O maior perobal do mundo

Dói fundo só de imaginar como se deu aquele horripilante arboricídio. O barulho. A fumaça. A fuga dos pássaros e dos outros animais. Até hoje fica-se a pensar se valeu a pena

Para que Maringá pudesse existir foi preciso pedir licença à natureza para roubar dela o que Jorge Ferreira Duque Estrada chamou de “o maior perobal do mundo”.

A grande floresta original era formada por paus-marfins, paus-d’alho, jacaratiás, figueiras, cedros, palmitos e outras espécies. Porém a peroba rosa predominava. Predominou até o começo dos anos 1940, quando aqui chegou um empreiteiro chamado João Tenório Cavalcanti, comandando um exército de 800 machadeiros, com a missão de abrir espaço para a entrada do “progresso”.

O sacrifício da mata fazia parte de um gigantesco projeto de colonização promovido pela Companhia Melhoramentos. Dói fundo só de imaginar como se deu aquele horripilante arboricídio. O barulho. A fumaça. A fuga dos pássaros e dos outros animais. Até hoje fica-se a pensar se valeu a pena.

Mas aqueles 800 machadeiros, também conhecidos como “peões”, precisavam de comida, roupa, remédios etc. Foram chegando então os primeiros comerciantes e prestadores de serviços. Ângelo Planas e Napoleão Moreira da Silva logo se destacaram, visto que, além de abastecer a população pioneira com “secos e molhados”, funcionavam como uma espécie “bancos”.

Na medida em que “o maior perobal do mundo” ia sendo derrubado, iam se instalando nas clareiras os primeiros compradores de sítios. Erguiam ranchos e de pronto começavam a plantar café, feijão, milho e a criar galinhas e porcos.

Ao mesmo tempo iniciava-se a construção da cidade. Primeiro, lá no alto, o povoado do Maringá Velho; depois, na planície, o Maringá Novo.

Foram surgindo também, naturalmente, os primeiros líderes políticos. Planas e Napoleão depressa se caracterizaram como “pais de todos”. Chegavam a intervir até em brigas de casais, como pacificadores. Isso explica por que os nossos primeiros vereadores foram o próprio Napoleão e um irmão de Ângelo, o Arlindo, quando Maringá era ainda distrito de Mandaguari.

Depois foi acontecendo tudo o que vimos acontecer até hoje. No lugar do “maior perobal do mundo”, ergueu-se uma das cidades mais bonitas do planeta.


(Crônica publicada na edição de hoje do Jornal do Povo)

Foto: Museu da Bacia do Paraná