Nossos cegos de cada dia…


Saramago nos lembra da responsabilidade de quem tem olhos, quando outros os perderam
Um motorista parado no semáforo. De repente, a branquidão. Ele está cego. Um sujeito vê a cena e o ajuda a chegar em casa. Assim começa “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago. Um dos melhores livro de ficção que já li. Da cena do carro parado, e o motorista cego, começa uma epidemia, que o narrador, em terceira pessoa, chama de “treva branca”. Na sequência, aquele que auxiliou o motorista também se cega. Ele vai a um médico, que no outro dia perde as vistas. Os personagens não têm nome. “A mulher do médico” (e o próprio), “a rapariga dos óculos escuros”, “o velho da venda preta” (nos olhos) e “o rapazinho estrábico” são os principais, mas cego é o que não falta na cidade.
Saramago nos lembra da responsabilidade de quem tem olhos, quando outros os perderam. Logo, as autoridades públicas tomam pé da situação e os confinam. Os cegos são encaminhados para um hospital psiquiátrico desativado. Ali, vivenciam toda sorte de problemas. Apenas a mulher do médico não perdera a visão. Assim, ela tem a incumbência de guiar os outros cegos. A metáfora social nos conduz a caminhos estreitos. Para transpô-los é preciso se despir dos rompantes e se pôr a conduzir quem não mais enxerga. Me faz lembrar, num bom sentido, o surrado adágio: “Em terra de cego quem tem um olho é rei”.
Não vou revelar a trama e o desfecho do livro, sugiro que você o leia. Se estiver coragem. Como diz a contracapa da edição da Companhia das Letras: “Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver”. Sim, parar e ajudar o próximo que está ali, cego de ilusões que o mundo lhe proporciona. “Ensaio sobre a cegueira” é a chance que temos de recuperar a lucidez e resgatar o afeto. Um livro, de 310 páginas, que se lê numa tacada, como dizia um professor que tive no antigo segundo grau. Salve, Saramago, que escrita! Refinada. Lúcida. Enriquecedora.
Meu exemplar, ganhei do amigo, jornalista Antônio Carlos Moretti. Presentão…
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