Crônica

Dois goleiros de outro mundo

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoEm tempo de futebol, permitam-me falar dele. Admira como na minha infância pobre e desprovida de meios, ele tenha significado tanto. Vivendo em lugares perdidos deste mundo, sem poder vestir, como as crianças de hoje ainda no colo dos pais, uma dessas belas camisas de times, sem campo, sem técnico, sem escolinha, sem nada, o futebol marcou profundamente a infância minha e de meu irmão Eraldo. Assim como marcou a infância de muitos moleques pobres e ignorantes, como nós, de qualquer outro esporte. Para nós a chance de algum esporte chegava até ao futebol e morria aí.
A nós dois coube a sorte de assistir ao nascimento do primeiro time de futebol de Jales. Pelo menos, primeiro com um mínimo de organização: com diretoria, plantel, uniforme, cores próprias, escudo e até hino. Foi fundado pelo professor Paulo, nosso diretor do grupo escolar, única escola da cidade. Naquele fim de mundo, os professores vinham todos de fora, alguns até de cidades grandes. O querido professor Oscar Aidar, do meu 2° ano, centroavante e ídolo, por exemplo, viera de Sorocaba. Assim nasceu a Associação Atlética Jalesense. Com esse nome não existe mais. Como tantos clubes de outras cidades, foi substituída por novas agremiações de nomes parecidos. Mas do time original, aquele do começo, de atletas que a gente conhecia e com quem podia conversar, desse posso dizer: “Meninos, eu vi”.Continue lendo ›

Desprendimento

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoFoi no tempo em que as moedas tinham grande valor. Muito maior que o dessas de agora. Alguém se lembra daquela de mil réis, que, na nossa infância, dava para comprar vinte balas toffee de leite condensado? Não balinhas mirradinhas, não; eram balas mastigáveis, grossas, bastas. Chegavam a dar dor nas mandíbulas de tanto que demoravam a acabar. Não vi nenhuma dessas moedas ainda dourada e brilhante, como deviam todas ter saído, com certeza, da Casa da Moeda, onde eram cunhadas. Mas logo eram encaminhadas para o comércio, seu destino. Passavam de mão em mão. Não é à toa que a gente considera o dinheiro uma coisa suja. As poucas moedas de mil réis nas quais conseguimos pôr as mãos traziam a data de fabricação, sempre um ano passado havia muito. Carregavam as marcas do seu longo tempo de uso. Eram encardidas de um jeito que nem um litro de Kaol conseguiria limpá-las. Mas eram as nossas moedas mais valiosas. Crianças dificilmente ganhavam uma.Continue lendo ›

Copa do mundo ou da Fifa?

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoNão posso dizer que lembro como se fosse hoje, mas lembro: Seminário São José, Curitiba, 29 de junho de 1958. Voltamos da missa de São Pedro e São Paulo, na Catedral, e corremos para o rádio colocado no pátio. Não havia televisão. O jogo era a final da Copa do Mundo, Brasil x Suécia, anfitriã da Copa. Já tinha começado e perdíamos por 1×0. Depois Vavá empatou e acabamos ganhando por 5×2, mesmo placar da vitória sobre a França, cinco dias antes. Trabalho mesmo tinham dado Inglaterra (0x0) e País de Gales (1×0). O rei Gustav desceu da tribuna para a entrega da taça. Cumprimentou todos os jogadores. Um, em especial, tinha-o impressionado: Pelé, menino de 17 anos. Por causa de suas diabruras em campo um jornal de Curitiba, em charge na página de esportes, mostrou-o como “o saci pelelé”.
Nesse dia o futebol do Brasil nasceu para o mundo. Apagou o desastre do “Maracanazo” de 1950. Desse eu não me lembro. Era pequeno demais e morávamos num sertão aonde quase não chegavam notícias do mundo. As figurinhas do álbum que formei eram do campeonato paulista, não da seleção. Da copa de 1954, disputada na Suíça, conservo alguma lembrança. Pelo menos da nossa derrota por 4×2 para a Hungria de Puskas, então o melhor jogador do mundo. Foi uma partida violenta, apitada pelo inglês Arthur Ellis. Para nossa crônica esportiva, um larápio que nos afanou descaradamente. Durante muito tempo, apelidar alguém de “Mr. Ellis” era chamá-lo de ladrão.Continue lendo ›

As palmadas da lei

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoNão lembro se já contei este episódio. Recordo bem coisas do passado, mas ando esquecendo as recentes. Tenho medo do alemão que ronda gente da minha idade. O tal do Alzheimer, que acompanhou o padre João de Castro Engler nos seus últimos dias. Teólogo insigne, professor no Studium Theologicum, de Curitiba, afiliado à Universidade Lateranense de Roma, Engler morava no seminário anexo ao Studium. No final da vida recolheu-se ao seu quarto em companhia dos seus queridos livros. Vejam só o que o Alzheimer aprontou para ele. De vez em quando, padre Engler punha-se a vagar, inteiramente nu, pelos corredores do enorme prédio. Algum seminarista o encontrava, cobria-o como podia e o levava de volta para o quarto. Não é muita humilhação para quem dedicou uma vida inteira à formação dos novos padres em São Paulo e no Paraná?
Está certo que hoje existem recursos médicos mais avançados que na sua época. Nem tenho a pretensão de chegar aos pés da sumidade que ele foi. Se, porém, me acontecer de chegar a esse ponto, por favor, me segurem em casa. Não me deixem sair à rua.Continue lendo ›

As dores de cada um

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoDom Jaime gostava de citar o versículo 10 do salmo 90: “Os anos de nossa vida são setenta; para os mais robustos, oitenta: assim mesmo cheios, em sua maior parte, de fadiga e aborrecimento”. Acho que para mostrar que era um caso raro. Não completou um século, como pretendia, mas chegou perto. Morreu aos 97 anos. Poucos atingem essa marca.
Em nossos dias as pessoas vivem mais que no passado. Todos os países apresentam crescimento na expectativa de vida do seu povo. Quando era jovem, eu fazia as contas: no ano 2000, na virada do século, estarei com 59 anos. Parecia uma coisa longínqua, que nunca ia chegar. Hoje, meus 59 anos continuam distantes. Só que lá atrás. Nunca mais voltarão.
Com pesar percebo que minha disposição física não é a mesma. Mudou muito. Para pior, infelizmente. Já comentei a opinião de um amigo meu, homem simples, mas de grande sabedoria. Certa ocasião, ele me disse: “Olhe, padre, nós estamos naquela idade em que as pessoas não perguntam ‘Como vai’, mas ‘Onde dói’”. Verdade. No passado, com frequência, eu aceitava convite de amigos para pescar. Não sou grande pescador; mas é o hobby que mais me atrai. Uma distração que me reanimava para o trabalho. Fazia anos que eu não pescava mais. Outro dia, um amigo querido teve a bondade de me levar ao velho Paranazão. Levei um susto. Não pensei que eu tivesse envelhecido tanto. Continue lendo ›

A mãe do padre

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoNo anedotário esportivo todo árbitro de futebol tem duas mães: a que fica em casa e a que entra com ele em campo. Ele nem botou ainda o pé no gramado, basta apontar no túnel com a bola na mão e já as duas torcidas homenageiam sua genitora. Ninguém dá a mínima para seu nome ou currículo, se ele é principiante ou faz parte do quadro da FIFA. Mas sobre sua mãe todos têm opinião formada.
Felizmente, não é meu caso nem o dos colegas. O povo ignora se padre tem mãe. Nem dela faz a mínima ideia. Cá entre nós, se é para lembrá-la como a do juiz de futebol, melhor mesmo que a esqueça. Pode parecer estranho, mas há pessoas que levam um susto quando descobrem que padre também nasce de uma mulher igual às outras.
Dizem que mães são todas iguais, só muda o endereço. Não sei se vale para mães de padres. Elas parecem diferentes. Continue lendo ›

Maringá, mãe ou madrasta?

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoOs pioneiros desta cidade agregaram ao nome Maringá os qualificativos “novo” e “velho”. O novo desapareceu pouco depois; o velho continua até hoje para designar o bairro onde a cidade começou. Os que chegaram naqueles sofridos tempos eram homens rudes, de mãos calejadas e rosto queimado de sol. A maioria era competente em derrubar mato, queimar coivara e plantar café. Da língua pátria pouco tinha conhecimento. Não sabia que nome de cidade leva adjetivo do gênero feminino. Como fez, na construção “nossa amada Maringá”, o poeta e professor Ary de Lima, a quem me coube a honra de ter como colega no querido Colégio Gastão Vidigal. Com razão até maior do que outras, Maringá é feminina. Pois não se chamava Maria do Ingá, na canção que a batizou, a retirante nordestina e imaginária musa de Joubert de Carvalho? Todos os que por aqui passam dedicam-lhe elogios feitos com adjetivos ou pronomes femininos. Sempre escutamos: “Maringá é linda. Deve ser muito bom viver nela”.Continue lendo ›

Uma para cada dois

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoFato bastante curioso, entre os muitos da minha longa atividade pastoral, foi a celebração das bodas de ouro (50 anos) de união de um casal amigo. Alguns dirão: “Grande coisa; qualquer padre faz isso”. Calma; não terminei. Dez anos depois, os filhos pediram a missa em ação de graças, desta vez, pelos 60 anos de matrimônio dos pais. Ainda não contei tudo. Outros dez anos passados e me pediram a celebração dos 70 anos da mesma união. Desse tipo foi o único caso que me aconteceu. E não haverá outro.
Quem esteve naquele 70° aniversário de casamento não esquecerá o que presenciou. A esposa sofria do mal de Alzheimer. Com mais de 90 anos de idade, o marido a tratava com uma ternura comovente. Ele quis ler em público uma oração que tinha preparado para a ocasião.
Agradeceu a Deus pelos filhos numerosos, todos vivos, honrados e motivo de orgulho para os pais. Depois, rendeu graças pela companheira de tantos anos. Continue lendo ›

A nova Páscoa

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoQuem passou a infância na roça, há mais de 60 anos, e sem referencial católico, como eu, lembra como era a semana santa. Coelho, chocolate, Páscoa, nem pensar. Ressurreição de Cristo, batismo, muito menos. Festa era o Natal, único dia do ano em que víamos guaraná. Furávamos a tampa da garrafinha e por ali a sugávamos para durar mais. Era também o dia da sobremesa, do manjar branco com calda de coco. Sem ameixa, que não chegava à venda da cidadezinha em que morávamos. Maravilha que só a mãe sabia fazer. Seu odor impregnava a casa inteira e seu paladar era único. Depois que a mãe, idosa e doente, parou de fazê-lo, não voltei a sentir aquele gosto em nenhum outro. Menos ainda nesses comprados, que já vêm prontos, em potinhos de plástico, com calda vermelha por cima. Servem para iludir as crianças, que jamais terão a chance de saborear a delícia antiga, que a mãe cozia no fogão de lenha.
Ah, sim, eu falava da Páscoa, festa máxima do calendário cristão, sobre a qual, na infância, não recebi informação. Nem eu nem os outros jacuzinhos, que moravam numa colônia de café. Ou em sítios da redondeza. Continue lendo ›

A Quaresma

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoEstamos no final da Quaresma. Ela termina com a missa da Ceia do Senhor, na quinta-feira santa. Não estranhem meus poucos e bondosos leitores que eu comente sobre religião. É assunto normal para um padre, não?
A Quaresma está no fim e, pelo que tenho conhecimento, ninguém topou com algum lobisomem. Nem conheceu quem tenha visto um. Pelo menos nestas paragens e por esses dias. Em tempos passados, quando nossos pais moravam no sítio, se, em horas perdidas de uma de noite sexta-feira da Quaresma, os cachorros latissem e rosnassem com ferocidade, dentro de casa as pessoas arrepiavam-se e sentiam um frio na espinha. Só podia ser o lobisomem, cujo hábito era justamente vagar durante a Quaresma, sempre pela meia-noite das sextas-feiras.Continue lendo ›

O piá descobre o Clássico do Café

De Ayrton Baptista Junior, no blog Boleiros e Barangas, do Globo Esporte [a se lamentar, a Globo não dar o devido crédito ao filme exibido junto com o texto, um excerto do documentário acima, de Bohdan Hladü, produtor cinematográfico da Camera 35 e da Fama Filmes]:
Na minha adolescência, os livros de História e Geografia adotados pela escola destacavam o Brasil de uma forma geral, mas havia muito pouco do estado do Paraná. Este lapso foi para mim corrigido pelo Campeonato Paranaense de futebol. Eu ligo o rádio na B-2 e ouço o Carlos Kleina e o Oldemar Kramer informarem: “Hoje tem o Clássico do Café, em Londrina, e o Clássico da Soja, em Cascavel”. Por que café? Por que soja? Pergunto e percebo, ainda piá, a força agrícola paranaense.Continue lendo ›

O corcel de dom Jaime

padreorivaldoJá está em casa, de volta, o corcel preto de Dom Jaime localizado em Goioerê. Ladrão estabanado: foi roubar logo o carro mais conhecido de Maringá!
Enquanto gozou de saúde, Dom Jaime nunca teve motorista. Gostava de dirigir. Primeiro, a perua cinza recebida na chegada, em março de 1957, do prefeito Américo Dias Ferraz. Era uma picape Willys, adaptada para imitar a Willys Station Wagon, precursora da nossa Rural Willys de saudosa lembrança. Não sei por quanto tempo ele manteve a famosa “perua do bispo”. Num ponto Dom Jaime não tinha vaidade: passava anos sem trocar de carro.
Quando os valentes jipes deram lugar aos primeiros fuscas, ele não viu muita graça na mudança. Acho que o assustou a visão do corpulento Dom Gregório Warmeling, bispo de Joinville, dentro de um. Encontrando-o, um dia, ao volante do próprio fusca, Dom Jaime não aguentou: “Dom Gregório, como o senhor entrou aí? De calçadeira?”. Preferiu um DKW Belcar branco, com o qual rodou por anos a fio. Não me lembro de outros carros. Até que ele adquiriu o corcel preto 1975.Continue lendo ›

Lágrimas de homem

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoSe, como dizem, homem não chora, estou mal na foto. Por muito pouco, mesmo com esforço para segurar, acabo caindo no choro. Justifico-me apelando para as sete décadas que carrego nas costas. Idosos são emocionalmente mais frágeis que jovens. O duro é que no meu caso deve ser não consequência da idade, mas jeito da madeira. Minha saída de Paranacity foi prova clara. Eu estava com trinta anos. No discurso de despedida daquele povo que eu tanto amava, destampei numa choradeira inconsolável. Não consegui pronunciar mais que três ou quatro palavras. Dei um vexame histórico.
Remexendo o fundo do baú de meu coração mole, encontro o pesar imenso que me causa a dor especialmente de crianças. O sofrimento desses inocentes – ah, não dá – me engrola a língua e me arranca lágrimas. Isso vem de longe. Continue lendo ›

Olá, vizinho!

De Cezar Lima:
Você que está lendo, me diga: tem vizinhos e amizade com eles? Eu, de minha parte, sempre gostei de cultuar amizades com vizinhos e isto vem de berço, vendo o exemplo de meus falecidos pais. Moro na Domingos de Moraes – a “rua do Grupo Dr. Milton”. Minha vizinha ao lado de casa, é a querida “Vó Maria”, simpática e amorosa senhora e que recentemente perdeu seu companheiro, seu “Toninho Cestari”. Defronte, tenho a “dona Cida”, muito simpática e afável amiga de meus netinhos, sendo que o Augusto, a “ama de paixão” e ao lado da casa da Cida, meu vizinho, José Ramos Teixeira, o conhecido “Zé Difusora”, este, o tenho dentro do coração. Vem me visitar quase todos os dias e a gente coloca a conversa em dia e algumas vezes chega com “pão quentinho” e com uma porção de “farofa” que a sua esposa, dona Neide, fez com o maior carinho. Continue lendo ›

Como irmãos

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoA historieta a seguir alguns já leram no livro “A Igreja que brotou da mata”, que lancei em março de 2007. É verdadeira.
Nos anos 90, a Paróquia São José, da Vila Operária, foi confiada a Padre Silvino Pedro Rabuske. Corpulento feito um guarda-roupa de casal e bem jovem, nós o chamávamos Pedrinho, por causa da cara de menino. Seu auxiliar, Padre Arthur Frantz, passava dos setenta. Ambos jesuítas, de sólida formação e disciplina, era um mistério como se entendiam sob o mesmo teto. Não é comum o jovem ser o superior do idoso. Pelo menos se têm idades tão diferentes. Um dia, não contendo a curiosidade, uma senhora animou-se a perguntar: “Padre Arthur, o senhor tem mais de setenta anos; Padre Pedrinho, uns trinta. Trabalham juntos. Vocês nunca discutem? Como é que se entendem?”. Com graciosa serenidade o velho padre respondeu: “Não há nenhum problema. Vivemos como irmãos”. E para deixar bem claro, completou: “Brigamos todos os dias”.Continue lendo ›

Na infância tudo se decide

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoEntre as muitas coisas que aprendi em criança, uma, que me marcou de modo indelével, foi a preocupação com o bem-estar alheio, com o respeito devido aos outros. Já tive oportunidade de comentar o conselho que o pai não se cansava de nos repetir: “Não sejais pesados a ninguém”. Embora homem do campo, que não frequentara bancos escolares, havia conquistado, não sei onde nem como, uma sabedoria que universidade nenhuma ensina. Era incapaz de conduta ou gesto que ferisse o direito ou até a simples preferência de alguém. Não que ele assumisse postura subserviente. Possuía clara consciência de seus direitos. Se deles chegava a abrir mão – como, mais de uma vez, pude comprovar, – fazia-o em razão de uma naturalidade que lhe brotava de dentro, de uma generosidade inata; nunca por covardia ou temor. Com tal protótipo sempre ao lado, enquanto nós crescíamos, seria mesmo difícil não nos deixarmos moldar por ele. Há gestos que ainda agora, a três décadas de sua morte, os filhos recusam praticar. Não tanto, creio, por virtude própria, senão mais pelo que ele nos deixou como exemplo. Vimos nele a importância de crer, desde muito cedo, que a grandeza de alguém independe de certos atributos hoje, infelizmente, muito valorizados.Continue lendo ›

Roberto Carlos e Friboi: é uma brasa, mora!

Friboi Roberto Carlos
De Luiz Carlos Rizzo:
Deixa o Rei faturar uns troquinhos. Ele merece e tem enorme crédito com cada um de nós, brasileiros, hispânicos, etc…
Quem já nos repassou tantas EMOÇÕES e nos ensinou que É PRECISO SABER VIVER tem o direito de OUTRA VEZ fazer com que 1 MILHÃO DE AMIGOS escolham carne Friboi.
O Rei, se houver patrulhamento, vai dizer: QUEREM ACABAR COMIGO. E se ficar raivoso, complementará: QUERO QUE VÁ TUDO PRO INFERNO! Se insistirmos no patrulhamento, ele nos desafiará: PODE VIR QUENTE QUE ESTOU FERVENDO!
Cá entre nós, o Rei é gente boa e cada vez que ele nos olha, em foto ou em vídeo, tenha a certeza de que ele nos faz esta pergunta: COMO VAI VOCÊ? Ele pode argumentar, ainda, que não fará novamente comercial de carne e dizer: SOLAMENTE UNA VEZ.
Se você insistir que o comercial por ele estrelado É ILEGAL, IMORAL E ENGORDA, certamente o Rei dirá que O SHOW JÁ TERMINOU porque NÃO QUERO VER VOCÊ TRISTE! E restará a você olhar ALÉM DO HORIZONTE e voltar a cantarolar AS CANÇÕES QUE VOCÊ FEZ PRA MIM!
Grato, Roberto, porque FALANDO SÉRIO, estamos com muitas saudades das BELAS TARDES DE DOMINGO contigo, Erasmo, Vanderleia, Jerry Adriani, Vanderlei Cardoso, Leno e Lilian, Demetrius, Golden Boys, Renato e seus Blue Caps, The Fevers…
Fim de papo na certeza de que uma picanha Friboi (ou não) ficará mais saborosa se tiver UMA BRASA, MORA!
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(Recomendável para quem curtiu a Jovem Guarda – anos 60 e 70 – e de fácil compreensão para os mais jovens que conhecem esse movimento musical por ouvirem canções de RC & Cia muitas vezes regravadas com novos arranjos por grupos da atualidade)

O sabiá

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldo“Minha terra tem palmeiras/Onde canta o sabiá;/As aves que aqui gorjeiam/Não gorjeiam como lá”. Fosse o seu Maranhão dominado, como hoje, pelo clã Sarney, é provável que Gonçalves Dias não visse Coimbra como exílio, mesmo tendo lá vivido como estudante, dos 15 aos 22 anos. Nem talvez sentisse muita saudade.
Desconheço que palmeiras eram as de Caxias (MA), sua terra. Não, com certeza, as garbosas palmeiras imperiais da nossa Avenida 15 de Novembro. Imperiais porque o primeiro exemplar foi plantado por Dom João 6°, no Jardim Botânico do Rio, em 1809.
Para cantar sabiá prefere mesmo palmeira? Durante muito tempo, bem cedinho, na Avenida 15 de Novembro, encantou-me a melodia de um sabiá-laranjeira. Nunca percebi se cantava em palmeira ou noutra árvore. Pela “Canção do Exílio” tinha que ser numa palmeira. Muitas vezes tentei, mas jamais o vi na folhagem daquela altura. Sabia esconder-se o espertinho. Lá no alto emitia seu gorjeio, que musicava minha manhã nascente. Assim foi por meses, nem sei quantos.Continue lendo ›

O palavrão

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoTarde de um domingo destes. Caminho para a Catedral. Em minha direção, na calçada, vêm dois rapazes. A todo instante olham para trás com um sorriso maroto. Lá adiante, o motivo: três garotas em shortinhos sumários, que só não revelam pensamento. É a moda, que fazer? Ninguém lhe resiste. (A propósito, alguns esperam que o padre condene trajes curtos na igreja. Nunca me senti à vontade para isso. Não é minha praia. Faz anos, após muita cobrança, expliquei: “Gente, não tenho nenhuma competência para a moda. Nem, aliás, para muitas outras coisas. Não se usa longo em praia nem biquíni em casamento. Para uma igreja, o marido, pai, avô, irmão, primo, namorado… da senhora ou da senhorita vejam se a roupa é adequada ou não. Quem convive com elas é que deve opinar sobre o que vestem”).
Voltando às jovens: alcanço-as no semáforo fechado. Antes que ele abra por completo, passam correndo. Um motorista buzina. A mais alta ergue o braço e, sem se importar com os presentes – parece desejar que todos ouçam – grita, o mais forte que pode: “Ah, vá se f…”! Levo um susto. Sou antiquado, reconheço. Entendo palavrão como descortesia, falta de educação. Pelo menos em público. Vindo de mulher, então, é um descalabro. Nos marmanjos, mais desbocados por natureza, surpreende menos. Mas mulher é pessoa fina, nobre, gentil.Continue lendo ›

Ao Menino Jesus

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoAntes do Natal, crianças escrevem cartinhas ao Papai Noel. Eu, que deixei longe minha infância, escrevo depois do Natal. Não para o Papai Noel, mas para o Menino do presépio. Vai para ele minha última mensagem do ano:
Querido Menino Jesus.
Não sei para você, mas para mim foi bom ter acabado o agito do Natal. Para falar a verdade, tamanho rebuliço já estava me cansando. Não que eu não reconheça o significado do seu nascimento entre nós. Quem sou eu, miserável pecador, para não me extasiar, agradecido, ante o mistério de Deus, que vem ao nosso encontro na doçura de uma criança? Que nos dá o próprio Filho feito humano igual a nós em tudo, menos no pecado? Continue lendo ›

Um Natal surucuano trocado em miúdos

De Zé Roberto Balestra, no blog de Joaquim de Paula:
gigiEnfim entramos na semana do Natal. Ainda há tempo, pouco, mas há, para mandar aquele cartão de Feliz Natal! a um amigo ou amiga, mesmo que seja por e-mail, porque isso já não é reparado por ninguém; a virtualidade tomou mesmo as rédeas da vida da gente. Estamos na estação da alegria, ocasião para reencontros, abraços a quem de há muito não se vê, de celebrar com um café na antiga confeitaria ou uma cerveja gelada no bar mais tradicional da cidade, ou apenas colocar a conversa em dia, a seco mesmo, em um banco de praça qualquer. O corpo pede isso e a alma muito mais: é chegado o tempo de fechar olhos para a tirania dos ponteiros que nos algemam aos compromissos ano a ano. Por isso troco em miúdos hoje aqui meus sinceros votos de:Continue lendo ›

Eles amam odiar Maringá

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoNão levem a mal a declaração deste caipira: considero minha esta cidade, que amo com ternura ingênua. Para cá vim faz 56 anos. Minha primeira impressão de Maringá foi assustadora, para dizer o mínimo. Era o dia 29 ou 30 de dezembro de 1957, não lembro bem. O ônibus parou na Praça Raposo Tavares. Desci no descampado ainda com marcas de árvores removidas em passado recente. Arregalei os olhos para uma Maringá de poeira, calor e gente feia. E, sem cachê nem ensaio, me vi como um figurante daqueles filmes de faroeste da minha infância.
Eu ia para Alto Paraná. Desde setembro, minha família morava lá. Morar ali ou em Maringá, para mim, era quase a mesma coisa. Eu estudava em Curitiba. Continue lendo ›

Comunicações

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoAlguém aí é do tempo em que Paulo Pimentel governou o Paraná? Quando secretário da Agricultura (1961-65) iniciou o aprimoramento do rebanho bovino. Apelidaram-no Paulo Nelore. Uma de suas marcas como governador (1966-71) foi o avanço das comunicações telefônicas. Antes, era um custo falar com São Paulo ou Rio. Com o Exterior, só se a vítima tivesse a paciência de Jó. Pimentel imprimiu à telefonia paranaense grande salto de qualidade. DDD e DDI, que pouca gente sabia o que significavam, passaram a integrar o vocabulário de qualquer capiau desta região. Atualmente, acostumados a ligar, sem dificuldade nem demora, para qualquer parte do mundo, os jovens nem se interessam pelo sentido dessas siglas. Precisam de tradução. Sobreviventes de outras eras, nós sabemos que elas querem dizer, respectivamente, discagem direta à distância e discagem direta internacional. É bom que todos aprendam. Vá que algum examinador invente de colocá-las entre as questões de concurso que, um dia, alguém venha a prestar. Nunca se sabe.Continue lendo ›

Admiração ou deboche

Do padre Orivaldo Robles:
orivaldoSempre gostei de ler. Desde criança lia tudo o que me caía sob os olhos. Concluído o grupo escolar, antes de ir para o seminário, trabalhei dois meses no Bazar Temer. No meio da infinidade de artigos à venda, descobri alguns livros de aventuras, que assanharam a minha curiosidade. Mais de uma vez o bom Temer, pai da nossa pediatra Elen Nemer, teve a paciência de me explicar que ali eu era funcionário para atender clientes, não leitor de obras de uma biblioteca. Naquela época ninguém fazia restrição ao criterioso emprego de crianças. Era pedagógica forma de inculcar o valor do trabalho, sem o qual nenhuma grandeza, inclusive financeira, se constrói. Na entrada da imponente sede do seu banco, na Cidade de Deus, bairro de Osasco (SP), o lendário Amador Aguiar, fundador do Bradesco, fez erguer a estátua de um burro de carga, sob a qual mandou escrever: “Só o trabalho produz riqueza”. Pena que hoje muitos desejem que a riqueza lhes caia do céu no colo. De preferência, sem que façam esforço algum.Continue lendo ›

Grandeza que vai acabando

Do padre Orivaldo Robles:
orivaldoTemos a mesma procedência; se não todos, quase todos. Viemos, em grande parte, de Minas ou do interior paulista. Se apreciamos uma generosa carne de porco, talvez o façamos não por elaborada preferência culinária, mas por lembrança do estilo de vida que aprendemos com nossos pais e avós. Na vida roceira em que fomos criados, matar porco era um ritual que envolvia toda a família. Por vezes, até algum vizinho, chamado a ajudar. Era trabalho que começava de manhã bem cedo. A gritaria do animal causava impressão ruim. A mãe tentava impedir que as crianças deixassem a cama para assistir. Se já estavam de pé, aconselhava a que se mantivessem afastados. Não era bom que presenciassem a violência que cabia ao pai executar. Nem deviam sentir pena do bicho. Quanto maior o dó que dele tivessem, tanto mais ele demoraria a morrer. Era a crendice aceita por todos. No fim, as recomendações mostravam-se inúteis. Que moleque ia perder um espetáculo daquele? Pouco depois, lá estavam todos chutando a bexiga do infeliz transformada em bola enchida pelo sopro num canudo de mamona e amarrada num barbante.Continue lendo ›

O “bom” velhinho

Do padre Orivaldo Robles:
orivaldoA senhora esperou-me atravessar a rua e me deteve: “Foi bom encontrá-lo. Nesta época do ano, lembro sempre seu ensinamento: que Natal é festa do Menino Jesus, não do Papai Noel. Tinha que lhe contar, sabe? Ano passado, levei meu sobrinho ao shopping. Queriam fazê-lo sentar-se no colo do Papai Noel. Ele se recusou. Muito firme, disse: ‘Natal é aniversário do Menino Jesus, não do Papai Noel’. Fiquei feliz de ver como ele aprendeu bem o que a gente ensina em casa”.
O período natalino volta com força e o velho gordo reaparece nas ruas, shoppings e lojas de toda a cidade. Com esse calorão mais forte a cada ano, é preciso coragem para envergar fardão vermelho, botas grossas, vasta barba e cabelos compridos. Continue lendo ›

Querido Gonzaguinha

orivaldoOutro dia, me dei ao cuidado de conferir a letra de “O que é, o que é?”, imortal samba de Gonzaguinha, falecido há 22 anos (tudo isso já?) em acidente no Sudoeste do nosso Estado. Nunca o tinha feito. Que riqueza de inspiração! Ele bem que podia ter durado mais que os seus poucos 45 anos. Ainda estaria produzindo coisas belíssimas, de valor incontestável. Muito melhores que as tolices de pretensos compositores, que frequentemente nos obrigam a ouvir em altíssimo volume. Sem pedir licença, alguns “donos” das ruas enfiam essas porcarias em nossos ouvidos. Nós, pobres vítimas, que podemos fazer?
Há tempo, venho-me convencendo de que atravessamos a era da mediocridade feliz. Na minha pobríssima opinião – que ninguém pediu, eu sei, e a poucos interessa –, grande parcela da sociedade vai sendo tangida por uma crescente imbecilização feita de desprezo do belo, do bom e do verdadeiro.Continue lendo ›

Ainda as mães meninas

Do padre Orivaldo Robles:
orivaldoPerde-se nas trevas de um passado que ninguém conheceu ou lembra a época em que nossas avós se casavam com 12 ou 13 anos de idade. Aos 14, já carregavam nos braços o primeiro filho. Nem por isso elas deixavam de dar conta da casa, de cozinhar, lavar, passar, fazer sabão, criar galinhas, amassar pão… e uma infinidade de outras obrigações. Ninguém ouvira ainda falar sobre creche, babá, “baby-sitter”, essas coisas. Com muita sorte, a mãe adolescente, se tanto, recebia ajuda de uma criança pouco mais nova do que ela – irmã, prima ou vizinha – a quem, por instantes, confiava seu nenê. Contudo, o que arrumava, muitas vezes, era nova fonte de preocupação. Essa adulta de 14 anos passava a ter duas crianças sob seus cuidados.
Passou o tempo. Os costumes mudaram. A vida hoje é diferente. Quando nos procuram para tratar de casamento, os jovens andam por volta dos 30 anos. Continue lendo ›

Como ser chique

Do padre Orivaldo Robles:
orivaldoMuita gente vive preocupada em ser reconhecida como elegante, fina, requintada ou, como ainda se diz, chique. Ser chique é agir de modo apreciado pelas figuras que povoam as altas rodas às quais ascenderam pelo dinheiro e pela aceitação dos outros. Em todas as cidades, até nas pequeninas e de menor importância econômico-político-social, encontram-se homens e mulheres muito interessados em pontear como a nata da sociedade local. Desenvolvem um esforço colossal para causarem boa impressão. Para granjear entre os seus concidadãos a admiração e o aplauso sem os quais a vida lhes parece uma coisa sem graça, penosa de ser vivida. No mundo inteiro, pelo que se percebe, há pessoas para quem a opinião alheia pesa mais do que as próprias convicções.
No passado, tempo em que as oceânicas distâncias impediam o acesso às fontes europeias da cultura e da elegância, as famílias abastadas destas rudes plagas enviavam os filhos à França, berço da “noblesse” e do conhecimento de então. Nossa fonte cultural, como os mais vividos recordam, desde então, recende os seus inegáveis eflúvios franceses. Só nas últimas décadas é que se impôs o domínio cultural norte-americano, que hoje todos conhecemos. Continue lendo ›

Horário de verão

Do padre Orivaldo Robles:
orivaldoEstou correndo o risco de receber paulada dos que pensam de forma diferente. Não sou versado nas ciências que tratam do assunto. Ainda assim, me arrisco a palpitar sobre o horário de verão, já em vigor. “Livre pensar é só pensar”, dizia Millôr. Exerço o direito de reclamar à toa, o “jus sperneandi”.
Não gosto desse horário. Jamais gostei. E não sou o único. Ele coleciona inimigos, assim como defensores, não sei em que proporção. Na Câmara dos Deputados repousam três projetos de lei, à espera da chance de o mandarem todos sabem para onde. Sinal de que também o detestam pessoas bem mais importantes que este obscuro escriba.
Todo ano, no terceiro domingo de outubro, desce um pesado mal-estar sobre meu corpo que, há tempo, consumiu os anos radiosos da juventude. Confesso que a primeira semana é braba. Depois, pouco a pouco, a máquina se adapta. Assim mesmo, pegando só no tranco. E contando os dias que faltam para o terceiro domingo do fevereiro seguinte.Continue lendo ›