Maringá sob o signo da intolerância: quando a violência ameaça a democracia

O que acontece com a cidade? Apesar dos muitos episódios de violência, intimidação e ameaças, existe o risco de que tudo isso seja absorvido pela rotina

Há algo profundamente preocupante acontecendo em Maringá. E o mais inquietante talvez não seja apenas a sucessão de episódios de violência, intimidação e ameaças, mas o risco de que tudo isso seja absorvido pela rotina, como se fosse mais um capítulo inevitável da polarização política brasileira.

No último sábado, durante uma carreata do Partido dos Trabalhadores, descrita por participantes como pacífica e ordeira, um homem teria agredido cinco militantes. Depois, apareceu ensanguentado, transtornado e afirmando ter batido em cinco petistas. O episódio, ignorado pela imprensa local, exceto pelo Blog do Rigo]n, expõe uma realidade que não pode ser relativizada: ninguém deveria ser agredido por suas convicções políticas.

Imaginem se fosse o contrário: um petista tivesse agredido 5 manifestantes bolsonaristas?

Os relatos vão além. Há denúncias de perseguição a comerciantes identificados com a esquerda e de listas circulando em grupos de mensagens. Se confirmadas, essas práticas revelam uma tentativa de transformar a posição política de cidadãos em instrumento de intimidação. A divergência é legítima; a perseguição, não.

Ainda mais alarmantes são as denúncias envolvendo estudantes de instituições privadas e mensagens com referências nazistas, ameaças de morte contra professores e possíveis combinações de ataques a escolas. Esses relatos precisam ser rigorosamente investigados. Ameaças dessa natureza não podem ser tratadas como brincadeiras ou excessos juvenis. Quando a violência entra no horizonte da comunidade escolar, a prevenção e a proteção das possíveis vítimas são urgentes.

A democracia começa a se deteriorar quando o adversário deixa de ser alguém com quem discordamos e passa a ser alguém que acreditamos ter o direito de intimidar.

Onde está a imprensa?

Alguns veículos locais já noticiaram parte desses episódios. A questão, portanto, não é afirmar que existe silêncio absoluto, mas perguntar se a cobertura tem sido proporcional à gravidade dos fatos. Há investigação sobre uma possível conexão entre as ocorrências? As autoridades estão sendo cobradas? Os casos continuarão sendo acompanhados depois da repercussão inicial?

Uma notícia isolada informa. O jornalismo comprometido com o interesse público investiga, contextualiza e cobra respostas. Se há sinais de recorrência da violência política, é preciso apurar a existência de um padrão, sem antecipar conclusões nem transformar suspeitas em certezas.

O silêncio, quando existe, pode ter muitas causas. Mas a falta de visibilidade e de acompanhamento público favorece a impunidade e a normalização da intolerância.

Também é preciso recusar a falsa equivalência segundo a qual todos os lados seriam igualmente responsáveis por tudo. Cada ocorrência deve ser examinada a partir das evidências e das responsabilidades concretas. A defesa da democracia não exige distribuir culpas abstratas, mas cobrar respostas de quem efetivamente ameaça ou pratica violência.

Maringá não pode se acostumar.

Cidades não perdem sua cultura democrática de uma hora para outra. O processo avança quando agressões são comemoradas, ameaças são relativizadas e cidadãos passam a temer represálias por suas opiniões. Avança quando um comerciante precisa esconder suas convicções ou um professor teme se tornar alvo por exercer sua profissão.

As autoridades precisam investigar e proteger as pessoas ameaçadas. As instituições de ensino devem agir preventivamente. As lideranças políticas precisam condenar a violência sem justificativas seletivas. E a imprensa deve acompanhar os acontecimentos com a seriedade que merecem.

Não se trata de alimentar o pânico nem de condenar antecipadamente pessoas ou instituições. Trata-se de reconhecer a gravidade das denúncias e impedir que a intimidação se torne parte da vida cotidiana.

A democracia não exige que gostemos uns dos outros. Exige que reconheçamos os direitos de quem pensa diferente.

Uma carreata não pode terminar em agressões por causa de suas bandeiras. Um comerciante não pode ser perseguido por sua preferência eleitoral. Um professor não pode receber ameaças de morte por suas ideias.

O que está em jogo não é a vitória de um partido sobre outro, mas a liberdade de viver, trabalhar, ensinar e participar da política sem medo.

Maringá precisa olhar para esse cenário sem complacência. A imprensa precisa investigar. As autoridades precisam agir. E a sociedade precisa compreender que a violência política não começa quando a democracia acaba. Muitas vezes, ela avança justamente quando todos começam a acreditar que ainda não há motivo suficiente para se preocupar.

Imagem gerada por IA