Crônica

Dez anos

Do padre Orivaldo Robles:
Cigarro é um cilindro branco com uma brasa numa ponta e um imbecil na outra. Não vi até hoje melhor definição. Fui esse imbecil durante longos anos. Com o agravante de ter começado na fase adulta, já com 26 anos. Eraldo, meu irmão, e eu crescemos vendo o pai, fumante desde menino, cumprir o delicado ritual de fazer o seu cigarro de palha. Talvez o prazer estivesse não tanto em fumar, mas em executar, sem pressa, cada etapa da operação. Aprendemos a escolher as palhas de milho que ele recortava no tamanho exato, dava uma alisada com o fio do canivete e guardava na gaveta esquerda do guarda-louça. Alguém aí ouviu falar de guarda-louça? Ainda temos um lá em casa. A mãe dizia que era do seu tempo de recém-casada. Voltando ao pai, tornamo-nos expertos na escolha do fumo de corda que lhe agradava. Lá uma vez ou outra, trazíamos um rolete que ele olhava com desconfiança, cheirava e, depois da primeira pitada, concluía com desalento: “Ih, filho, você comprou um macaio que não dá, não. Amanhã, na volta da escola, me traga um diferente”. Em geral, porém, acertávamos na compra.Continue lendo ›

Gato que nasce em forno

De Ruy Castro, na Folha de S. Paulo:
Carlos Gardel (1890-1935), o cantor de “Mano a Mano”, nasceu na França (em Toulouse). Mas algum argentino duvida que ele foi o maior portenho de todos os tempos? E a brasileira e carioquíssima Carmen Miranda (1909-55), nascida em Marco de Canaveses, a 40 km do Porto, em Portugal? E o francês Yves Montand (1921-91), marselhês e malandro até o último Gitanne, que nasceu em Monsummano Alto, na Itália?Continue lendo ›

Pór de pirlimpimpim

Do padre Orivaldo Robles, que agora entra em períod0 de descanso e só retorna com eus escritos em fevereiro:

Na minha última crônica cometi uma imprecisão imperdoável. O pó de pirlimpimpim (que tinha o poder de transportar a pessoa para onde ela desejasse) é uma criação do nosso Monteiro Lobato (1882-1948), não de Walt Disney (1901-1966), criador de Peter Pan e da fada Sininho. Monteiro Lobato é nosso primeiro autor de autêntica literatura infantil, com as imortais criações de Emília, Pedrinho, Narizinho, dona Benta, tia Nastácia, Visconde de Sabugosa etc., personagens do mundo encantado do Sítio do Picapau Amarelo. Peço perdão aos leitores do seu blog por lhes ter dado informação equivocada. Quem me corrigiu o engano foi minha comadre, professora aposentada Tania Eloiza Cividanes, a quem agradeço a gentileza.

Novo ano à vista

Do padre Orivaldo Robles:

Você, que lê, e eu, que escrevo, somos privilegiados. Ano passado, neste dia e hora, estavam vivas pessoas possivelmente melhores que nós. Hoje, não fazem parte do nosso convívio. Por que misteriosa razão foram daqui levadas, enquanto nós ficamos? A mim, tenho certeza, o Senhor concede nova chance de me corrigir das minhas falhas. Ouvimos, a cada início de janeiro, o surrado “ano novo, vida nova”. Um ano que começa abre aos nossos passos uma nova estrada, que pode ser diferente da anterior, se quisermos. Entretanto, o que se dá, na maioria das vezes, é que passam os meses, termina dezembro, vira a folhinha e a vida prossegue na mesmice de sempre. E olhe lá se a gente não acaba mudando, sim, mas para pior.
É engraçado como as pessoas se repetem. Não há abertura de ano em que não nos venham aporrinhar as manjadas previsões de pretensos adivinhos.Continue lendo ›

O Natal do progresso

Do padre Orivaldo Robles:

Tenho a sensação de que o Natal está vindo mais depressa a cada ano. Não só eu. Outras pessoas me fizeram a mesma observação. Em nossa infância, o Natal demorava a chegar. Era um custo atravessar o ano, lerdo feito um cágado e comprido como um século. Até percebermos em casa as primeiras providências para o Natal. Nossa fantasia se aguçava. Éramos tomados por esquisita (mas gostosa) excitação. Tratava-se de preparativos extremamente simples. Não iam além da aquisição dos ingredientes básicos, todo ano repetidos, que revestiam de glamour o almoço natalino. Por força da origem espanhola, o pai sempre achava jeito, não obstante a pobreza, de comprar nozes, amêndoas e avelãs. Comparado à austeridade da refeição dos outros dias, aquele era um autêntico banquete para encher de encanto nossa mesa. Um luxo ocasional dos ingênuos roceiros que éramos.
Hoje sei que Natal, do latim “dies natalis”, quer dizer dia do nascimento. Nascimento de Jesus, evidentemente. Na infância, nunca me falaram dele. Natal era só um almoço de festa. Continue lendo ›

O que fica do que passou

Do padre Orivaldo Robles:

Tirante a amplitude da circunferência abdominal, a dificuldade de subir ladeira, a urgência em levantar à noite várias vezes e o esforço de fazer a memória pegar no tranco, não posso dizer que os anos me pesem muito. Tempo houve em que tudo era mais fácil. Ainda assim, não me queixo. Aborrecem-me saudosistas de olhos sempre fixos no passado. Não sofro por não ter de volta o que já foi. “Tudo tem seu tempo” (Ecl 3,1). Comento situações que vivi porque me ensinaram alguma coisa. “O saber não ocupa lugar”, dizia o pai. Já ouvi que, se alguém fala: “Tenho muita experiência”, o que quer dizer é: “Já fiz muita burrada na vida”. Pode ser. Sem negar as tolices que cometi, entendo que a idade também me forneceu lições determinantes de bem viver.
Exemplo: quem viveu meia dúzia de décadas lembra como funcionavam as coisas em família. Pai e mãe davam ordens, filhos obedeciam. Não se respeitava a individualidade dos filhos? Pais eram dominadores? Havia casos, sim, não dá para esconder. Continue lendo ›

Um velhinho do barulho

O padre Orivaldo Robles revela em seu artigo semanal: na inauguração do Auditório Papa João Paulo II, há uma semana, dom Jaime Luiz Coelho chegou ao recinto e deu de cara com um vereador, desses que votaram pelo aumento abusivo de R$ 12 mil. Ao cumprimentar o primeiro bispo da cidade, este, do alto de seus 95 anos, a maior parte deles de serviços prestados a Maringá, disse: “Quero distância de vocês. Que vergonha! Vocês só se preocupam com os próprios interesses. Não olham para as necessidades do povo”.

No artigo, padre Orivaldo fala da obra e da convicção geral de que as construções da Igreja se fazem com o palpite dos ricos e o dinheiro dos pobres. Leia na íntegra “Brio quase centenário”:Continue lendo ›

O consumo e a vida

De Juarez Firmino:
Em nosso atual sistema econômico, muitos são os estímulos que nos levam ao consumo desenfreado e compulsivo, dada nossa falta de reflexão sobre a real necessidade. Vejam os exemplos: Janeiro é ano novo, estamos em férias, em Fevereiro tem carnaval? Tem sim senhor! Março marca o retorno às aulas, Abril chega e mal acabam as festividades – porque no Brasil o ano só começa depois do carnaval – e já é Páscoa! Começa a correria atrás de chocolates, Maio é a vez das Mães e das Noivas… como amamos as mulheres da nossa vida! O movimento nas lojas é grande. Em Junho a paixão está em alta e os enamorados trocam presentes e juras, por vezes eternas, de amor. Ufa!Continue lendo ›

Decepção e cansaço

Do padre Orivaldo Robles:

O épico Ben-Hur, de 1959, por alguns considerado o melhor filme de todos os tempos, teve duração de quase 4 horas. Dirigido por William Wyler, foi o primeiro a receber 11 estatuetas do Oscar. Impressionou-me o ator Richard Hale no papel de Gaspar, um dos três Magos, que viajaram do Extremo Oriente a Jerusalém para adorar o recém-nascido Rei dos judeus. Trinta anos mais tarde, casualmente em Jerusalém outra vez, ele presencia a condenação do Menino da manjedoura que, um dia, tinha adorado em Belém. Abatido pela descomunal vileza humana, abre o coração num lamento mais ou menos assim: “Estou muito velho. Cansei de viver. Já presenciei coisas erradas demais”.
A opinião popular a respeito dos políticos comprovadamente não é das melhores. E não se limita ao Legislativo. Figuras renomadas do Executivo não se livraram de apreciações repulsivas. Continue lendo ›

Meus caros inimigos

De Ricardo Mota, jornalista alagoano:
Confessemos: todos almejam ser queridos, o que está contemplado na essência humana. Ser querido por todos, no entanto, não parece possível, tampouco recomendável, se dizemos e mostramos aquilo que, de fato, somos.

Ter inimigos é tão natural quanto necessário. Nada deliberado, desejado, planejado, cultivado, nada disso – é apenas inevitável. São eles, assim como os amigos, que balizam a nossa breve intervenção no mundo, o que dele gostamos, pregamos e praticamos. A qualidade humana de amigos e inimigos diz muito sobre o nosso caráter.Continue lendo ›

Nossos seres de luz

Do padre Orivaldo Robles:

“Irene preta, / Irene boa, / Irene sempre de bom humor. / Imagino Irene entrando no céu: – Licença, meu branco! / E São Pedro bonachão: / – Entra, Irene. Você não precisa pedir licença”.
O poema de Manuel Bandeira (1886-1968) apresenta Irene, uma negra humilde, pobre, talvez analfabeta, de sorriso fácil. E também santa. Como a multidão de milhões, de bilhões de seres humanos pelo mundo afora. A heróis de verdade pouco se lhes dá serem reconhecidos ou não. Topamos com eles e sequer nos damos conta. Desconhecemos seus nomes, ignoramos sua biografia, enquanto pisamos, juntos, o mesmo chão. Deixamo-nos impressionar com as notícias negativas atiradas, em voz forte e letras grandes, aos nossos olhos e ouvidos. Por obra desse bombardeio, damos por decidido que o gênero humano, por inteiro, sucumbiu a uma invencível podridão. Podemos até não dizer, mas no fundo nutrimos a impressão de que ninguém mais presta.Continue lendo ›

Um conto para nossos dias

Do padre Orivaldo Robles:
“De porta em porta, eu andara mendigando pelo caminho da aldeia, quando o teu carro de ouro apareceu na distância como um sonho deslumbrante, e eu me perguntei se seria esse o Rei de todos os reis. Exaltaram-se as minhas esperanças e pareceu-me ver chegado o fim de meus dias maus. E fiquei aguardando esmolas que seriam dadas sem ser pedidas e um tesouro que seria espalhado por toda a parte, na areia.
O carro parou onde eu estava. Teu olhar caiu sobre mim e tu desceste com um sorriso. Senti que, afinal, chegara a felicidade de minha vida. Então, inesperadamente, estendeste-me a tua mão direita e disseste: ‘Que tens tu para me dar?’ Ah, que capricho de rei foi esse de abrires a palma da tua mão para pedires a um pedinte! Fiquei confundido e parei indeciso. E do meu alforje então, lentamente, tirei e dei-te o grão de trigo menor de todos.
Mas que grande surpresa foi a minha quando, pelo fim do dia, entornando no chão a sacola, encontrei entre as minhas migalhas um grão de ouro que era o menor de todos. Amargamente chorei, lamentando não ter tido coragem de me haver dado todo a Ti”.Continue lendo ›

O Caso do Ovo Frito

De David Coimbra, no Zero Hora:
Tem, por exemplo, a banha de porco. Uma comida fica muitíssimo melhor quando feita com banha de porco. Um feijão preparado com banha de porco é incomparável. Incomparável! Mas o que eles dizem da banha de porco? Ah, a banha de porco faz mal, a banha de porco entope as artérias, é um crime usar a banha de porco nas refeições, você vai acabar morrendo de tanto cozinhar com a banha de porco. São essas as coisas que eles dizem.

Mas como acreditar neles? Eles perderam a credibilidade depois do Caso do Ovo Frito. Porque o que se falava, o que eles falavam sobre o Ovo Frito era que o Ovo Frito era um assassino. Que o Ovo Frito matava. Por anos isso. Décadas. Então, mais recentemente, o que se descobriu? Que não é nada disso, que o Ovo Frito não faz mal a ninguém, que o Ovo Frito é bom.Continue lendo ›

Descansem em paz

Do padre Orivaldo Robles:
Perguntou-me um senhor a opinião da Igreja Católica sobre a cremação de cadáveres. Não há hoje nenhuma repulsa. Objeção haveria se, como aconteceu no passado, ela exprimisse intenção de negar a ressurreição dos mortos, dogma de fé (=verdade revelada por Deus, indiscutível, pois). Mais que com sentimento religioso, a cremação atual tem a ver com problemas de espaço urbano e de meio ambiente. Sepultar os mortos é uma prática que se perde nas brumas da História. Expõe o dinamismo religioso arraigado no coração humano. Ensinam Rudolf Otto (1869-1937) e Mircea Eliade (1907-1986) que a morte pertence ao universo do sagrado, área exclusiva da divindade, na qual o homem avança às apalpadelas, como ser pequeno, confuso, cheio de temor. Todas as religiões cultivam algum modelo de piedosa convivência com o fenômeno da morte. Na íntegra.

As mortes

Do padre Júlio Antônio da Silva:
Toda pessoa humana convive com ganhos e perdas. Nem sempre gostamos e entendemos as perdas. Gostamos e curtimos, muito mais, os ganhos. O ato de ganhar coloca em evidência o lado conquistador, apoderador e acumulador que existe no coração humano. Os ganhos dão-nos a sensação de conquista, poder e de acúmulo. Porém, se não fizermos a experiência das perdas, que valor teria os ganhos?Continue lendo ›

Doutora Zilda, um sucesso

Do apdre Orivaldo Robles:
Criança feia não tem pai. Ele faz tudo para não aparecer. Pai se orgulha de filho bonito, saudável, inteligente, bem comportado. Quando se afasta desse figurino, não há interesse de revelar a paternidade. Quem faz sucesso atrai muita gente que faz festa e bate palmas. É uma grandeza o quanto de pessoas se esforçam por ostentar uma forçada intimidade com quem está em alta.

Caso da Pastoral da Criança. Tudo começou com um telefonema de Dom Paulo Evaristo Arns, de São Paulo, para sua irmã Zilda, médica pediatra e sanitarista residente em Curitiba, viúva e mãe de cinco filhos com idades entre 10 e 20 anos. Numa reunião sobre a paz mundial, no ano de 1982, James Grant, diretor executivo da Unicef, organismo da ONU, propôs ao arcebispo de São Paulo que a Igreja Católica encabeçasse uma campanha para salvar crianças que morriam aos montes, acometidas de enfermidades de fácil prevenção. Dom Paulo perguntou a Zilda se podia pensar em algo a respeito. Ela podia. E pensou. Hoje o mundo inteiro, extasiado, contempla a obra de uma mulher, que não só viveu, mas veio a morrer pelo projeto que criou. Na íntegra.

Aprender com as crianças

Do padre Orivaldo Robles:

Há um bom par de anos, senhora amiga me contou uma atitude do filho, que a deixou edificada. A família desfrutava de situação financeira, senão abastada, ao menos superior à da maioria dos moradores da cidade. O garoto estava por fazer anos naqueles dias. Quantos não sei. Calculo que uns dez ou algo perto disso. Assistindo à movimentação dos preparativos, o pequeno comunicou à mãe: “O aniversário é meu, então quero escolher os amigos para vir à minha festa”.

Ela achou razoável e concordou que ele fizesse os convites. Para depois verificar, com surpresa, que a parte maior dos amiguinhos reunidos em casa compunha um grupo de meninos pobres, trajados com roupa limpa, mas modesta, e nenhum trazia presente. Alheio a tais minudências, o aniversariante era um sorriso só. Vibrava no meio da turma com quem, todos os dias, costumava repartir a ventura de ser criança. Sem a presença deles não teria sentido fazer festa de aniversário. Na íntegra.

Arrogância

Do padre Orivaldo Robles:
Em visita a zona rural de sua base, deputado se vê surpreendido por forte aguaceiro. Por conta da ventania e do lamaçal que se vai formando, para não correr risco, decide parar o carro até passe o pé-d’água. Aperta os olhos e esquadrinha ambos os lados da estrada no esforço de enxergar através da névoa que embaça os vidros. Depois de algum tempo, avista uma casa simples. Desce e bate à porta. Atende-o um roceiro molhado, que se desculpa: – Entre, senhor.

Cheguei inda agorinha da roça. A chuva me pegou de surpresa. – Agradeço a acolhida. É só até passar esse temporal. Espero que não demore. Não quero incomodar. – Incômodo nenhum. Fique à vontade. A casa é pobre, mas é sua. – Muito obrigado. Sou o deputado Fulano de Tal. Venho de uma reunião no distrito do Barro Branco. Moro na capital, mas sou daqui, da região. – É uma honra para mim, doutor. Vou pedir à minha mulher que faça um cafezinho. Na íntegra.

Quando a cidade desperta

Do padre Orivaldo Robles:

Já passa das oito e a mãe continua a sacudir o filho para que deixe a cama. Desfeito o rosário de inúteis argumentos para convencê-lo, apela para o último, uma informação colhida no dia anterior: “Filho, você não sabe que Deus ajuda a quem cedo madruga? O Hércules da farmácia levanta cedinho, todos os dias. Ontem ele achou na rua um pacote de dinheiro com seis notas de cem”. Estremunhando, com voz pastosa de sono, o filho retruca: “É, mãe, mas o cara que perdeu levantou mais cedo que ele”.

Vai longe a época em que a população iniciava as atividades do dia antes do primeiro clarão de sol. Quem ditava o momento de abandonar o leito não era o alarme do celular, mas o canto do galo empoleirado na laranjeira do quintal. Isso se o nenezinho, quando havia um em casa, não aprontava o berreiro da hora de mamar. Levantar cedo vai tornando-se, em nossos dias, até motivo de caçoada. De maneira jocosa se afirma que o madrugador – pessoa idosa, quase sempre – levanta cedo para ficar mais tempo à toa. Na íntegra.

A Palavra gera a Igreja

Do padre Júlio Antônio da Silva:
Quando lemos no começo do Evangelho de João: “A Palavra tornou-se um ser humano e estabeleceu morada entre nós” (Jo 1, 14), entendemos, em primeiro lugar, aquilo que o verbo grego escrito para definir “estabeleceu morada” significa. Lá no texto original – em grego -, São João e sua comunidade utilizaram o verbo “eskénosen”, que traduzindo para o brasileiro significa: “armou tenda entre nós”… Armar tenda era o que fazia o povo da primeira Aliança, no Antigo Testamento, que vivia peregrinando pelo deserto, mas que tinha, em seus acampamentos, uma tenda especial para Deus.

Era naquele espaço privilegiado que acontecia o encontro com o Senhor. Era a “Tenda do Encontro” (Ex 26; Nm 7, 89). Na Tenda, Deus falava com o povo. Ali ele tornava-se presente. Deixava-se encontrar. E, enfim, era ali o sinal visível da presença certeira dele com o seu povo. São João entendeu que o nascimento de Jesus é a nova e eterna Tenda armada no meio da humanidade. A vida da Palavra feita carne, vem dar uma nova e definitiva luz para aquelas pessoas que buscam a Verdade. Na íntegra.

Consumo sem freio

Do padre Orivaldo Robles:
Na infância, ouvi uma frase que muita gente cansou de escutar também. Embora pobres, comida em casa jamais faltou, graças a Deus. Mas fomos educados a evitar o desperdício. Se no prato erguíamos uma montanha mais alta que nosso apetite, a mãe observava: “Você tem o olho maior do que a barriga”. O mesmo ainda se poderia dizer para muita gente. Gente adulta. Entendo a febre consumista como um saco sem fundo. Quanto mais nele despejamos bugigangas que compramos, tanto mais ele espicha no comprimento e na largura. O espaço vazio não para de crescer. Na íntegra.

Vergonha na cara

Do padre Orivaldo Robles:

Atribui-se ao historiador João Capistrano de Abreu (1853-1927) curioso projeto que, transformado em lei, resolveria muitos problemas. Talvez chegasse até a dispensar a Constituição Federal. Dele constariam somente um artigo e um parágrafo. Sua redação seria: “Artigo 1º – Todos os brasileiros ficam obrigados a ter vergonha na cara. Parágrafo único: Revogam-se as disposições em contrário”. O assunto me tem voltado à memória com especial insistência nestes conturbados tempos. Acredito que as gerações mais novas não estejam habituadas com a palavra vergonha. Excetuando o jornalista Boris Casoy, que criou famoso bordão para recriminar práticas infames da vida pública, quase ninguém mais a utiliza. Vergonha originou-se da latina “verecundia” que, por sua vez, procedeu do verbo “vereor”. Tem a ver com o respeito, a veneração que se dedica a uma pessoa. Vergonha é o pesar de não ter correspondido à sua confiança ou expectativa. Na íntegra.

Coisas da rua e da vida

Do padre Orivaldo Robles:

Um tanto insegura ao volante do carro novo, a jovem senhora sofria com o trânsito intenso. Mas o que é ruim sempre pode piorar: pelas tantas, surgiu-lhe à frente um semáforo. Aí, zangou de vez. Não conseguia arrancar. O sinal passou do vermelho ao verde, após rápida piscada do amarelo. Voltou ao verde, e ela, nada! Atrás, uma sinfonia de buzinas. Chegou um policial do trânsito: “Por favor, dona, não dá pra escolher muito; só temos essas três cores”.

Em Maringá, além de iniciantes, temos também motoristas espaçosos. Talvez o brilho de LED de alguns semáforos os hipnotize. Ou aqui vivam mais folgados do que em outros lugares. Porque é fácil ver quem dirige como se olhasse vitrines. Ou conduzisse um trator no meio do pasto. Maringá, pelo que dizem, figura entre as cidades com maior número de camionetes de grande porte. Na íntegra.

Escola em crise?

Do padre Orivaldo Robles:

Nos primeiros anos de ministério fui também professor. Em Maringá, no querido Gastão. Depois, em Paranacity, no Ginásio Estadual e na Escola Normal. Risonhos tempos, infelizmente de curta duração. A aposentadoria foi-me imposta por obra e graça do secretário estadual de Educação, um militar com patente de coronel. Era o ano de 1971. O Dops – Departamento de Ordem Política e Social – montou sobre mim uma ficha, pelo visto, não muito elogiosa. Jamais escondi, admito, minha antipatia pela ditadura militar daquele tempo. Por conta do perigo que eu devia representar para a Segurança Nacional (!), acabei “delicadamente” apeado das funções de professor. Nunca mais pisei numa escola pública. Nada a lamentar. Padre tem trabalho de sobra, até fora da escola, que é o terreno próprio do sofrido herói a quem chamamos professor. Na íntegra.

Sexo forte x sexo frágil

Do padre Júlio Antônio da Silva:

Apesar das características próprias a todo ser humano, é evidente a diferenciação entre homem e mulher. São diferenças nos aspectos fisiológico exterior do corpo, a começar no sexo, pelo modo diferente que homem e mulher têm na geração e gestação de filhos… Porém, as diferenças vão além do físico-fisiológico. Ser homem ou ser mulher é uma característica que afeta e distingue todo o profundo do ser humano, fazendo com que a pessoa viva a vida de maneiras diferenciadas e com atitudes próprias.

Hoje em dia, ao menos na teoria, afirmamos que homem e mulher são seres humanos iguais. Mas não é isso que vemos na prática. Percebemos muitos preconceitos. Catalogamos atributos particulares para cada um dos gêneros humanos. Impomos-lhes certos comportamentos e qualificativos nem sempre verdadeiros, muitas das vezes criados e repassados por modelos educacionais e cultura midiática que não condizem com a essência da pessoa. Na íntegra.

Na terra de Jesus

Do padre Orivaldo Robles:
Há coisa de 25 anos, numa visita à cidadezinha onde nasci, levou-me tio Antônio Guarnieri a conhecer a capela em que fui batizado, hoje perdida no meio do pasto. Setenta anos passados, ainda me deixo atrair pela construção minúscula que me viu nascer para a fé cristã. Se a ermida pobre, esquecida no pasto, significa tanto para mim, fácil é entender a veneração dos cristãos pelos lugares onde o Senhor viveu e operou a nossa salvação. Quem definiu os pontos hoje visitados foi Santa Helena (250-330), mãe de Constantino, que para lá viajou com esse intuito. Tarefa não muito complicada na época. Três séculos ainda não tinham provocado radicais mudanças. Até hoje milhões de fiéis peregrinam a essa região, que chamam Terra Santa.

Muita coisa mudou depois de 2000 anos. Mas a terra, o ar, o clima, a geografia pouco diferem do que Jesus conheceu. Rio Jordão e Mar Morto são os mesmos. Cidades descritas na Bíblia estão no mesmo lugar, ainda que uma ou outra com nome moderno. À Terra Santa não se vai como turista curioso, mas como peregrino movido pela fé. Com essa disposição lá esteve, de 23 de julho a 1° de agosto, o Coral Infantojuvenil Arquidiocesano de Maringá. Na íntegra.

Maringá: uma cidade sem homens

De Marta Bellini na Folha de Maringá:
A recente notícia de que as espinhas das avenidas da Maringá serão desmanchadas, e por que não dizer, destruídas, assinala o destino dessa província: ser uma cidade qualquer em qualquer canto do mapa. Maldição? Pode ser. É a sina política das cidades do Brasil: fazer uma cidade para os carros. Em uma cidade para os carros, os homens não existem. As ruas não podem ter um canteiro central com plantas e suas flores. Isso é um incômodo para os automóveis. Nas árvores, sentam-se pássaros. Por problemas biológicos de qualquer ser vivente, eles defecam e esses restos fisiológicos caem nos carros. Essas árvores – na maioria ipês – não ficam com folhas o ano inteiro. Para que as flores nasçam nessa espécie, é necessário que elas se dispam de suas folhas. Jogam suas folhas para suprir de energia suas flores. As flores são a vagina e o útero das plantas. Abrem-se à reprodução de mais vida, de mais cores e da partilha sentimental com os insetos, esses seres alados que respiram e refestelam no pólen. Muita orgia para a Maringá conservadora. Na íntegra.

O risco na cadeira

De José Roberto Balestra:

Eu já disse por aqui: o juiz tem qualidades, defeitos e humores.Com essa a firmação tripartida eu aclarava que um juiz é – antes de tudo, do cargo ou função – um indivíduo, racional, física e espiritualmente. É filho, pai, irmão, sogro, sobrinho, vizinho, um cidadão que nasce como qualquer outro: de uma ascendência que o estima. Nas malas de sua bagagem há a do ideal e a da técnica. Enquanto aquela é irmã do ego, esta é forjada numa academia de Direito, depois enriquecida por longa disciplina pessoal de estudos para a função. A vitória num concurso também se assemelha a tantas outras; é regozijo breve: ao cabo de três dias, pouco mais, ou menos, tudo fica ramerraneiro. Ninguém mais se lembra da suada proeza, da nobreza do sonho realizado… Só o agraciado. Na íntegra.

Pai por acaso?

Do padre Orivaldo Robles:
Fique claro que não acompanho novela. Nenhuma, em tempo nenhum. De alguma, por famosa, lembro o nome, ainda que não conheça a trama. Mas o gênero caiu no gosto popular. A partir de cenários nossos, autores brasileiros levaram a dramaturgia televisiva a outros países. Artistas de novelas nacionais se converteram, no Exterior, em figuras populares.
Apesar de não as seguir, tantas são exibidas e em tantos momentos que, ao buscar o noticiário, fica difícil escapar de algum fragmento novelesco. Embora muito pouco e descontextualizado, o que tenho visto me assusta pela frequência com que novela – de qualquer horário e de qualquer autor – trata da descoberta do verdadeiro pai ou mãe de alguém. Afinal, em novela brasileira todos transam com todas? Pelo jeito, a esbórnia corre solta e, com extrema facilidade, se trocam parceiros de cama. Lá na frente, na continuidade do roteiro, vem a bomba: você é filho(a) de fulano! Na íntegra.

Por que eu amo minha mulher?

De Fabrício Carpinejar:

Não é nenhum grande ato que desperta o amor, não é um heroísmo, uma atitude exemplar, um feito impressionante. O que faz um homem amar uma mulher e uma mulher amar o homem é tão pessoal, que é possível passar uma vida inteira sem desvendar o motivo. Não é necessário ter consciência para ser feliz. Não é fundamental entender para amar. Mas é mais bonito. Na íntegra.