Abandonado pela construtora, complexo educacional vira um ‘elefante branco’

Maringá defende no TCE contratação emergencial para retomar obras do Complexo Educacional Jardim Espanha, construção milionária que está se deteriorando depois que foi abandonada pela empreiteira que venceu a licitação em 2021
A Prefeitura de Maringá apresentou ao Tribunal de Contas do Estado do Paraná uma manifestação técnica e jurídica defendendo a necessidade de contratação emergencial para concluir as obras do Complexo Educacional Jardim Espanha. O documento responde à matriz de achados preliminar do processo no TCE-PR que tem foco no atraso e descumprimento do cronograma da construção.
A obra, regida pelo contrato nº 1.354/2021, teve ordem de serviço emitida em 21 de janeiro de 2022 e prazo original de 900 dias. Após cinco aditivos que somaram 620 dias, a data final passou para 21 de março de 2026. Com 83,36% de execução física, a empresa contratada abandonou o canteiro, entregou as chaves e desmobilizou a equipe, o que levou a atual administração a instaurar processo administrativo para apurar infrações e promover a rescisão unilateral.

Trata-se de um projeto muito grande: no mesmo local serão uma escola municipal com 12 salas de aula, sala de artes, sala de dança, sala de multiuso e brinquedoteca; um centro municipal de educação infantil em dois pavimentos, com 16 salas de aula, quadra, salão de multiuso e brinquedoteca; um anfiteatro, com capacidade para público com mais de 400 pessoas, com palco, coxia e camarins; uma quadra poliesportiva coberta, com arquibancada, dois mini campos de futebol e estacionamento privativo; três elevadores (um deles panorâmico) e um ginásio de natação, com piscina adaptada a deficientes e portadores de necessidades especiais. O estabelecimento pode abrigar cerca de 750 alunos. O custo de seu funcionamento, com a contratação de profissionais da área de educação, não é conhecido.
Com o abandono por parte da empreiteira, que pediu recuperação judicial, muito terá que ser refeito, começando praticamente do zero. Outra preocupação é com equipamentos que foram colocados nas salas, como aparelhos de ar-condicionado, luminárias, móveis, lixeiras, ventiladores e lousas, que correm risco de serem perdidos, expostos à poeira, com risco de furto.

A Secretaria Municipal de Obras Públicas aponta a necessidade de levantamentos técnicos rigorosos. Uma força-tarefa foi montada para elaborar o as-built (conferência do executado com o projeto), avaliar o estado de conservação após o abandono, quantificar os 16,64% de serviços remanescentes e atualizar orçamentos e cronogramas. A medida visa garantir dados fidedignos e atender ao princípio da eficiência e à Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro.
No documento, a administração destaca a urgência real da paralisação. O canteiro está vulnerável a furtos (já registrados em boletins de ocorrência de fiação, esquadrias e materiais de acabamento), vandalismo e degradação estrutural por exposição às intempéries. A Prefeitura argumenta que a nova contratação deve seguir a lei nº 14.133/2021, com base no artigo 75, inciso VIII (dispensa por emergência), e, subsidiariamente, no artigo 75, inciso IV, combinado com o artigo 90, § 7º (remanescente de obra após rescisão).

Uma análise comparativa aponta que a contratação emergencial imediata é mais vantajosa do que aguardar uma licitação regular. No cenário de espera, acumulam-se custos de vigilância prolongada, perdas recorrentes por furto, necessidade de retrabalhos, reajustes de preços da construção civil e prejuízo social pela falta de vagas escolares. Já a retomada emergencial elimina ou reduz drasticamente esses riscos, permitindo a conclusão e entrega do equipamento no menor prazo possível, em linha com os princípios da economicidade e da eficiência.
Entre as providências já adotadas, a Prefeitura cita o processo sancionador contra a empresa, a mobilização de equipe para planta iluminada e quantitativos, o reforço no isolamento do perímetro e o compromisso de enviar relatórios semestrais ao TCE até a conclusão definitiva.

Nos pedidos, o município solicita o acolhimento da manifestação, o reconhecimento da regularidade da contratação emergencial, eventual prazo adicional para levantamentos técnicos e a admissão dos boletins de ocorrência como prova dos danos patrimoniais.
A obra foi licitada em 2021, primeiro ano da segunda administração Ulisses Maia (PSD), e previa a execução de várias edificações para o Complexo Educacional Jardim Espanha, em duas fases, tomando toda a quadra formadas pelas ruas Izabel Fernandes Cano, Pedro Cano, Rubens Orlandini Rubim e Maria Campagnucci (28.768,00 metros quadrados), no Jardim Espanha. Todos os recursos a serem aplicados são dos cofres municipais.

Na campanha eleitoral de 2024 a construção foi anunciada como sendo o maior complexo educacional público do país, mas o andamento das obras já estava atrasado e haviam sido autorizadas mais de duas dezenas de aditivos que fizeram o complexo ficar milhões de reais mais caro que a previsão da licitação.
O valor homologado em 22 de dezembro de 2021 foi de R$ 35.852.369,26. O contrato com a construtora, de Curitiba, foi publicado no dia seguinte, 23, recebendo 28 aditivos. O primeiro deles, no valor de R$ 575.405,24, foi assinado pelo então prefeito e pela secretária de Obras Públicas Érica Magalhães Barbosa em 28 de abril de 2022. Em 2025 a administração fez aditivos de prazo e de valores inferiores a 2% da obra. Foram verificados erros primários na construção, da falta de rejunte no piso a rachaduras e afundamento de cercas e calçamento. Chama a atenção a falta de acabamento nos serviços realizados, muitos deles já pagos pelo município após a medição.

A empresa contratada passou a exigir aditivos e enfrentava dificuldades para concluir a obra no prazo previsto – março deste ano. O grupo ao qual pertence a empresa teve seu processo de recuperação judicial ajuizado e deferido em agosto de 2024, na 3ª Vara Estadual de Falências e Recuperação Judicial e Arbitragem da Comarca de Curitiba.
Estima-se que a obra, que até agora consumiu cerca de R$ 40 milhões, possa custar ainda mais R$ 20 milhões, devido à situação crítica em que se encontram algumas edificações.

Fotos: Angelo Rigon/Google Earth
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