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O que é isso, companheiro?

De José Luiz Boromelo:
A matéria nas revistas semanais de circulação nacional fez-me lembrar de um amigo cronista, crítico daquele sistema de governo quando a nação foi conduzida (por dois mandatos consecutivos), por um militante político que foi torneiro mecânico e sindicalista. Agora o ex-presidente se vê às voltas com uma grave denúncia contra sua pessoa. Eis que para defender-se utiliza uma estratégia condenável: tenta desacreditar seu acusador perante a opinião pública. Mas o que lhe imputam de tão sério, a ponto de vir a público externar sua versão dos fatos? Tráfico de influências, dizem alguns. Outros, mais pragmáticos, lhe conferem a responsabilidade de tentar manipular o rumo de certos acontecimentos conforme seus interesses (entenda-se uma indevida “pressão” a ministros do STF), para que se procrastine um determinado julgamento naquele órgão federal.
Ainda que a notícia não venha a macular a imagem do notório cidadão em questão, a análise faz-se necessária partindo de outros princípios, bem mais complexos que uma simples opinião ante a reportagem veiculada. É interessante quando constatamos que nesse país, ex-ocupantes de altos cargos continuem a exercer o fascínio e a admiração das pessoas. Não se pode ignorar que passaram a fazer parte da história de uma nação ordeira onde a paz (felizmente) predomina. E todos os que ostentaram aquela faixa verde-amarela no peito têm a sua relevância, de acordo com os fatos ocorridos durante o cumprimento do mandato a que foram eleitos. Alguns, com certeza, gostariam de esquecer definitivamente o passado. Mas isso é totalmente desnecessário porque o povo, esse sim, se esquece – com extrema facilidade – de tudo o que presenciou nessas últimas décadas, e os exemplos estão aí, na forma de mandatos eletivos, em plena atuação. Até parece que sofremos de amnésia coletiva, pois o brasileiro demonstra ter péssima memória e uma ignorância política invejável.
De acordo com o sempre solícito e equânime presidente da Câmara dos Deputados, faz-se necessário ministrar generosas doses de chá de camomila aos protagonistas do entrevero federal, a fim de minimizar os efeitos das alterações repentinas nos níveis de testosterona dos contendores. Isso soa algo ingênuo, mas a intenção é exatamente essa: tentar colocar panos quentes nas declarações azedas dos envolvidos. Sabedor do pouco (ou nenhum) crédito de sinceridade das palavras do mais ilustre petista, a tropa de choque palaciana mobiliza-se para desfazer o mal-entendido. Acontece que o ministro citado na reportagem é firme em suas declarações. E mostra coragem e determinação sem economizar nas palavras, conferindo credibilidade às suas assertivas. Porém, não é difícil imaginar quais os verdadeiros objetivos da suposta espremida nos ministros. O “chega prá lá” ministerial teria endereço certo e finalidades específicas e não enseja celeridade alguma no julgamento do processo conhecido como “Mensalão”, que envolveria integrantes do governo passado.
Não é admissível esse tipo de conduta por parte de autoridades que ocuparam cargos de tamanha relevância, uma vez que personalidades públicas gozam (em tese) de prestígio perante a sociedade e não haveriam de servir-se dessa condição “sui generis”. Mas certos comportamentos são inerentes à raça humana e não excluem ninguém por sua profissão, conceitos ou doutrinas. O que resta ao cidadão comum é acompanhar com melancolia o próximo ato. Que não tardará a acontecer, pois se o conhecemos bem (tivemos oito anos para isso) a falácia costumeira e sem taramelas verbais logo se revelará, em sua forma mais plena. Fica evidente o seu total desapego com a ética agora explícito e sem culpas para com uma nação que, impregnada por fundamentadas esperanças, encarregou-se de alçá-lo ao cargo máximo desse país em duas oportunidades.
Portanto, espera-se que o ex-metalúrgico volte às suas origens e se faça acompanhar da obstinação e da humildade, que sempre foram seus traços marcantes. E que deixe as decisões das mais altas cortes desse país seguirem seu curso normal, em respeito ao fortalecimento da independência das instituições e à manutenção do estado democrático de direito, patrimônio maior da almejada democracia.
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José Luiz Boromelo, escritor e cronista.

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