Crônica

E agora, José?

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoEm 19 de abril de 2005, uma terça-feira, segundo dia de votação, o cardeal chileno José Arturo Medina Esteves veio ao balcão da Basílica de São Pedro e proclamou: Habemus papam. O novo pontífice, chamado José, escolheu o nome de Bento. Era a escolha previsível, apesar de se tratar de um quase octogenário. Não se passaram oito anos. Neste 11 de fevereiro, segunda-feira de Carnaval, o papa de quase 86 anos apresentou sua renúncia. Com Drummond perguntamos: E agora, José?
Este idoso José é um professor universitário, autor de mais de 40 livros, unanimemente reconhecido como o maior teólogo vivo. Continue lendo ›

Vizinho danoso

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoA avalanche de notícias sobre o incêndio da boate Kiss, de Santa Maria (RS), trouxe à tona relatos comoventes até para jornalistas traquejados em contar desgraças. No meio de tanta dor e desespero apareceram gestos de grandeza com que poucos contavam. Feitos por anônimos que, não obstante a pouca idade, se mostraram heróis autênticos. Jovens nem um pouco interessados em divulgar o que fizeram. E o que fizeram foi dar a vida para poupar da morte pessoas que nem conheciam. Quem os animou na esperança de resgatar vidas desconhecidas? Alheios à própria segurança escreveram, naquela sinistra noite, a página mais luminosa da história de Santa Maria. Fico imaginando que emoção cultivam pais, irmãos e colegas dos que, tentando salvar outros, se enfiaram naquele inferno de escuridão e calor.Continue lendo ›

Os bancos, hoje

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoVocê já passou dos sessenta? Então não troque de banco. O melhor que lhe pode acontecer ao tratar de assuntos bancários é ser recepcionado pelo sorriso de um gerente conhecido. Ou de um funcionário antigo, que lembra o número de sua conta e sabe até os centavos do seu saldo. Você nunca descobrirá se estão sorrindo por amizade, por respeito ou gozação. Mas qual a diferença? Importante é que se interessam por seu problema e procuram resolvê-lo. Merecem gratidão por esse cuidado com velhos clientes, que nada entendem de banco, essa preciosa invenção feita para gadunhar nosso pobre dinheirinho.
Conheci um gerente, que bem cedo descobriu minha falta de intimidade com serviços bancários. A partir de então, quando me via chegar, se levantava, me recebia e conduzia-me ao caixa automático. Etapa por etapa, ia lendo as mensagens da tela. Como se eu fosse um analfabeto. Concordo que, dentro de um banco, me sinto analfabeto ou quase isso. Continue lendo ›

Nada contra

Da escritora Aline Valek:
Não tenho nada contra homofóbicos. Eu, inclusive, tenho muitos amigos que são. O problema é que tem uns homofóbicos escandalosos, que não conseguem ser discretos. Ficam dando pinta que não gostam de gay, sabe? Tudo bem ser uma pessoa rancorosa e preconceituosa, mas não em público. Entre quatro paredes e bem longe de mim, tudo bem. Nada contra mesmo. Leia mais.

Um Natal sem sinos

De Luiz Henrique Rossi:
Mateus 2:13-18
Os sinos não soarão neste natal. Pelos menos, não aqui, no estado de Connecticut-EUA, onde, em cada canto, ainda permanecem sem respostas as principais questões sobre o massacre ocorrido no último dia 14 desse mês, na cidade de Newtown, quando morreram 20 crianças e sete adultos. Ainda, que nos esforcemos, é quase impossível não pensar naquele cenário de morte, tristeza, desespero e saudade, que envolve não apenas as vítimas e seus familiares, mas a todos quantos se deixaram compadecer e abriram seus corações para sentir a mesma dor.Continue lendo ›

Feliz Natal

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoNesta época de Natal, é comum pessoas afirmarem que são tomadas por tristeza, não por alegria. Mal começa dezembro e, para convocar todos às compras, irrompem melodias natalinas, não executadas, mas marteladas de manhã à noite em nossos desesperados ouvidos. No coração de boa parcela do povo se instala um sentimento de estranha melancolia. Bestificados pelo vulgar brilho de luzinhas chinesas e ruídos ininterruptos que dominam as ruas, não nos damos conta dos infelizes que tudo fariam, se pudessem, para deixar de atender a incontrolável volúpia de comprar. Nem sempre notamos, mas eles sobrevivem em nosso meio, em número maior do que supomos, agredidos pelo consumismo que se escancara ainda mais nestes dias. Como bois tangidos a moderno matadouro não veem escapatória da via trilhada por tanta gente. Continue lendo ›

Irmãs deixam o Albergue

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldo“Desde o final dos anos 40, praticamente desde seu nascimento, a cidade de Maringá acostumou-se com o espetáculo de gente indo e vindo em busca de emprego. No início, eram trabalhadores rurais, sem outra qualificação além dos próprios braços, atrás de alguma colocação nas muitas propriedades de café que se abriam com a derrubada do mato. Perambulavam pela cidade e, como não dispunham de dinheiro, também não conseguiam hospedagem nos poucos hotéis existentes. Ao chegar, dom Jaime encontrou funcionando na cidade um “albergue”; na verdade, modesta hospedaria de madeira sem conforto, mantida pelo poder público estadual, onde os necessitados recebiam atendimento sofrível. Condoído dessa parte infeliz do seu rebanho, em 1958 iniciou entendimentos com os responsáveis do FATR – Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural, precursor do Funrural, sobre a possibilidade de transferir para a Igreja Católica o cuidado da instituição. Continue lendo ›

Rubem Alves e o presépio

Do padre Orivaldo Robles:
Tenho uma saudável inveja do pensador Rubem Alves. Nada de mais que um padre seja fã de carteirinha de um pastor protestante. Que já não pastoreia, mas continua a oferecer preciosidades da fé, da cultura e das letras. Sem pedir licença, transcrevo quase inteira sua crônica de 23/12/ 2008, publicada originalmente na Folha de São Paulo:
“Menino, lá em Minas, eu tinha inveja dos católicos. Eu era protestante sem saber o que fosse isso. Sabia que, pelo Natal, a gente armava árvores com flocos de algodão imitando neve que não sabíamos o que fosse. Já os católicos faziam presépios.
Os pinheiros eram bonitos, mas não me comoviam como o presépio: uma estrela no céu, uma cabaninha na terra coberta de sapé, Maria, José, os pastores, ovelhas, vacas, burros, misturados com reis e anjos numa mansa tranquilidade, os campos iluminados com a glória de Deus, milhares de vagalumes acendendo e apagando suas luzes, tudo por causa de uma criancinha. A contemplação de uma criancinha amansa o universo.Continue lendo ›

O fim do mundo

Por Donizete Oliveira:
Resolvi escrever sobre este tema porque muito está se falando nele. No ano dois mil, quando também havia o boato sobre o fim dos tempos, não se falou tanto. Esperava que em 2012, as pessoas estivessem mais informadas. Mas, ao contrário, parece que há mais desinformação.
Desde menino ouço essa história de fim do mundo. Minha mãe costumava dizer: “Dois mil chegará, dois mil não passará”. Aquilo me dava um medo. Se viesse uma chuva forte com raios e trovões, pronto, pensava, é o fim.
Cresci, e a leitura de livros me mostrou que o mundo não podia acabar assim de um dia para o outro. Quando li “Viagem ao centro da terra”, de Júlio Verne, descobri que nosso planeta é misterioso e belo. Quase nada conhecemos das profundezas da terra.Continue lendo ›

Gente que ainda existe

Num dia desta semana, encontrei por acaso duas amigas queridas. Trocamos algumas palavras. Conversa entre amigos não segue planejamento nem conhece trava ou segredo. É papo aberto, que brota da liberdade e da confiança, sobre qualquer assunto. Não se sujeita à censura nem fiscaliza as palavras. É inevitável sair algo que estranhos tomariam por grosseria. Como um daqueles despautérios do personagem Chaves, da TV, que, após soltá-lo, corre logo a desculpar-se: “Me escapou!”. Uma das amigas falava sobre seu filhinho, que se mostra sempre atento às necessidades dos outros. Deu um exemplo para ilustrar. A uma senhora que, por pouco, não tinha levado um tombo capaz de feri-la com gravidade, ele perguntou: “A senhora está bem? Está precisando de alguma coisa?” Isso lá é conversa de um menino de cinco anos? Mal tinha a mãe contado o episódio, fui tomado pelo espírito do Chaves. Sem refletir, soltei em voz alta: “Vai ser um bobo a vida inteira”. Continue lendo ›

Eu desisto

Do padre Orivaldo Robles:
Afirmação até certo ponto ufanista assegura: “Eu sou brasileiro; não desisto nunca”. Tentei levá-la à prática. Foi quando apareceram as faixas de pedestres nas ruas (sinalização horizontal) e, ao lado, placas de advertência (sinalização vertical). Em país civilizado tais placas são dispensáveis. Basta a sinalização horizontal. Mas nós somos diferentes. Abracei a quixotesca tarefa de ajudar pessoas a atravessar a rua. Contribuiria para criar entre nós um clima urbano mais cortês. Do que, aliás, Maringá precisa. Tolo que sou e cabeçudo, ainda por cima, comecei a solitária campanha de levar à observância da faixa de pedestres. Andando a pé por onde não havia sinal luminoso, eu levantava um braço para indicar minha intenção de cruzar a rua, enquanto, com a outra mão, apontava as listras brancas no asfalto. Ocasiões houve em que motoristas educadamente me cederam a preferência. Noutras, a reação foi menos amigável. Dirigiram-me buzinadas raivosas. Ou me homenagearam com gentilezas do tipo “Quer morrer, seu louco?” ou “Está bêbado, f.d.p.”?Continue lendo ›

Padre Makiyama

Do padre Orivaldo Robles:
Seu nome brasileiro era Pedro. Em verdade, chamava-se Watar. Mas para nós sempre foi o Makiyama. Nome japonês comum para alguém muito pouco comum.
Deus sabe de que forma se manifestou a vocação em sua vida. E como foi difícil realizá-la. Na adolescência teve a ideia de ser padre. Mas jesuíta, como São Francisco Xavier, missionário na Índia e no Japão. Só que precisava trabalhar na roça para ajudar a família. Levou tempo até entrar na Escola Apostólica de Nova Friburgo (RJ), onde os jesuítas começavam a preparação dos seus candidatos. A pouca base escolar do Norte do Paraná dificultou-lhe acompanhar o estudo puxado. Penosamente, seguiu até à Filosofia, em Belo Horizonte. Foi aconselhado, porém, a desistir. A se tornar religioso, mas irmão leigo. Não concordou. Voltou ao Paraná.
Procurado, Dom Jaime o acolheu e encaminhou a Curitiba para os quatros anos da Teologia, etapa final da formação de padre. Foi nessa fase que se tornou companheiro de seminário, meu e do Almeida.Continue lendo ›

Perigo doce

Do padre Orivaldo Robles:
Tio Vitoriano era dono de um carro de praça. Estávamos em 1951. Nenhum de nós tinha ainda ouvido a palavra táxi. Pelas tantas, os parentes começaram a mostrar incomum preocupação com o patriarca, o vô Rogelio, que o pai chamava de “meu sogro”. Não Rogério, mas Rogelio, como se fala em espanhol. Por influência das muitas famílias italianas do lugar, nos acostumamos a dizer “nona” e “nono”, em vez de vó e vô. Que eu tivesse sabido, ele nunca saíra daquele sítio. Nem cuidara da saúde. Aos 77 anos, obeso, como se descobriu que era diabético jamais entendi. De que meios dispunham para o diagnóstico? Que laboratório tinha feito os exames? Vai lá saber. Mas o nono tinha diabetes e a coisa era antiga. Os sintomas não assustavam pela simples razão de que a família ignorava os riscos. Daí que ele ia levando a vida possível a um diabético desinformado. Continue lendo ›

Legado

Do jornalista Ricardo Mota, de Maceió (AL):
Que compromisso nós temos para com a humanidade? É uma pergunta simples, que cada um de nós já há de ter feito a si próprio, mesmo que ela tenha sumido na imensidão de preocupações que nos arrastam no cotidiano. Viver é, também, cuidar do legado que deixaremos – queiramos ou não – aos que virão depois de nós. E o fazemos ainda que não percebamos com clareza os objetivos de nossas ações. Talvez a tarefa mais inexata e inexpiável com a qual nos deparamos, se dela temos consciência, é a de lapidar pessoas, dando-lhes a espinha dorsal de sua personalidade.Continue lendo ›

Tempos difíceis

Do padre Orivaldo Robles:
Conheci homens e mulheres que enfrentaram vida duríssima. Ganhavam o sustento com o suor do rosto. Suor de todo o corpo. Tive chance de contemplar homens vestidos com o que parecia baixeiro de cavalgadura. Com andar trôpego de canseira, com pés mal defendidos por alpercatas desfiadas. Famílias inteiras davam na roça um duro danado. Saíam antes do nascer do sol para retornar perto do escurecer, quase noite. Até crianças trabalhavam. Melhor serviço pouco na lavoura do que muita confusão em casa.
Nossa família foi exceção. Só o pai compreendia que meninos deviam estudar. Os tempos eram outros. Ou, na época, a pobreza se espalhava por todo o lado. Em casa, não tínhamos razões de queixa. Ainda que fosse o pai o único envolvido de fato nos cuidados do café, monocultura da região. Pela manhã, íamos à escola. No conforto de um ônibus de linha. Nem sempre sentados, porque, em certos dias, ele já vinha lotado de Araçatuba. Continue lendo ›

A eleição está aí

Do padre Orivaldo Robles:
A Constituição brasileira, no Parágrafo único do Art. 1°, dispõe que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos…”. Filosoficamente a afirmação é um pouco discutível, mas deixa pra lá. Entendemos que aqui se fala do poder político. Após décadas de submissão aos governos militares, o Congresso Nacional, em outubro de 1988, vencidos dois anos de trabalho, apresentou aquela que Ulysses Guimarães chamou a “constituição cidadã”. O brasileiro de 43 anos de idade, até então tratado como criança pela ditadura, recobrava o direito de escolher seus dirigentes políticos. Era para muitos brasileiros a primeira vez que podiam eleger o supremo mandatário da Nação. Não para mim, que já a tivera em 1960, um ano depois de receber o título de eleitor. Na ocasião, concorriam Jânio Quadros (PDC + UDN), Henrique Teixeira Lott (PSD + PTB) e Adhemar de Barros (PSP).
Para o bem ou para o mal, somos diferentes de outros povos. Ligamo-nos mais ao futebol do que à política. Continue lendo ›

Aprendendo com Brecht

Do padre Orivaldo Robles:
Campanha eleitoral é boa ocasião para reler “O analfabeto político”, de Bertolt Brecht (1898-1956). Diz a conhecida página do dramaturgo, poeta e romancista alemão: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, os preços do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nascem a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”. O texto refere-se à política de nível federal. Mas aplica-se também ao município, que é onde vivemos e onde tudo começa.
Ilude-se quem diz não dar atenção à política. Como se fosse possível viver sem ela. Ela nos envolve inteiramente como o rio envolve o peixe. Toda ideia, toda palavra, todo cálculo, toda decisão, todo gesto de uma pessoa traz em seu bojo uma postura política. Quem concebe política como o conjunto de ações voltadas exclusivamente à conquista e ao exercício do poder, de política não entende nada.Continue lendo ›

Manifesto contra o homem de “barriga tanquinho”

De Nina Lemos:
Há anos o amigo Xico Sá já avisava: “homem que é homem não sabe a diferença entre estria e celulite”. Pois dou uma sampleada básica no irmão e afirmo: “mulher que é mulher não sabe a diferença entre uma barriga tanquinho e uma barriga “normal””. Motivo de colocar o assunto em pauta. Antes, só as mulheres (e o jogador Ronaldo Fenômeno, coitado) eram perseguidas pela patrulha da estética. Agora, a indústria da fofoca começa a exibir “tanquinhos” dos homens famosos como se isso fosse um “plus” a mais. “Fulano de tal exibe barriga tanquinho durante corrida”. Esse virou um título bastante encontrado por aí nas revistas de celebridades. Na íntegra.

O valor do latim

Do padre Orivaldo Robles:
Ninguém escapa de mensagens não solicitadas, que a Internet despeja em nossos computadores domésticos. Não se conhece pessoa que delas consiga ver-se livre. Você abre a caixa de mensagens e dá de cara com coisas que ninguém explica por que cargas d’água ali vieram parar. Só pode ser arte de algum fantasminha brincalhão e muito eficiente, que divulga nosso endereço para todos os computadores do mundo. Vez por outra (raramente, na verdade) surge coisa que se aproveita. Dia desses, dei com uma, bem humorada, falando da importância do latim, que hoje ninguém mais estuda. Dizia mais ou menos isto:
“O vocábulo ‘maestro’ vem do latim ‘magister’ e este, por sua vez, do advérbio ‘magis’, que significa ‘mais’ ou ‘mais que’. Na antiga Roma ‘magister’ designava aquele que, pelos seus conhecimentos e habilitações, estava acima dos demais. Assim, ‘magister equitum’ era o chefe da cavalaria; ‘magister militum’, o chefe militar. Continue lendo ›

Eleitor, abra os olhos

Do padre Orivaldo Robles:
Há muito tempo, o eleitor vem fazendo o papel de bobo. Não só aqui. Políticos são iguais em toda parte. Só que alguns países têm nível de cidadania mais elevado e conseguem melhorar a qualidade dos eleitos.
Está em sua mão decidir quem vai ocupar os cargos. O problema é que você é um só, ao lado de milhares com o mesmo poder. Como agir? Fazer a melhor escolha e esforçar-se para que outros também a façam. Está em jogo a sorte de todos. Ou nos beneficiamos todos ou vamos todos para o mesmo buraco. Não se pode brincar. Se há políticos desonestos é porque existem eleitores babacas. Alguns pontos a considerar:Continue lendo ›

Padre agredido

Do padre Orivaldo Robles:
No Oeste americano heróis eram uns bestalhões com uma pistola Smith & Wesson cano longo, boa pontaria e rapidez no saque. Depois da conquista da Lua e do envio de um robô a Marte, devia-se saber que heroísmo é outra coisa. Triste engano. Parte da nossa sociedade recuou à violência do faroeste. Voltaram os valentões que rosnavam: “Esta cidade é pequena demais para nós dois”. Hoje dizem: “Rapa fora que neste bairro mando eu”. Qualquer cidade média ou grande abriga bolsões de pobreza dominados por boçais que impõem sua vontade como lei.
Professores são agredidos e intimidados por alunos, com a anuência dos pais. Maurício Girardi, professor de Física no Colégio Estadual Piratini, de Porto Alegre, postou seu desabafo na Internet. Por advertir aluna que, além de faltar muito, não prestava atenção e ainda atendia o celular em aula, foi denunciado à polícia. Ele confessa: “Tive que comparecer à 8ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre (…) por ter constrangido uma adolescente (17 anos), que muito pouco frequenta as aulas e quando o faz é para importunar, atrapalhar seus colegas e professores”. Sorte sua não ter levado uns sopapos de algum irmão da garota – menor, evidentemente. Quem ainda não completou 18 anos pode aprontar à vontade. Não há perigo de ser castigado. É menor; tudo o que faz está certo. Errado é o tonto que não concorda.Continue lendo ›

Ao pai, no seu dia

Do padre Orivaldo Robles:
Nem bem eu tinha ganhado a calçada, desceram à minha frente. Com o carro estacionando, escutei, lá dentro, uma gostosa risada da menina. Franca mostra de alegria e tranquilidade. Que a ouvissem todos que andavam por perto. Ela não se importava. Saltou do carro, deu a volta e se juntou ao pai. Com ambas as mãos agarrou-lhe o braço, aninhando no seu ombro esquerdo a cabeleira castanha e basta. Continuou falando alto e rindo à vontade. Caminhava enroscada nele, com gosto e feliz. Confiança total da parte dela, ternura imensa da parte dele. Perfeito quadro para um comercial de TV sobre amor entre pai e filha. Ele, na idade que imagino a mais gostosa de ser pai. Pelos quarenta e cinco anos, pouco mais, pouco menos. Tinha, há muito, vencido os temores do início. A fase do garotão assustado, que não sabia cuidar de um bebê, mas tinha vergonha de confessá-lo. Ela, nos seus quinze, trilhava bem no meio a estrada chamada adolescência que, em tantos casos, separa pais e filhos.Continue lendo ›

Contribuição ao inventário da inteligência humana

De Marcos Lauer:
Descanso enquanto o arroz integral cozinha na panela de fogo lento, contínuo e nutricional. Espero pela hora mais clara do dia para integrar o movimento repetitivo do cotidiano. Abano levemente a testa, diferente de quem, no deserto, sua as têmporas molhadas pelo esforço repetitivo de uma travessia voluntária.
Ainda é cedo. Os ponteiros do relógio marcam pouco mais de sete horas. Para o arroz não existe hora. Ele precisa cozinhar na panela de barro comprada via internet de moradores indígenas remanescentes de uma tribo do Espírito Santo.
Deliro enquanto o arroz queima na panela de argila nobre, extraída de forma artesanal, por mãos que ganham a vida amassando o pão do dito macabro. São os desígnios de uma vida, cuja passagem pela terra está fossilizada para estudos sobre a evolução do homem.Continue lendo ›

Campanha eleitoral

Do padre Orivaldo Robles:
De campanha política a mais antiga lembrança que guardo vem de uma fase longínqua, na infância, dos meus quatro ou cinco anos. Morávamos ao lado do terreirão, junto da tulha. A propriedade recebia o imponente nome de fazenda. Não pela extensão, mas por admitir várias famílias na lavoura de café. Era costume chamar sítio à propriedade tocada pelo dono, que nela residia e, eventualmente, empregava um ajudante com ou sem família. Morávamos na fazenda em que o café, plantado no sistema antigo, não condensado, dificilmente chegava aos cinquenta mil pés. Separada de nossa casa pelo pasto estendia-se a colônia. Pequena. Ocupada não por colonos, como o nome sugere. Pelo menos no sentido antigo da palavra. Os moradores das cinco casas construídas em série eram ditos meeiros. Embora, com exatidão maior, devessem chamar-se porcenteiros. Pois trabalhavam pelo ganho de 35, 40 ou 45 por cento da colheita anual do café. O pai era o fiscal. Supervisionava a fazenda e respondia por tudo. Era assalariado. À frente da nossa casa corria uma estradinha. Cruzava vários sítios, até desembocar em outra, que conduzia à vila chamada Junqueira. Esta última estradinha, agora asfaltada, ainda lá está. Junqueira também. Igualzinha à que era, faz setenta anos.Continue lendo ›

Sentado na calçada

Do padre Orivaldo Robles:
Não estava de canudo e canequinha nem fazia bolinha de sabão, como cantava a melodia de Orlandivo, que os mais jovens por certo nunca ouviram. Mas estava sentado na calçada. Encostado na parede do restaurante. Não atrapalhava os que iam passando. Ninguém lhe dava atenção. Era como se não existisse. Nem ele se preocupava com os transeuntes. Sua atenção concentrava-se em coisa mais importante. Muito mais importante. Só tinha olhos para a marmita, que alguma alma caridosa lhe comprara. Ou o próprio restaurante, condoído da situação, tinha providenciado para atender o seu pedido. Era hora de almoço. Não é difícil sentir piedade de quem pede o que comer. Desde crianças aprendemos que a ninguém jamais se nega um prato de comida. Dinheiro não, porque nunca se sabe no que vai ser gasto. Ainda mais hoje, tempo de crack, essa droga assassina.Continue lendo ›

Homens que marcam

Do padre Orivaldo Robles:
Sete anos se passaram. Os jornais falam de outro homem de Igreja falecido. Do primeiro Arnaldo Jabor compôs comovida crônica, que ainda me umedece os olhos quando a releio. Tenho coração mole. Choro até em comercial de detergente, já falei. Jabor lembrou que “de mortuis nihil nisi bonum”. Para quem não sabe latim ele traduziu por “não se fala mal de morto”. Tradução exata, porém livre. Professores sempre me exigiram tradução literal. Então, “a respeito dos mortos nada, senão o bem”. Jabor exaltou o falecido de uma forma inesperada, brilhante. Ele maneja as palavras com a facilidade de um menino brincando. O extinto revestia singular carisma. Impossível ocultar o burburinho que causava ao seu redor. Em 2005, Jabor falou de João Paulo 2°. Agora, Carlos Heitor Cony fala do cardeal do Rio, dom Eugênio Sales. Ambos, já parte da História. Seu valor transcende o tempo que passaram entre nós. Extravasaram a notícia, que hoje se comenta, amanhã se esquece.Continue lendo ›

Nossas origens

Do padre Orivaldo Robles:
Em todas as edições o vestibular traz à nossa cidade um bando de jovens num colosso de ônibus de várias procedências. Alguns (ônibus, não estudantes) tornaram-se fregueses de nossas ruas e avenidas. A cada vestibular aparecem de novo. Sinto um prazer infantil em admirá-los. Sua elegante beleza é um convite a viajar para lugares desconhecidos. Lembram meu tempo de criança. Eu nem sonhava com outra forma de viajar que não de ônibus. Naquele tempo eles eram diferentes. No interior em que vivíamos, ônibus era uma gaiola comprida na qual se enfiavam quantos infelizes coubessem. Às vezes, até mais do que cabiam. Levados por centenas de quilômetros, o tempo parecia não ter fim. Conforto, nenhum. Espremidos no meio de sacos de mantimentos, de pacotes, quando não de frango ou de leitãozinho peado, os passageiros suavam como tampa de chaleira. Mães com nenê sofriam o que não sonhavam haver de sofrimento. O ambiente recendia a vestiário de futebol em tarde de dezembro. Só a necessidade fazia embarcar em tal carroção motorizado.
Agora, tudo é diferente. A vida mudou para melhor. Continue lendo ›

Boas novas

Do padre Orivaldo Robles:
A quarta-feira desta semana começou com a promessa de coisas boas. Primeiro, foi-se embora aquele friozinho chato, que nos maltratava a nós, madrugadores da missa das sete, na Catedral. Caminhar pela rua às seis e dez da matina, com um irritante vento sul na cara, não é exatamente o jeito mais agradável de começar o dia. Com frequência me ocorre que bem melhor deve estar lá em cima, dentro do avião das seis, que todos os dias passa sobre nossas cabeças. Nesta quarta, a caminhada ficou mais agradável. Como noutros dias, vesti a jaqueta. Mas só por segurança. Não havia necessidade.
Em casa, na hora do café, o jornal falava da partida do Corinthians pela Taça Libertadores da América, a ser disputada à noite, no Pacaembu, contra o Boca Juniors. Embalava a esperança de um histórico triunfo, que viesse coroar 102 anos de sofrimento e glória. Menos de glória que de sofrimento. Porque, na opinião dos comentaristas esportivos, para o Corinthians tudo é difícil. Continue lendo ›

Crônica por encargo

Do padre Orivaldo Robles:
“Por tradição, a crônica é um gênero jornalístico. Está ligada ao jornal, à revista, à imprensa, seja diária, semanal ou mensal. A crônica é uma atividade sistemática. O Rubem Braga – que todo mundo cita até sem ler e muitos apenas leem sem citar – disse certa vez que a crônica é uma moléstia. Uma moléstia não é gripe, enxaqueca, fratura de tíbia ou tosse comprida. Moléstia é sinusite, tuberculose, gota, bico-de-papagaio. O sujeito acorda e vai dormir com ela. A crônica é isso: a obrigatoriedade do cartão de ponto. Como nenhum jornal aceita cronista que promete mandar matéria quando achar um bom assunto, é mais ou menos compreensível que a crônica, sendo assídua, aproveite os sonhos, o faz-de-conta, a inspiração do cronista. Na televisão – muito mais rara e menos definida – e no rádio a crônica pode ser substituída por imagens e música, sem que as pessoas reclamem e mudem de emissora. Na imprensa, o cronista costuma ser aguardado pelo leitor e tem o ar de ser estimado pelo dono do jornal, sem nem mesmo conhecê-lo pessoalmente. Mas convém ter cuidados: não pode ser enfadonho, prolixo, repetitivo ou professoral. O cronista precisa fingir que faz crônicas por divertimento e que trabalha por não ter o que fazer”.Continue lendo ›

O celeiro

De Donizete Oliveira:
Quando era menino, um dos meus afazeres era dar de comer aos porcos e às galinhas. Todo dia, à tarde, tinha uma tarefa ordenada pelo meu pai: debulhar milho no celeiro. Um barracão que havia no imenso quintal da minha casa. Nunca sabia o que significava aquela palavra, mas acostumei-me com ela. Naquele tempo, a gente fazia as coisas sem questionar. Apesar de não ser tarefa fácil manejar o debulhador. Assim chamava a máquina manual que debulhava as espigas de milho.
Cresci naquela rotina. Todo dia logo depois das 18 horas, rumava para o celeiro. Não sem antes rezar a Ave Maria com o saudoso padre Donizete pela Rádio Aparecida. Meu sobrenome vem daí, tamanha a fé da minha mãe naquele que se transformou numa espécie de santo na pequena Tambaú, no interior paulista. Em casa, nada se fazia sem pedir proteção ao padre Donizete. Deu certo. Até hoje me considero abençoado.Continue lendo ›