Meus professores, sou um pouco de cada um deles e dos que virão


O rigor da dona Isabel me fazia pensar. Estudar regras gramaticais até decorar
Na escola, minha letra era horrível. No antigo primeiro grau, tive uma professora, a dona Isabel, que não aceitava letras de fôrma. Eu me habituei a escrever assim. Na primeira vez, ela me advertiu e pediu que eu parasse de escrever daquele jeito. Não obedeci. Numa prova, ela me deu zero. Sempre fora bom em Língua Portuguesa, mas a letra quase me fez ficar em recuperação. De nada adiantava eu fazer uma redação profunda, com dados, afirmações, provas. Tinha de escrever com letrinha redonda, emendada…
Demorei a aprender a desenhar letras. O problema era que daquele jeito eu não acompanhava o ditado dos professores. Tinha de recorrer à aquele que se sentava ao meu lado. Em gramática, a dona Isabel também era exigente. Nada de começar frases com pronome próclise, aquele famoso refrão do Tim Maia: “Me dê motivos”… E eu sempre tive o hábito de escrever como se fala. Não me vejo dizendo: “Dê-me seu livro?”. Meus ouvidos agradecem um “Me dê seu livro?” Em concurso público, vestibular, provas de seleções de mestrado e doutorado, aí sim grafarei “Dê-me”. Do contrário, a próclise.
Mas voltando à dona Isabel. O rigor dela me fazia pensar. Estudar regras gramaticais até decorar. Ela nos sugeria alguns livros, mas não ligava as leituras deles ao que se aprendia na gramática. Mais tarde, após a faculdade, fiz uma especialização em linguística e literatura que me ajudou a entender o processo de aprendizagem. Percebi que eu dominava as regras gramaticais, mas não tinha fluência na linguagem nem percebia os trejeitos das falas. Escrevia certo, sem erros, mas um texto morto, sem beleza figurativa.
Fiz essa volta para dizer que os professores sempre nos ensinam. Mesmo focando um assunto e desprezando outros. Dona Isabel me fez melhorar a letra e entender que a gramática é importante no aprendizado. Mas é preciso saber que a fala, a linguagem e a língua fluem por aí… Não se pode pôr uma delas numa caixinha e dizer que está tudo resolvido. E, hoje, portanto, meus cumprimentos aos professores. Sou um pouco de cada um deles e dos que virão, na língua, na fala e na linguagem.
(*) Donizete Oliveira, jornalista e historiador
Foto: Ruslan Horovyi/Unsplash
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