Caso Ana Lúcia: nenhum ex-assessor topou depor

Diante da incapacidade de contestar as evidências objetivas e o sumiço das testemunhas de defesa, fabrica-se um acontecimento artificial de cunho puramente emocional

A realidade que emerge dos bastidores do Legislativo maringaense desenha um cenário de deserto e absoluto isolamento político ao redor da vereadora Ana Lúcia. Diante do avanço dos trabalhos da Comissão Processante na Câmara de Maringá, fica evidente que, se a atmosfera interna de seu gabinete fosse historicamente pautada pelo idílio e pela retidão, a fila de testemunhas voluntárias prontas a defendê-la seria longa. O que se constata, porém, é o peso do silêncio de quem esteve lá dentro.

A instrução processual revela dados objetivos e incontestáveis. Com a única exceção do atual ocupante da chefia de gabinete, que cumpre o protocolar papel de lealdade ao cargo, nenhum outro ex-chefe de gabinete aceitou depôr a favor da parlamentar. O mesmo fenômeno repete-se entre os antigos assessores: nenhum deles se dispôs a avalizar formalmente a conduta da ex-chefe. Até mesmo a única testemunha intimada para a instrução, que já dirigiu a equipe de Ana, Lilian Chirnev, de cujo depoimento foi descartado pela defesa. Esse esvaziamento coletivo não é mero acaso; é o sintoma político mais contundente da possibilidade de se tratar de uma engrenagem que funcionava à base da coerção e intimidação.

É sob esse cenário de abandono por parte de seus antigos colaboradores que a recente entrevista da parlamentar, na qual relata choro, adoecimento psicológico e o sofrimento que o processo lhe impõe, ganha contornos de ironia. Opera-se aqui o que a ciência política e a análise do discurso costumam classificar como a tática do “não fato”. Diante da incapacidade de contestar as evidências objetivas e o sumiço das testemunhas de defesa, fabrica-se um acontecimento artificial de cunho puramente emocional. O sofrimento pessoal é alçado à condição de fato político central para tentar nublar e substituir a materialidade das acusações de assédio e abuso de poder que correm nos autos.

Nos corredores da Câmara, os relatos sobre a rotina interna comandada pela parlamentar pintam um quadro cinzento que desidrata essa narrativa de conveniência. Fala-se frequentemente sobre reuniões de equipe convertidas em palcos de intimidação, onde dispensas sumárias de servidores seriam executadas na presença dos demais subordinados — uma prática descrita por interlocutores como um método pedagógico de pressão psicológica voltado a servir de alerta aos que ficavam.

Entre os episódios mais comentados nos bastidores do Legislativo, destaca-se o caso de uma ex-assessora, residente em um distrito de Maringá, que teria sido deliberadamente levada aos prantos em público, em frente aos demais colegas de trabalho, pela parlamentar. Comenta-se nas redes de interlocução política da Casa que o método da humilhação ostensiva até o colapso emocional contava com a anuência teórica de seu estrategista político e conpanheiro Leal. Não fosse o compreensível zelo para não fazer reviver traumas e expor ainda mais pessoas que preferem o distanciamento, o depoimento formal dessas vozes silenciadas consolidaria o desenho definitivo sobre o padrão de gestão do gabinete.

A tese defensiva de perseguição política desidrata-se quando confrontada com o histórico da investigada, conhecido muito antes de ela ostentar o broche de vereadora. A possibilidade de a comissão processante encontrar uma única viva alma capaz de testemunhar ter visto lágrimas genuínas de empatia nos olhos da professora ao dispensar um subordinado — desde os seus tempos de docência na Universidade Estadual de Maringá (UEM) — guarda estrita semelhança com a probabilidade de um elefante levantar voo sobre a Catedral. Já para encontrar relatos em sentido oposto, basta um café descompromissado com ex-funcionários, antigos colegas de departamento da UEM ou pesquisadores do Observatório das Metrópoles.

O “não fato” do martírio político pode até sensibilizar a opinião pública desavisada ou alimentar bolhas de militância. Mas, para os julgadores que analisam o mérito do processo, fica o registro estratégico: quem sempre operou com frieza o maquinário da pressão interna não pode, agora, pretender paralisar a aplicação do ordenamento jurídico e a avaliação do decoro parlamentar sob o pretexto de que a própria lei lhe causa desconforto.

Imagem gerada por IA