Crônica

Vergonha na cara

Do padre Orivaldo Robles:

Atribui-se ao historiador João Capistrano de Abreu (1853-1927) curioso projeto que, transformado em lei, resolveria muitos problemas. Talvez chegasse até a dispensar a Constituição Federal. Dele constariam somente um artigo e um parágrafo. Sua redação seria: “Artigo 1º – Todos os brasileiros ficam obrigados a ter vergonha na cara. Parágrafo único: Revogam-se as disposições em contrário”. O assunto me tem voltado à memória com especial insistência nestes conturbados tempos. Acredito que as gerações mais novas não estejam habituadas com a palavra vergonha. Excetuando o jornalista Boris Casoy, que criou famoso bordão para recriminar práticas infames da vida pública, quase ninguém mais a utiliza. Vergonha originou-se da latina “verecundia” que, por sua vez, procedeu do verbo “vereor”. Tem a ver com o respeito, a veneração que se dedica a uma pessoa. Vergonha é o pesar de não ter correspondido à sua confiança ou expectativa. Na íntegra.

Coisas da rua e da vida

Do padre Orivaldo Robles:

Um tanto insegura ao volante do carro novo, a jovem senhora sofria com o trânsito intenso. Mas o que é ruim sempre pode piorar: pelas tantas, surgiu-lhe à frente um semáforo. Aí, zangou de vez. Não conseguia arrancar. O sinal passou do vermelho ao verde, após rápida piscada do amarelo. Voltou ao verde, e ela, nada! Atrás, uma sinfonia de buzinas. Chegou um policial do trânsito: “Por favor, dona, não dá pra escolher muito; só temos essas três cores”.

Em Maringá, além de iniciantes, temos também motoristas espaçosos. Talvez o brilho de LED de alguns semáforos os hipnotize. Ou aqui vivam mais folgados do que em outros lugares. Porque é fácil ver quem dirige como se olhasse vitrines. Ou conduzisse um trator no meio do pasto. Maringá, pelo que dizem, figura entre as cidades com maior número de camionetes de grande porte. Na íntegra.

Escola em crise?

Do padre Orivaldo Robles:

Nos primeiros anos de ministério fui também professor. Em Maringá, no querido Gastão. Depois, em Paranacity, no Ginásio Estadual e na Escola Normal. Risonhos tempos, infelizmente de curta duração. A aposentadoria foi-me imposta por obra e graça do secretário estadual de Educação, um militar com patente de coronel. Era o ano de 1971. O Dops – Departamento de Ordem Política e Social – montou sobre mim uma ficha, pelo visto, não muito elogiosa. Jamais escondi, admito, minha antipatia pela ditadura militar daquele tempo. Por conta do perigo que eu devia representar para a Segurança Nacional (!), acabei “delicadamente” apeado das funções de professor. Nunca mais pisei numa escola pública. Nada a lamentar. Padre tem trabalho de sobra, até fora da escola, que é o terreno próprio do sofrido herói a quem chamamos professor. Na íntegra.

Sexo forte x sexo frágil

Do padre Júlio Antônio da Silva:

Apesar das características próprias a todo ser humano, é evidente a diferenciação entre homem e mulher. São diferenças nos aspectos fisiológico exterior do corpo, a começar no sexo, pelo modo diferente que homem e mulher têm na geração e gestação de filhos… Porém, as diferenças vão além do físico-fisiológico. Ser homem ou ser mulher é uma característica que afeta e distingue todo o profundo do ser humano, fazendo com que a pessoa viva a vida de maneiras diferenciadas e com atitudes próprias.

Hoje em dia, ao menos na teoria, afirmamos que homem e mulher são seres humanos iguais. Mas não é isso que vemos na prática. Percebemos muitos preconceitos. Catalogamos atributos particulares para cada um dos gêneros humanos. Impomos-lhes certos comportamentos e qualificativos nem sempre verdadeiros, muitas das vezes criados e repassados por modelos educacionais e cultura midiática que não condizem com a essência da pessoa. Na íntegra.

Na terra de Jesus

Do padre Orivaldo Robles:
Há coisa de 25 anos, numa visita à cidadezinha onde nasci, levou-me tio Antônio Guarnieri a conhecer a capela em que fui batizado, hoje perdida no meio do pasto. Setenta anos passados, ainda me deixo atrair pela construção minúscula que me viu nascer para a fé cristã. Se a ermida pobre, esquecida no pasto, significa tanto para mim, fácil é entender a veneração dos cristãos pelos lugares onde o Senhor viveu e operou a nossa salvação. Quem definiu os pontos hoje visitados foi Santa Helena (250-330), mãe de Constantino, que para lá viajou com esse intuito. Tarefa não muito complicada na época. Três séculos ainda não tinham provocado radicais mudanças. Até hoje milhões de fiéis peregrinam a essa região, que chamam Terra Santa.

Muita coisa mudou depois de 2000 anos. Mas a terra, o ar, o clima, a geografia pouco diferem do que Jesus conheceu. Rio Jordão e Mar Morto são os mesmos. Cidades descritas na Bíblia estão no mesmo lugar, ainda que uma ou outra com nome moderno. À Terra Santa não se vai como turista curioso, mas como peregrino movido pela fé. Com essa disposição lá esteve, de 23 de julho a 1° de agosto, o Coral Infantojuvenil Arquidiocesano de Maringá. Na íntegra.

Maringá: uma cidade sem homens

De Marta Bellini na Folha de Maringá:
A recente notícia de que as espinhas das avenidas da Maringá serão desmanchadas, e por que não dizer, destruídas, assinala o destino dessa província: ser uma cidade qualquer em qualquer canto do mapa. Maldição? Pode ser. É a sina política das cidades do Brasil: fazer uma cidade para os carros. Em uma cidade para os carros, os homens não existem. As ruas não podem ter um canteiro central com plantas e suas flores. Isso é um incômodo para os automóveis. Nas árvores, sentam-se pássaros. Por problemas biológicos de qualquer ser vivente, eles defecam e esses restos fisiológicos caem nos carros. Essas árvores – na maioria ipês – não ficam com folhas o ano inteiro. Para que as flores nasçam nessa espécie, é necessário que elas se dispam de suas folhas. Jogam suas folhas para suprir de energia suas flores. As flores são a vagina e o útero das plantas. Abrem-se à reprodução de mais vida, de mais cores e da partilha sentimental com os insetos, esses seres alados que respiram e refestelam no pólen. Muita orgia para a Maringá conservadora. Na íntegra.

O risco na cadeira

De José Roberto Balestra:

Eu já disse por aqui: o juiz tem qualidades, defeitos e humores.Com essa a firmação tripartida eu aclarava que um juiz é – antes de tudo, do cargo ou função – um indivíduo, racional, física e espiritualmente. É filho, pai, irmão, sogro, sobrinho, vizinho, um cidadão que nasce como qualquer outro: de uma ascendência que o estima. Nas malas de sua bagagem há a do ideal e a da técnica. Enquanto aquela é irmã do ego, esta é forjada numa academia de Direito, depois enriquecida por longa disciplina pessoal de estudos para a função. A vitória num concurso também se assemelha a tantas outras; é regozijo breve: ao cabo de três dias, pouco mais, ou menos, tudo fica ramerraneiro. Ninguém mais se lembra da suada proeza, da nobreza do sonho realizado… Só o agraciado. Na íntegra.

Pai por acaso?

Do padre Orivaldo Robles:
Fique claro que não acompanho novela. Nenhuma, em tempo nenhum. De alguma, por famosa, lembro o nome, ainda que não conheça a trama. Mas o gênero caiu no gosto popular. A partir de cenários nossos, autores brasileiros levaram a dramaturgia televisiva a outros países. Artistas de novelas nacionais se converteram, no Exterior, em figuras populares.
Apesar de não as seguir, tantas são exibidas e em tantos momentos que, ao buscar o noticiário, fica difícil escapar de algum fragmento novelesco. Embora muito pouco e descontextualizado, o que tenho visto me assusta pela frequência com que novela – de qualquer horário e de qualquer autor – trata da descoberta do verdadeiro pai ou mãe de alguém. Afinal, em novela brasileira todos transam com todas? Pelo jeito, a esbórnia corre solta e, com extrema facilidade, se trocam parceiros de cama. Lá na frente, na continuidade do roteiro, vem a bomba: você é filho(a) de fulano! Na íntegra.

Por que eu amo minha mulher?

De Fabrício Carpinejar:

Não é nenhum grande ato que desperta o amor, não é um heroísmo, uma atitude exemplar, um feito impressionante. O que faz um homem amar uma mulher e uma mulher amar o homem é tão pessoal, que é possível passar uma vida inteira sem desvendar o motivo. Não é necessário ter consciência para ser feliz. Não é fundamental entender para amar. Mas é mais bonito. Na íntegra.

Deus a abençoe

Por padre Orivaldo Dias:

Nem tudo está perdido neste mundo egoísta do terceiro milênio cristão ocidental. Ainda há nobreza de coração em nosso meio. Pessoas capazes de enternecimento frente à dor alheia. De piedade dos que sofrem. Gente desapegada do próprio conforto quando se trata de socorrer a quem precisa. Refiro-me à nota publicada anteontem pelo “O Diário do Norte do Paraná”. O episódio enseja reflexões que a todos nos interessam como chamada de atenção e exame de consciência. Uma jovem empresária foi autora de um gesto de solidariedade que pouquíssimas pessoas se revelam dispostas a praticar. Debaixo da chuva impertinente daquela fria quarta-feira, ela parou seu carro, desceu, prudentemente sinalizou o local com o triângulo para evitar colisão de outro veículo, e socorreu uma senhora caída. Na íntegra.

A imagem do Parque

Do padre Orivaldo Robles:

Para Sócrates (470-399 a.C.), os males do mundo provêm mais da ignorância do que de outra causa. O conhecimento faz as pessoas levarem vida virtuosa. Melhorando o nível cultural, portanto, eleva-se igualmente o padrão moral de um povo. A rigor, o que chamamos maldade não passa de ignorância. Assim pensava o filósofo ateniense. Tenho cá minhas dúvidas. Para mim, ele chegou a essa conclusão porque não conheceu a maioria dos ocupantes de cargos públicos no Brasil. Desde Brasília até o mais longínquo dos grotões.
Em todo caso, há que convir que a ignorância é mesmo fonte de muita confusão. Se houvesse preocupação verdadeira, não fictícia, com o progresso intelectual do nosso povo, seríamos todos mais felizes. Inclusive em Maringá onde, não raro, a tacanhice assume ares de ilustração. Na íntegra.

Ética da vida

Por padre Júlio Antônio da Silva:

Já se falou muito sobre o desequilíbrio da vida no planeta. Todos sentimos na pele – literalmente! – o quanto a vida na mãe terra tem sido agredida e explorada irracionalmente, trazendo para todos os seres vivos conseqüências irreparáveis. Talvez porque exploramos com a finalidade única de acumular as riquezas que são de todos e as concentramos nas mãos de uns poucos, fazendo surgir um sistema social antiecológico e gerador de miséria. Portanto, contrário à própria vida pra todos e para tudo. E, consequentemente, todas as pessoas, de um modo ou de outro, como também o próprio planeta, parecem construir seu castratófico fim. Na íntegra.

Motoristas

Por padre Orivaldo Robles:

Em outros tempos, alguns leitores abriam a leitura da REB – Revista Eclesiástica Brasileira pela seção “Necrologia”. Buscavam a lista de padres falecidos no trimestre anterior. Morte em acidente automobilístico não era rara. Creio que hoje a incidência seja menor. Já foi dito que padre corre muito porque não tem mulher nem filhos. Pode ser. Mas há influência também do modelo de vida que levamos. Somos poucos, e bastante exigidos. Sentimo-nos sempre aquém das cobranças da agenda. Quando pároco de Marialva, padre Almeida vinha lecionar História da Filosofia no seminário arquidiocesano. Em postura de novo Airton Senna, fez-se conhecer por todos os policiais do posto rodoviário. Um deles declarou, certa vez: “Quando vejo apontar o Gol prata, já vou pegando a bandeira quadriculada”. Na íntegra.

Liberdade é isso?

Por padre Orivaldo Robles:

Piada antiga, que os mais velhos cansaram de ouvir, conta que um senhor bateu à porta de uma casa e pediu água. Atendeu-o senhora que, virando-se para dentro, gritou: “– Diploma, traga aqui um copo d’água pro moço”. O homem bebeu, agradeceu,  esperou o garoto sair e perguntou o porquê do estranho nome. A mulher explicou: “– Minha filha foi estudar em São Paulo e esse foi o diploma que ela ganhou”. Isso, nos dias que correm, não causa o menor espanto. Apenas enseja crítica à falta de cuidado, (ou burrice mesmo) da jovem, que não se preveniu. Até em vilarejos – em ambiente universitário, então, nem se fale – a maioria da população dá como coisa natural que os jovens gozem de liberdade tão ampla quanto permite o dinheiro dos pais. Na íntegra.

A armadilha do Twitter

De Bill Keller, do The New York Times:

Semana passada minha mulher e eu autorizamos nossa filha de 13 anos a entrar no Facebook. Em algumas horas ela acumulou 171 amigos e eu me senti um pouco como se tivesse dado à minha filha um cachimbo com ópio. Não pretendo ser um estraga-prazeres. Edito um jornal que abraçou a nova mídia com entusiasmo e criatividade. Entendo que a internet alcança e mobiliza uma audiência global, que ela convida à participação e facilita – até certo ponto – a apuração de notícias. Mas, antes de nos rendermos à idolatria digital, devemos ponderar que a inovação sempre tem um preço. Às vezes imagino se ele não é um pedaço de nós mesmos. Na íntegra.

A travessia

Por padre Orivaldo Robles:

A historieta é antiga e já foi narrada de várias maneiras. Alternam-se os personagens, muda o contexto, mas com quaisquer pormenores a lição é idêntica. E um corolário de profunda sabedoria. A mais recente versão a que tive acesso transmitiu-a, segundo consta, o educador Paulo Freire. Diz assim:
À margem de largo rio, de travessia penosa e arriscada, trabalhava um barqueiro. Sua profissão era atravessar as pessoas de um para outro lado cruzando as águas nem sempre mansas. Numa dessas viagens, ele conduzia na canoa um advogado e uma professora. Muito falante e, quem sabe, para afastar o medo, o advogado perguntou: – Barqueiro, você tem algum conhecimento sobre leis? – Não, senhor, respondeu ele educadamente. O advogado, compadecido e com ar de superioridade: – É pena, amigo. Você perdeu metade de sua vida. Na íntegra.

Medo de Deus

Do padre Orivaldo Robles:

Professora conversa com aluninhos sobre tema para eles importante. “Vamos ver: do que é que vocês mais têm medo?”. A pergunta é o tiro de largada para um desfile de variados tipos de receios. Com maior ou menor intensidade, a sala inteira admite sentir algum. Ou de quarto escuro, ou de ladrão, de defunto, cachorro, sapo, barata, fantasma ou do mendigo barbudo que, às vezes, vem remexer no contêiner de lixo da escola. Prosaicos temores próprios da idade.
Até que uma garotinha de assustados olhos negros sai com esta: “Eu morro de medo do malamém”. “Malamém? O que é isso, querida?”, surpreende-se a professora. E a menina: “Ah, tia, o que é eu não sei, não. Mas acho que é um bicho muito ruim. Porque, toda noite, quando vou dormir, minha mãe me faz rezar uma oração que fala assim: Mas livrai-nos do malamém”. Chiste à parte convém refletir. O medo angustia e fragiliza uma criança. Na íntegra.

Corrupção o dia inteiro

De Jorge da Cunha Lima:

Mantive o radio ligado durante toda a tarde. CBN e Band News. Quase todo o noticiário se referia a práticas de corrupção. Corrupções municipais, estaduais e federais. Poucas referências à corrupção em empresas privadas. As questões mais noticiadas: enriquecimento ilícito, super faturamento, propina, aumento de patrimônio, compra sem licitação, aumento do custo da obra, desvio de mantimentos de merenda escolar e de doações, compra de carros de luxo para vereadores, deputados e senadores, pagamentos de diárias em dias inúteis, viagens ao exterior, uso de jatinhos etc.etc.etc. Leia mais.

Aniversários

Por padre Orivaldo Robles:

Desde cedo, nos acostumamos a comparar a vida com um percurso feito do berço ao túmulo. Não posso afirmar com certeza, mas acredito que todas as línguas conheçam a expressão “estrada da vida”. Até porque andar é uma das mais gratas conquistas dos albores da nossa infância. Nascemos não para ficar parados, mas para caminhar.

Ao atingir setenta anos, finalmente compreendo por que idosos preferem olhar para trás em vez de para diante. O caminho percorrido se revela mais venturoso do que faz prever o resto de estrada ainda por vencer. Ignoro quem teve a idéia de apelidar de melhor idade esta fase. Melhor para quem? Para a indústria farmacêutica? Duvido que, em todo o planeta, um único idoso recusasse ter de volta, se jeito houvesse, os seus, digamos, trinta anos. Quando menos, pela chance de reduzir o número das burradas que cometeu. Quem nunca lamentou: “Ah, se arrependimento matasse”? Sem falar que, aos trinta, a vida é bem mais radiosa do que aos setenta. Ou alguém duvida? Na íntegra.

Um cartão postal

Por Donizete Oliveira:

No livro “Identidade”, o sociólogo polonês Zigmunt Bauman faz muitas reflexões sobre a pós-modernidade. Bauman, aliás, é mestre em discorrer sobre o tema. Já o fez com maestria em “Amor líquido”, “Medo líquido”, “Vida Líquida”, entre outros.
Para ele, nossa época líquido-moderna, em que o indivíduo livremente flutuante, desimpedido, é o herói popular, “estar fixo” – ser “identificado” de modo inflexível e sem alternativa – é algo cada vez mais malvisto.
Quer dizer, vivemos numa época em que se predomina o transitório. Não há mais laços que nos prendem ao outro. Tudo parece se cumprir numa eterna ciranda. Importa o que virá depois, mesmo que “esse depois” seja superficial e improvável.
Com as cidades ocorre a mesma coisa. Não se valoriza os espaços como algo ligado à nossa identidade. Quando saímos pelas ruas com alguém que visita nossa cidade, queremos mostrar o presente, mas também falar do passado. Continue lendo ›