Do padre Orivaldo Robles:
A admiração tomou conta até dos mais afastados. Voltaram-se todos para ele. E como outro grupo que, em diferente oportunidade, lhe tinha exigido a condenação de uma mulher surpreendida em adultério, cabisbaixos e envergonhados, um por um, começaram a retirar-se. Os mais velhos, na frente. Um jovem de cabeleira farta e barba eriçada arriscou o palpite: “Esse não será Jesus de Nazaré, o rabi de quem falam maravilhas? Quem, senão ele, veria qualidades até num cão morto”?
Conheço a fábula desde não sei quando. Na realidade, faz muito tempo. O texto apresenta, aqui ou ali, pequenas variantes. No entanto, é sempre o mesmo relato. Nunca lhe soube a origem até que, agora, ao pesquisar, vim saber que está no livro “Lendas do bom rabi”, de Malba Tahan, pseudônimo de Júlio César de Mello e Souza (1895-1974). Apaixonado por Matemática e pela cultura árabe, ele dignificou, como poucos, a carreira de professor, que exerceu durante a vida inteira.
Desculpe-me, inusitado leitor, andei divagando. A fábula vale pela sua moral. Não é fato verídico, porém aduz precioso ensinamento. Atual também.
No trânsito, nunca uma criança do veículo à sua frente lhe mostrou a língua? Calculo que você ficou sem graça. “Que eu fiz para merecer isso?”, deve ter-se perguntado. Ligue não, assim é nosso mundo. Sartre propôs que “o inferno são os outros”. Na sociedade agressiva e injusta em que vivemos, filhos são preparados para competir na vida adulta. Aprendem, desde cedo, a encarar os outros como adversários. Como concorrentes interessados em roubar aquela vaga na creche, no hospital, na universidade, no emprego, no trânsito…
“Quem é o meu próximo?” (Lc 10,29), pergunta-se no Evangelho. A sociedade atual não dá a mínima para a resposta do Mestre. Já tem a sua: “Próximo é o sujeito no qual devo pisar sempre. Ele não tem nenhuma qualidade boa. O próximo não presta”. Ele é a Geni da música do Chico Buarque. Ou pior.
É!… Perdemos na poeira do tempo aquilo que o bom rabi viveu e transmitiu. Para muitos a sua doutrina transformou-se num amontoado de conselhos para consolar perdedores. A História registra e admira os feitos dos que venceram. Dos senhores de povos e nações. Daqueles cujas conquistas se adubaram no ódio e na violência. A isso chamam civilização. Também dão o nome de progresso.