O mata-fome da Dona Rosa


Dona Rosa era a nona de muitos amigos da vizinhança, com quem eu brincava pelas ruas, “naquele tempo dos quintais”, em que as crianças pertenciam ao bairro inteiro: nossa bucólica e legendária “vilinha”. Era também uma mulher de sabedoria mansa
Há sabores que pertencem mais à memória do que ao paladar. O tempo, que costuma apagar tantas coisas importantes, conserva com extraordinária fidelidade certos aromas, certas vozes e certas receitas que jamais foram escritas. Entre as muitas lembranças da minha infância, um que me visitou com delicadeza, foi o mata-fome da Dona Rosa.
Era, em essência, um pudim de pão. Nada mais simples. E justamente por isso ninguém conseguia explicar por que o dela era diferente. Na cidade havia muitos; cada família possuía a própria receita, cada forno imprimia um textura diferente. Porém o da Dona Rosa era único. Inigualável. Talvez porque alguns ingredientes nunca tenham sido vendidos em mercado algum: a paciência, a generosidade e a dedicação.
Dona Rosa era a nona de muitos amigos da vizinhança, com quem eu brincava pelas ruas, “naquele tempo dos quintais”, em que as crianças pertenciam ao bairro inteiro: nossa bucólica e legendária “vilinha”. Era também uma mulher de sabedoria mansa. Quando nos via passar diante de sua casa, não permitia que seguíssemos adiante sem uma palavra. Sempre havia um conselho, uma pequena história ou uma lição escondida entre frases aparentemente simples. Hoje compreendo que ela alimentava muito mais do que nossos olhos para os doces.
Era grande amiga de minha avó. As duas possuíam uma fidelidade rara às pessoas e à fé. Bastava ouvir falar que alguém havia partido deste mundo para que deixassem qualquer compromisso e corressem ao velório, onde puxavam as orações pelo descanso daquela alma. Naquele tempo havia mulheres que sustentavam a fé de uma comunidade inteira apenas com a presença.
Dias atrás, em Maringá, encontrei por acaso o Edmilson, o Bodão — porque naquele tempo todos nós tínhamos apelidos, e quase ninguém era conhecido pelo nome de batismo. Hoje ele mora em Rondônia, mas estava visitando o pai, o professor Pupim, figura igualmente importante na memória de nossa geração. O professor foi bravo companheirão de torcida guerreira pelo Grêmio Maringá, em especial na inesquecível campanha de 1977, quando o clube conquistou o título estadual superando adversários gigantes como Coritiba, Atlético Paranaense e Colorado.
Conversamos apressadamente, mas como sempre acontece entre amigos de infância, os anos desapareceram em poucos minutos. E, sem que ninguém previsse, o assunto chegou ao mata-fome da Dona Rosa. Concordamos imediatamente: nunca existiu outro igual.
Agora, em viagem pelo Rio de Janeiro, cidade onde também morei e pela qual guardo imensa nostalgia, entrei na tradicional Casa Cavé, um dos mais antigos e respeitados pontos gastronômicos da região da Cinelândia. Ali encontrei um pudim que me levou imediatamente de volta à infância. Sentei-me para tomar um cappuccino e provei aquela fatia lentamente, quase com uma devoção sagrada. Era boa. Muito boa. Mas havia nela uma ausência impossível de preencher.
Ainda assim, fotografei a sobremesa e enviei a imagem ao Edmilson, lá em Rondônia. Imagino que tenha olhado para a tela do celular com a mesma saliva de menino e com o coração apertado de saudade da nona.
A gastronomia se transforma, as receitas se perdem e os cozinheiros partem. Mas certas lembranças permanecem intactas, atravessando décadas com uma força que o tempo não consegue diminuir.
Dona Rosa, onde quer que a senhora esteja, saiba que continua entre nós. Continua nas memórias que despertam um sabor esquecido, na saudade que insiste em visitar os dias presentes e nas boas lições de vida que a senhora soube repartir com a mesma simplicidade com que servia o inesquecível mata-fome.
PS. Na Casa Cavé sentei-me a mesa que era frequentada pelo Mário de Andrade.
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