Aí deu errado…

As mãos que estavam programadas para produzir comida boa e obras de arte associaram-se a cérebros medonhos

Plantou-se uma semente programada para transformar-se em figo, outra para transformar-se em trigo, outra para transformar-se em milho, outra para transformar-se em rosa. E todas se transformaram no que previsto estava.

Uniram-se duas sementes programadas para transformar-se em garças, outras duas para transformar-se em ovelhas, outras duas para transformar-se em vaga-lumes, outras duas para transformar-se em estrelas-do-mar. E todas se transformaram conforme programado estava.

Casaram-se então duas sementes programadas para transformar-se em homens e mulheres, os quais, por sua vez, estavam programados para cuidar e desfrutar de tudo o que as demais sementes produzissem.

Na mesa estava o banquete. Juntassem-se os homens e as mulheres e seus descendentes para à vontade se servirem.

Porém a partir daí se complicaram as coisas. No que passou a depender dos homens e das mulheres, o plano começou a não dar certo. Ele e ela fizeram tudo diferente do que estava programado. E em vez de se amar, brigaram.

Agora está difícil desapartar a briga.

As mãos que estavam programadas para produzir comida boa e obras de arte associaram-se a cérebros medonhos e deram início à crescente produção de lanças, porretes, bodoques, tacapes, facas, espadas,  espingardas, fuzis, metralhadoras, canhões, torpedos, drones, mísseis, megabombas…

Mas você pode dizer que a maioria da humanidade é formada por gente pacata e boa. E é sim. Não conheço nenhuma estatística sobre isso, mas acredito que mais de 80 por cento são pessoas do bem e da paz, gente que trabalha, estuda, toma uma cervejinha no final da semana e não faz mal a ninguém.

O problema é que os outros 20 por cento ou vivem brigando, matando, roubando, xingando, gritando, atropelando, ou botando mais lenha nas fogueiras, com isso tirando o sossego e o sono dos demais.

O que fazer então? Sei não. Acho que podemos pelo menos pedir aos céus que amansem esses encrenqueiros todos, antes que eles completem o estrago.


(Crônica publicada na edição de hoje do Jornal do Povo )

Foto: Erke Rysdauletov/Unsplash