Coração da aldeia


A trova tem o poder de encantar leitores de todos os níveis de cultura
Acharam na enxurrada um quadro com estes versos: “Sino, coração da aldeia, / coração, sino da gente. / Um a sentir quando bate, / outro a bater quando sente”.
– Trata-se de uma trova célebre do poeta português Antônio Correia de Oliveira.
Com a sua simplicidade e doçura, a trova tem o poder de encantar leitores de todos os níveis de cultura. Talvez seja então a modalidade poética mais adequada para os tempos modernos, visto que hoje as pessoas raramente dispõem de tempo e sossego para ler. Em apenas quatro versos de sete sílabas o autor competente consegue sintetizar preciosidades. Darei algumas amostras a seguir, para o seu enlevo.
● Saudade, ponte encantada / entre o passado e o presente, / por onde a vida passada / volta a passar novamente. – Archimino Lapagesse
● Cada palavra relida / da carta que alguém nos fez / é um pedacinho da vida / que a gente vive outra vez. – Augusta Campos
● Saudade, palavra doce, / que traduz tanto amargor! / Saudade é como se fosse espinho cheirando à flor! – Bastos Tigre
● Meu coração, hoje em dia, / desfeito, cansado e mudo, / lembra uma feira vazia, / depois que venderam tudo! – Celso de Carvalho (padre)
● Ao beijar a tua mão, / que o destino não me deu, / tenho a estranha sensação /de estar roubando o que é meu… – Durval Mendonça
● Saudade, lembrança triste / de tudo que já não sou … / Passado que tanto insiste / em fingir que não passou… – Edgard Barcellos Cerqueira
● Esperança é qualquer cousa / que não se pode explicar; / que a gente quer, mas não ousa, / com medo de se enganar. – Helena Ferraz
● Para mantê-los me empenho, / porque penso sempre assim: / tendo os amigos que tenho, / eu nem preciso de mim. – Izo Goldman
● Quanto mais teu corpo enlaço / mais padeço o meu tormento, / por saber que o meu abraço / não prende o teu pensamento! – Jesy Barbosa
● Lembra a saudade uma estrela / nas águas de um ribeirão / que fica sempre a retê-la, / enquanto as águas se vão… – Luiz Antônio Pimentel
● Às vezes, o mar bravio / dá-nos lição engenhosa: / afunda um grande navio, / deixa boiar uma rosa. – Luiz Otávio
● O Mártir da Galileia / esta verdade traduz: / – Não morre nunca uma ideia, / mesmo pregada na cruz! – Luiz Rabelo
● É tanto o amor que me invade / quando em seus braços estou, / que cada instante é saudade / do instante que já passou. – Newton Meyer
● Em paz o mundo estaria / se governassem a Terra / somente mães que algum dia / perderam filhos na guerra. – Osmar Godinho
● Contemplo o céu para vê-las / com um respeito profundo, / pois na raiz das estrelas / eu vejo o dono do mundo. / – Rodolpho Abbud
● Trovadores, meus irmãos, / vamos viver de mãos dadas. / Onde há correntes de mãos / não há mãos acorrentadas! – José Maria Machado de Araújo
(Crônica publicada na edição de hoje do Jornal do Povo)
Foto: Ryutaro Tsukata/Pexels
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