Mirou em Lula para acertar o Senado

O plano real, desde o início, é fazer do Senado bastião de poder do bolsonarismo

Dizem por aí os analistas de véspera que o barulho provocado pelo ministro André Mendonça (foto) no STF foi para atrapalhar a reeleição de Lula. Conversa fiada de quem não conhece o riscado de Brasília. O tiro de Mendonça teve como endereço certo as urnas de outubro, mas para o Senado Federal. Eles sabem muito bem que a Presidência para Flávio Bolsonaro é um sonho distante.

A desconfiança sobre ele é grande dentro do próprio grupo, a ficha é suja e o rabo preso com gente envolvida com milícia e tráfico pesa demais. Sabendo que o Planalto nunca foi o alvo, o plano real, desde o início, é fazer do Senado bastião de poder do bolsonarismo, elegendo uma bancada forte para garantir a anistia e emparedar o tribunal.

Só que o ministro, que também é pastor, esqueceu de combinar com o destino e com as leis do próprio Deus que ele prega. Na Bíblia está escrito que o homem colhe o que planta. Ao abrir a caixa de Pandora da Corte para desestabilizar o jogo, Mendonça soltou um demônio político que não aceita rédea, crente de que conseguiria guiar a criatura até o altar do voto conservador.

A crise saiu do controle e ganhou vida própria. Esse monstro que agora ronda a Praça dos Três Poderes já começou a mudar de rumo e a morder o calcanhar do próprio pastor. O fogo que Mendonça acendeu para inflar as urnas do Senado virou contra o vento. No fim das contas, a criatura vai acabar devorando o ministro e quem mais estiver por perto, deixando o tribunal inteiro em cinzas.

Quem brinca com assombração não escolhe quem vai levar o susto, e o feitiço sempre cobra o seu preço de quem o libertou. Deus não se deixa escarnecer, nem mesmo por quem veste toga.

Foto: Rosinei Coutinho/STF