O “peitrômetro”

Homem de fé, Seu Silvino pediu as bênçãos de Deus e mandou ver. Abriu espaço na mata, preparou o terreno, deu início à formação da fazenda

Consta que os corretores da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná tinham sempre à mão uma fita métrica, usada por eles para fazer o cadastro dos primeiros candidatos à compra de lotes rurais e terrenos urbanos.

Aqueles homens arrojados vinham de diferentes lugares. Eram paulistas, mineiros, catarinenses, gaúchos, nordestinos, italianos, japoneses. Lá onde moravam eram geralmente colonos ou proprietários de pequenos sítios e sonhavam melhorar de vida.

Mas ninguém conhecia ninguém, então era preciso confiar. E aí entrava a fita métrica. Era o “peitômetro”, com o qual o corretor media o peito do comprador. Se o desconhecido era peitudo, abria-se-lhe o crédito e fechava-se o negócio.

Assim começou a história de quase todos os grandes pioneiros do norte-noroeste do Paraná. Tomo como modelo Seu Silvino Dias.

Não havia nada nesta verde e imensa gleba, a não ser a cheirosa floresta. Ele, paulista de Taquaritinga, crescido em Quatá, ouvira maravilhas sobre o eldorado que começava a ser descortinado aqui. Decidiu conferir de perto. De Londrina a Mandaguari veio a cavalo. Entrou no escritório da colonizadora, olhou o mapa, pôs o dedo num lugar pertinho de onde viria a nascer a cidade de Maringá. Sem pestanejar, abriu  a bolsa, tirou o talão de cheques, disse ao atendente: “Pode preparar os papéis”. Comprou um pedação de terras: “Vou formar aqui um belíssimo cafezal”, anunciou. Na volta, mandou de Londrina um telegrama para Dona Helena dando a grande notícia.    

Seu Silvino tinha apenas 27 anos e já era pai. A família cresceu rápido: nove filhos homens, todos nascidos em Quatá. Em Maringá nasceu a caçula, a única menina, Terezinha. Todos gente muito querida.

Homem de fé, Seu Silvino pediu as bênçãos de Deus e mandou ver. Abriu espaço na mata, preparou o terreno, deu início à formação da fazenda. Enquanto o café crescia, ele plantava roças de milho e feijão e criava porcos e galinhas.

Como ele, tantos outros, que ao lado de tantas valentes mulheres fizeram maravilhas nestas belas terras. O “peitômetro” tem sempre razão.

A eles e a elas devemos a poderosa Maringá que hoje nos enche de alegria. Que bom que tiveram peito e valentia para vir e ficar.

 Seu Silvino despediu-se de nós em 2006, com 95 anos.


(Crônica publicada naedição de hoje do Jornal do Povo)