Noventa e três anos


Nasci num lugar chamado Bela Joana, na região montanhosa do município de São Fidélis-RJ, onde meu pai cultivava café, feijão, milho, mandioca e frutas
Fico até espantado só de pensar que anteontem, 7 de abril, completei 93 anos, quase um século de permanência neste planetinha. Em janeiro completei também 71 anos de residência em Maringá e 68 de casamento com Lucilla.
Nasci num lugar chamado Bela Joana, na região montanhosa do município de São Fidélis-RJ, onde meu pai cultivava café, feijão, milho, mandioca e frutas. Com 8 anos, fui mudado para a cidade, a fim de continuar os estudos iniciados numa escolinha rural, mas continuei a passar as férias na roça.
Lá eu tinha uns poucos amigos: dois sobrinhos da minha idade – Paulinho Fernando e José Augusto, e os filhos dos sitiantes vizinhos – os gêmeos Renan e Renato, o Antônio do Arquimedes, o Jacy de Dona Davina.
A gente inventava um monte de brinquedos, porém era proibido caçar passarinhos. Meu pai não nos permitia usar estilingues nem arapucas. Para compensar, formou um pomar atrás de nossa casa e entre as árvores colocou umas caixas onde punha alpiste, canjiquinha e outros alimentos. Com isso atraía pássaros de toda espécie: azulões, sabiás, coleirinhos, melros, pica-paus, periquitos, juritis, saíras. Era o dia inteiro aquela cantoria.
Costumo pensar que os passarinhos foram meus primeiros professores de poesia. Eu ficava horas no pomar observando a movimentação deles e ouvindo os seus gorjeios. Alguns eram mais achegados, me conheciam e vinham até pousar nas minhas mãos.
A infância e adolescência envolvidas nesse ambiente silvestre me deixaram marcas fortes. Quando vim para Maringá, nos primeiros tempos gostava de ir nos domingos ao Horto Florestal matar saudade. Era o jardinzão onde a população pioneira tomava banho de sol, fazia piquenique e as crianças se divertiam.
Mas os anos passaram, a vida rapidamente urbanizou-se, o contato com a natureza foi rareando. De vez em quando a gente escuta ainda o canto de um sabiá. Porém o cheiro e os sons primitivos da roça e do mato nunca mais serão os mesmos.
(Crônica publicada na edição de hoje do Jornal do Povo)
*/ ?>
