levar polêmicas artificiais, criadas, algumas vezes, por falsos religiosos, e ‘influenciadores pé de chinelo’, no pior sentido da expressão.
Que nossas convicções políticas não nos façam esquecer que somos seres humanos e humanos devemos ser. Que atitudes discriminatórias podem custar empregos, arruinando existências dos próximos, que Jesus recomenda que amemos, como a nós mesmo.
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