O semideus

Trump flerta perigosamente com o terceiro conflito mundial ao ditar suas regras pelo poder das armas

O conflito bélico envolvendo os Estados Unidos da América, Israel e Irã foi precedido por ações de inteligência que possibilitou a identificação exata de alvos para as ações letais. Tudo isso ocorreu sob as ordens de Donald J. Trump, o 47º presidente da nação mais poderosa do planeta. O controverso mandatário norte-americano usurpou o direito sobre a vida e a morte, enviando uma frota de ultramodernos e terrivelmente certeiros bombardeiros. O atual dono do mundo preteriu a exequível possibilidade de diálogo com o País atacado para impor seu poder através da força, apesar das consequências impingidas às economias de absolutamente todas as nações, inclusive à sua própria.

Ainda que insista em classificar como insuficientes algumas iniciativas anteriores visando conter o enriquecimento de urânio pelo Irã, supostamente destinado à produção de armas nucleares, o senhor das armas parece ignorar os danos colaterais de um confronto dessa magnitude. O poder incalculável de destruição foi revelado no País persa em um passado recente, quando artefatos norte-americanos penetraram e explodiram em camadas profundas do solo, algo inédito até então. Isso já seria um importante argumento de dissuasão, levando necessariamente o imbróglio para o campo da negociação ou então a ampliação de sanções econômicas vigentes, mas a retórica do todo poderoso falou mais alto, escalando fatidicamente o conflito. Mas o Irã não é a Venezuela ou Cuba e isso Trump poderá constatar em breve.

Evidentemente aqui não se defende a opressão e o desrespeito aos direitos elementares do ser humano, muito menos as inimagináveis atrocidades patrocinadas há décadas pelo regime iraniano contra civis indefesos. Por conta de questões puramente doutrinárias, a população é continuamente subjugada por um sistema de governo baseado na teocracia, em que o poder político é intrinsicamente ligado à religião. Acontece que os efeitos secundários desse confronto se espalham pelo mundo como ondas e alcançará a todos, indistintamente.

Não se pode analisar os fatos e seus desdobramentos de forma simplista. Existem muitos interesses obscuros envoltos nesse conflito, mas o principal elemento envolve o quesito energia. O petróleo certamente se mantém como o principal ingrediente para a manutenção das tensões, até porque a dependência mundial por combustíveis fósseis sequer foi amenizada por novas tendências tecnológicas, como o uso da eletrificação em diversos segmentos, da indústria automotiva a produção de energia limpa. Trump flerta perigosamente com o terceiro conflito mundial ao ditar suas regras pelo poder das armas, condição que tentou imputar sem sucesso ao destemido presidente ucraniano Volodimir Zelensky. Do alto de sua ousadia, garantiu que “resolveria” a guerra na Ucrânia em 24 horas e o conflito se estende há mais de quatro anos.  

Os efeitos danosos dessa impensada empreitada já chegaram. Os preços dos combustíveis foram reajustados, onerando absolutamente todos os produtos e serviços. É apenas o início de uma época repleta de dificuldades. O semideus será evocado no futuro por se assemelhar ao invencível He Man em sua célebre frase “Eu tenho a força!”. Com a diferença de que aquele icônico herói platinado lutava apenas para proteger. Trump luta para perpetuar a hegemonia de suas utopias imperialistas.               


(*) José Luiz Boromelo, escritor e cronista em Marialva/PR

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