Crônica

Grandeza que vai acabando

Do padre Orivaldo Robles:
orivaldoTemos a mesma procedência; se não todos, quase todos. Viemos, em grande parte, de Minas ou do interior paulista. Se apreciamos uma generosa carne de porco, talvez o façamos não por elaborada preferência culinária, mas por lembrança do estilo de vida que aprendemos com nossos pais e avós. Na vida roceira em que fomos criados, matar porco era um ritual que envolvia toda a família. Por vezes, até algum vizinho, chamado a ajudar. Era trabalho que começava de manhã bem cedo. A gritaria do animal causava impressão ruim. A mãe tentava impedir que as crianças deixassem a cama para assistir. Se já estavam de pé, aconselhava a que se mantivessem afastados. Não era bom que presenciassem a violência que cabia ao pai executar. Nem deviam sentir pena do bicho. Quanto maior o dó que dele tivessem, tanto mais ele demoraria a morrer. Era a crendice aceita por todos. No fim, as recomendações mostravam-se inúteis. Que moleque ia perder um espetáculo daquele? Pouco depois, lá estavam todos chutando a bexiga do infeliz transformada em bola enchida pelo sopro num canudo de mamona e amarrada num barbante.Continue lendo ›

O “bom” velhinho

Do padre Orivaldo Robles:
orivaldoA senhora esperou-me atravessar a rua e me deteve: “Foi bom encontrá-lo. Nesta época do ano, lembro sempre seu ensinamento: que Natal é festa do Menino Jesus, não do Papai Noel. Tinha que lhe contar, sabe? Ano passado, levei meu sobrinho ao shopping. Queriam fazê-lo sentar-se no colo do Papai Noel. Ele se recusou. Muito firme, disse: ‘Natal é aniversário do Menino Jesus, não do Papai Noel’. Fiquei feliz de ver como ele aprendeu bem o que a gente ensina em casa”.
O período natalino volta com força e o velho gordo reaparece nas ruas, shoppings e lojas de toda a cidade. Com esse calorão mais forte a cada ano, é preciso coragem para envergar fardão vermelho, botas grossas, vasta barba e cabelos compridos. Continue lendo ›

Querido Gonzaguinha

orivaldoOutro dia, me dei ao cuidado de conferir a letra de “O que é, o que é?”, imortal samba de Gonzaguinha, falecido há 22 anos (tudo isso já?) em acidente no Sudoeste do nosso Estado. Nunca o tinha feito. Que riqueza de inspiração! Ele bem que podia ter durado mais que os seus poucos 45 anos. Ainda estaria produzindo coisas belíssimas, de valor incontestável. Muito melhores que as tolices de pretensos compositores, que frequentemente nos obrigam a ouvir em altíssimo volume. Sem pedir licença, alguns “donos” das ruas enfiam essas porcarias em nossos ouvidos. Nós, pobres vítimas, que podemos fazer?
Há tempo, venho-me convencendo de que atravessamos a era da mediocridade feliz. Na minha pobríssima opinião – que ninguém pediu, eu sei, e a poucos interessa –, grande parcela da sociedade vai sendo tangida por uma crescente imbecilização feita de desprezo do belo, do bom e do verdadeiro.Continue lendo ›

Ainda as mães meninas

Do padre Orivaldo Robles:
orivaldoPerde-se nas trevas de um passado que ninguém conheceu ou lembra a época em que nossas avós se casavam com 12 ou 13 anos de idade. Aos 14, já carregavam nos braços o primeiro filho. Nem por isso elas deixavam de dar conta da casa, de cozinhar, lavar, passar, fazer sabão, criar galinhas, amassar pão… e uma infinidade de outras obrigações. Ninguém ouvira ainda falar sobre creche, babá, “baby-sitter”, essas coisas. Com muita sorte, a mãe adolescente, se tanto, recebia ajuda de uma criança pouco mais nova do que ela – irmã, prima ou vizinha – a quem, por instantes, confiava seu nenê. Contudo, o que arrumava, muitas vezes, era nova fonte de preocupação. Essa adulta de 14 anos passava a ter duas crianças sob seus cuidados.
Passou o tempo. Os costumes mudaram. A vida hoje é diferente. Quando nos procuram para tratar de casamento, os jovens andam por volta dos 30 anos. Continue lendo ›

Como ser chique

Do padre Orivaldo Robles:
orivaldoMuita gente vive preocupada em ser reconhecida como elegante, fina, requintada ou, como ainda se diz, chique. Ser chique é agir de modo apreciado pelas figuras que povoam as altas rodas às quais ascenderam pelo dinheiro e pela aceitação dos outros. Em todas as cidades, até nas pequeninas e de menor importância econômico-político-social, encontram-se homens e mulheres muito interessados em pontear como a nata da sociedade local. Desenvolvem um esforço colossal para causarem boa impressão. Para granjear entre os seus concidadãos a admiração e o aplauso sem os quais a vida lhes parece uma coisa sem graça, penosa de ser vivida. No mundo inteiro, pelo que se percebe, há pessoas para quem a opinião alheia pesa mais do que as próprias convicções.
No passado, tempo em que as oceânicas distâncias impediam o acesso às fontes europeias da cultura e da elegância, as famílias abastadas destas rudes plagas enviavam os filhos à França, berço da “noblesse” e do conhecimento de então. Nossa fonte cultural, como os mais vividos recordam, desde então, recende os seus inegáveis eflúvios franceses. Só nas últimas décadas é que se impôs o domínio cultural norte-americano, que hoje todos conhecemos. Continue lendo ›

Horário de verão

Do padre Orivaldo Robles:
orivaldoEstou correndo o risco de receber paulada dos que pensam de forma diferente. Não sou versado nas ciências que tratam do assunto. Ainda assim, me arrisco a palpitar sobre o horário de verão, já em vigor. “Livre pensar é só pensar”, dizia Millôr. Exerço o direito de reclamar à toa, o “jus sperneandi”.
Não gosto desse horário. Jamais gostei. E não sou o único. Ele coleciona inimigos, assim como defensores, não sei em que proporção. Na Câmara dos Deputados repousam três projetos de lei, à espera da chance de o mandarem todos sabem para onde. Sinal de que também o detestam pessoas bem mais importantes que este obscuro escriba.
Todo ano, no terceiro domingo de outubro, desce um pesado mal-estar sobre meu corpo que, há tempo, consumiu os anos radiosos da juventude. Confesso que a primeira semana é braba. Depois, pouco a pouco, a máquina se adapta. Assim mesmo, pegando só no tranco. E contando os dias que faltam para o terceiro domingo do fevereiro seguinte.Continue lendo ›

Honestidade

Do padre Orivaldo Robles:
orivaldoSaiu em dezenas de publicações deste Brasil tão precisado de boas notícias. Deu até no Jornal Nacional. Prova de que o fato está fora dos padrões convencionais. É uma daquelas coisas que parecem impossíveis de acontecer por aqui. Que, contadas, as pessoas vão chamar de lorota. Mas não é. É pura verdade.
Aconteceu em Jales, cidade de 50.000 habitantes, no noroeste paulista, distante 590 km da capital do Estado. Quando de sua elevação a município, há mais de 60 anos, minha família morava lá. Na época, era apenas um montinho mal ajeitado de casas. Os moradores não iam além de poucos milhares. Ainda assim, porque seis vilarejos, espalhados em derredor, foram-lhe atribuídos como distritos a fim de assegurar população necessária ao seu novo status. Pois essa é a Jales, que, por esses dias, veio nos devolver a fé na pureza da raça humana, que ainda tem integridade, sim. Pelo menos, alguns dos seus representantes.Continue lendo ›

Quinzim Bitu rico não era

De João Guido: ilustraPraquê que enfiaram na cabeça dele aquela idéia de se mandar do seu chão de nascença? Quinzim Bitu não era rico, não era. Os quinze alqueires num fundão da Paraíba, uma área do brejo, plantando dava: A mulher Otaviana ajudando a capinar e colher, os cinco filhos sobrevividos já pegando no cabo da enxada, o mais velho com vinte, o caçula com 12, no meio Tiquita pensando em casamento. Rico não era o Quinzim Bitu. Comia fartura, as colheitas e as carnes que vendia faziam sobrar algum para a roupa nova dos dias de romaria, a família gorda e sossegada. Enfiaram na cabeça dele a notícia de que no sul a vida era muito melhor. Tinha conforto, tinha modernice, tinha alegria, tinha chiqueza, tinha carnaval, futebol, emprego fácil, dinheiro farto. Quinzim vendeu seu chão de nascença e se mandou de caminhão, de trem, desceu em São Paulo. Só sabia capinar, plantar, colher, não conseguiu emprego. Nem documento em ordem ele tinha. Continue lendo ›

Síndrome da Desilusão Ortográfico-Amorosa

De Karine Rosa:
Não é que seu cabelo não seja no corte que eu sonhei. Nem foi sua regata que me afastou. Não foram seus amigos, seu jeito, a ligação que você demorou tempo demais a fazer. Relevei tudo isso porque você me tinha tão na mão. Eu estava pronta para tudo com você – menos para o seu “ancioso”. Foi aí que veio o Facebook. E eram tantos erros que eu fechei sua página antes mesmo de ler toda a sua timeline. Veja bem, eu encararia numa boa seu celular desligado, suas ex-namoradas no seu pé e até sua dificuldade em ser fiel. A gente superaria isso juntos. Mas não deu para encarar o “concerto do seu computador”, o “encômodo” que você causava, muito menos a “conhecidência de termos nos conhecido”. Nunca mais queria uma coincidência dessa na minha vida.Continue lendo ›

A fila do SUS

Do padre Orivaldo Robles:
Quando pároco de Santa Maria Goretti, uma das três missas de domingo eu celebrava às sete da manhã. A assembleia compunha-se, na sua maioria, de pessoas cinquentenárias. Facilmente se via que não era a missa de maior participação dos jovens. Boa parte deles, após uma noite de balada, estava voltando para casa, enquanto os pais se preparavam para ir à igreja. Por brincadeira, até os frequentadores chamavam-na a “missa da tosse”. De maio a agosto, época do frio, era difícil discordar do ruidoso apelido.
Agora, na Catedral, eu celebro a primeira missa de domingo às sete e meia. Chego antes, por volta de seis e quinze. Com tempo para oração da manhã, uma repassada nos textos litúrgicos e uma curta meditação que faço aos agentes da celebração eucarística. Há cerca de dois meses, eu é que me vejo dando motivo para esta missa fazer-se conhecida pelo hilário nome. Com a Catedral ainda vazia, minhas ruidosas explosões bronquiais por pouco não sacodem as paredes. Ainda bem que são de concreto.Continue lendo ›

O regente de algum coral do céu

Do padre Orivaldo Roboes:

Frei José Luiz Prim
Frei José Luiz Prim

Mal chegado da roça, aos doze anos, fui apresentado à música erudita. Os padres do nosso seminário, em São José do Rio Preto, eram holandeses e nos passavam a sua cultura. Assim, tive meu primeiro contato com “Schlafe, mein Prinzchen”, conhecida (por aqui nem tanto) canção de ninar de Mozart. Ouvi-a num disco de 78 r. p. m., na interpretação dos Meninos Cantores de Viena, um dos mais competentes corais infantis do mundo. Foi o coro inspirador de frei Leo Bienias para criar aquele que é, atualmente, o mais antigo coral infantil do Brasil e integrante da Federação Internacional dos Meninos Cantores. Ele nasceu no dia 15 de agosto de 1942 como um corinho modesto. Mas o frade alemão naturalizado brasileiro conseguiu transformá-lo no Instituto Meninos Cantores de Petrópolis. Compõe-se de duas partes distintas e unidas entre si: o Colégio dos “Canarinhos” e a Escola de Música “Canarinhos”. A preocupação de Frei Leto era produzir canto coral de qualidade artística para, como principal atividade, cantar aos domingos na missa da igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Petrópolis. Por 30 anos, praticamente sozinho, Frei Leto ensaiou e dirigiu o coral de meninos. Cansado, pediu a Frei José Luiz Prim que o substituísse. Formado em música, compositor e regente, Prim aceitou o encargo. E fez dos Canarinhos um dos mais respeitados corais infantis do mundo.Continue lendo ›

O Dom Jaime que conheci

Do padre Orivaldo Robles:
domjaimeCom ele convivi 55 anos. Figura incrível. Prefiro dele não me lembrar com tristeza. A seguir, duas passagens. Uma dolorida e jocosa; outra séria. Ambas verídicas. Escrevi-as em 2006:
1. Primeiros anos da Diocese. Maringá não tinha água tratada. Dom Jaime apanhou terrível infecção intestinal, uma giardíase que o acompanhou por longos e sofridos anos. Para ele as visitas pastorais, que jamais deixou, passaram a ser um suplício. Perdeu a conta das vezes que, em capelas rurais onde estava crismando, ao necessitar de um banheiro, verificava que simplesmente não existia tal peça. Por desoladora experiência comprovou a triste verdade do que é relatado como anedota, mas pode bem ter acontecido. Lá no sertão baiano, segundo contam, ter-se-ia um bispo hospedado em casa de rico fazendeiro, senhor de muitas terras e gado, mas de cultura pouca e de hábitos rudimentares. Não vendo nos aposentos nenhum sinal de sanitários, delicadamente o bispo foi informar-se com o anfitrião. O fazendeiro, chamando-o fora, estendeu o braço e apontou: “Olhe, seu bispo, daqui até o Piauí o senhor use à vontade”. Continue lendo ›

O papa no Brasil

papa
Do padre Orivaldo Robles:
Ainda por muito tempo se falará da visita do papa Francisco. Para os mais velhos ela lembrou a primeira visita de um papa ao Brasil. Foi a de João Paulo 2°, em 1980. Tudo era novidade então. A começar pelo beijo no solo do aeroporto, ao desembarcar, em 30 de junho. No espaço de 12 dias, ele percorreu 14 mil quilômetros e 13 cidades: Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Aparecida, Porto Alegre, Curitiba, Manaus, Recife, Salvador, Belém, Teresina e Fortaleza. Uma das mais longas de suas 207 viagens apostólicas, nos quase 27 anos de pontificado (1978-2005). Algumas foram curtas, para o interior da Itália. Assim mesmo, comparado aos predecessores, Karol Wojtyla viajou mais do que todos juntos, de São Pedro a João Paulo 1°. Continue lendo ›

“Ao mestre, com carinho”

domjaime
Do padre Orivaldo Robles:
1. No dia 29 de novembro (de 1956), lida a carta da nunciatura, uma curiosidade cheia de medo o fez consultar o mapa, investindo largo tempo no inútil esforço de localizar a cidade na qual viveria o resto dos seus dias. Maringá era por demais nova para figurar em mapas com mais de cinco anos, caso daquele que tinha em mãos. Naquele tempo, em toda Ribeirão Preto, como, de resto, possivelmente em todo o Brasil, ninguém conseguiria localizar em mapa aquela que seria denominada “cidade-canção”.Continue lendo ›

O bom rabi e o cão

Do padre Orivaldo Robles:
caoUma fábula oriental conta que, nos arredores de Jerusalém, várias pessoas distraíam-se a contemplar um cão morto, estirado no caminho. Mostravam nojo e desprezo, ao tempo em que emitiam opiniões sobre o motivo de o terem arrastado até ali. “Deve ter sido um daqueles cães vagabundos, que invadem quintais para roubar comida”, disse um. “Com esse pelo coberto de rabugem, bem se vê que foi um cão vadio, que nunca teve dono”, arriscou outro. Um terceiro emendou: “Vai ver, algum morador da redondeza o matou e abandonou-o aí para os corvos”. Essas e ideias de igual teor eram expostas em voz alta e sem disfarce. Foi quando se achegou um desconhecido. Seu rosto refletia luz invulgar, que atraía atenção e respeito. Estava claro que ouvira os comentários feitos. Lançou sobre o animal morto um olhar de piedade e arrematou com doçura: “Nenhuma pérola seria capaz de brilhar tanto como a brancura dos seus dentes”.Continue lendo ›

O profeta e a cidade

manifestação
Do padre Orivaldo Robles:
O profeta é um visionário. Seu olhar penetra o que a outros é inatingível. Ele colhe na intimidade com Deus o talento para ditos que encantam. É vizinho, senão gêmeo do poeta. Como este, transmite noções com um talento que embasbaca. À gente ignara ocorre, por vezes: “Como não pensei nisso”? Mas dom é dom: não se dá a quem quer. Nada se faz por merecê-lo. Quem o possui simplesmente o ganhou. Para desfrute não de proveito pessoal, mas aberto ao bem de todos. No século 8° a. C., em anúncio dos tempos messiânicos, Isaías formulou uma proposta assombrosa. E, ao mesmo tempo, encantadora: “O lobo será hóspede do cordeiro, o leopardo vai se deitar ao lado do cabrito. O bezerro e o leãozinho pastarão juntos; uma criança pequena tangerá os dois. O urso e a vaca pastarão unidos, enquanto suas crias descansarão lado a lado. O leão comerá capim como o boi. O bebê vai brincar no covil da víbora; a criancinha enfiará a mão na toca da serpente” (Is 11,6-8). A quem não sensibiliza o lirismo da descrição? Continue lendo ›

Lições de futebol

Do padre Orivaldo Robles:
Sabe aquela propaganda do bancário que cresceu ao lado do amigo e, para cada etapa que cita, vai repetindo: “Ele, titular; eu, banco”? Fosse comigo, a frase seria: “Ele, titular; eu, gandula”. Nem banco seria. Futebol, devo admitir, nunca foi exatamente minha praia. Apesar de eu ter sido fominha por bola e jogar o mais que podia. Foi o único esporte que pratiquei. Mas, se tivesse cometido a burrice de tentá-lo profissionalmente, na certa morreria de fome. Em campo fui sempre ponta-direita. Daqueles antigos, que vestiam a camisa sete, carregavam a bola até à linha de fundo e cruzavam, na esperança de que aparecesse alguém na área para mandá-la às redes. Tive desempenho medíocre, reconheço. Marquei também gols importantes. Menos, porém, do que se contam nos dedos das mãos.Continue lendo ›

Por que a criança chora?

choro
Do padre Orivaldo Robles:
Memória de idoso é uma encrenca. Sem mais nem menos, revolve lá no fundo e desentoca coisas que ninguém conhece ou recorda. É o caso do exemplo a seguir. Sem esforço e com assiduidade, me vem à cabeça uma canção encontrada num dos meus velhos LP nos quais, por falta de tempo ou por comodismo, faz séculos que não mexo. Aos menos vividos acho bom esclarecer que LP é abreviatura de “long playing”. Designa um antigo disco, dito de vinil, que talvez tenham visto em figura. Nele eram gravadas normalmente doze melodias. Foi o sucessor do disco de 78 r.p.m. (rotações por minuto). Por causa do tamanho, também este, mas especialmente o outro, recebe hoje o apelido de bolachão. O LP apareceu na fase anterior ao CD, ou “compact disc”. Entendo que para nossos atuais garotos CD também não queira dizer nada. É coisa do tempo do onça.Continue lendo ›

“Vem pra rua!”

Do padre Orivaldo Robles:
Terça-feira passada, dezessete e trinta, mais ou menos. Nariz pingando como torneira que não fecha, eu ia apressado à farmácia do canto da praça. Faz tempo, me deram um cartão da melhor idade. Melhor para quem? Para os laboratórios, com certeza. São os que lucram com nossas doenças. O cartão me dá pequeno desconto. Não posso desprezar; tomo uma batelada de remédios de uso contínuo.
Enquanto caminhava, eu ouvia o alto-falante convocando as pessoas para o início da manifestação. Lamentei a coriza e o mal-estar que sentia. Mais que isso, porém, lamentei não possuir a disposição de 1992, da caminhada pelo impeachment do presidente Collor. Naquela vez, saí às ruas no meio de uma multidão composta, em sua maioria, por adolescentes conhecidos como “caras pintadas”. Pintaram a minha também. Tempo bom. Não há setentão que não recorde com gosto a vida que levava há vinte anos. Desta vez, tomei direto o rumo de casa. Nas ruas, jovens risonhos – de novo, quase todos adolescentes – portavam cartazes pintados à mão. Riam e aprontavam todo o barulho que a hora e o lugar lhes permitiam.Continue lendo ›

Namorados

Do padre Orivaldo Robles:
Minha cidade, no interior paulista, ostenta na única praça, a da matriz, uma estátua de Santo Antônio. Estátua em praça não é novidade. Em Curitiba, na praça da Catedral, há uma estátua de Tiradentes. A da minha cidade foi doada por Durvalino Magrini e inaugurada, nos anos 50, diante de um colosso de gente. Um frade franciscano português, convidado para o evento, em seu discurso, várias vezes, falou de Santo Antônio de Lisboa. Deixou-me confuso. O padroeiro do lugar era Santo Antônio de Pádua, único que até ali eu tinha ouvido. Mais tarde vim saber que ele era natural de Lisboa. Morrera em Pádua, na Itália, daí a designação pela qual é conhecido. Mas tente convencer um português a chamá-lo Santo Antônio de Pádua!Continue lendo ›

O pica-pau

Do pare Orivaldo Robles:
Numa dessas manhãs, no meio das poucas árvores da Praça da Catedral, ouvi pipilar um pica-pau. Um não; dois. Um piava, outro respondia. Corriam pela grama, alçavam voos curtos, subiam às copas das árvores. Um casal, sem dúvida, em busca de lugar para construir o ninho. Devem ter ido embora decepcionados. Não cresce ali mais nenhuma palmeira decente que mereça o furo do seu afiado bico. Nada parecido com a fartura de que dispunham seus ancestrais. Quem morou na roça recorda os coqueiros no meio do pasto, duros como ferro e altos como prédios. Os pica-paus os martelavam até perfurar um orifício redondo e fundo. Com uma capacidade fabulosa de escutar – ouvem larvas ou insetos movendo-se no interior do tronco – cavam o caminho até sua refeição, além de providenciar a maternidade onde nascerão seus descendentes. Para pôr ovos e criar filhotes, não sei de outro pássaro, tirante o joão-de-barro, capaz de construir uma casa tão segura.Continue lendo ›

Recordação

De Antonio Prata, na Folha de S. Paulo:
“Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado”, ele disse, me olhando pelo retrovisor. Fiquei sem reação: tinha pegado o táxi na Nove de Julho, o trânsito estava ruim, levamos meia hora para percorrer a Faria Lima e chegar à rua dos Pinheiros, tudo no mais asséptico silêncio, aí, então, ele me encara pelo espelhinho e, como se fosse a continuação de uma longa conversa, solta essa: “Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado”. Meu espanto, contudo, não durou muito, pois ele logo emendou: “Nunca vou esquecer: 1º de junho de 1988. A gente se conheceu num barzinho, lá em Santos, e dali pra frente nunca ficou um dia sem se falar! Até que cinco anos atrás… Fazer o que, né? Se Deus quis assim…”. Leia mais.

Por que Neymar foi embora?

De José Roberto Torero:
Por que Neymar, ou melhor, os neymares vão embora? Não deve ser por dinheiro. A Espanha tem um PIB menor que o nosso. O do Brasil é o sexto do mundo, com 2,56 trilhões de dólares. O da Espanha é o décimo-segundo, com 1,49 trilhão. O motivo deste êxodo pode ser entendido no jogo de despedida de Neymar. Na íntegra.

Para onde foi o silêncio?

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoOutro dia, nos dois lados da calçada à minha frente, contei seis pessoas falando ao celular. Não olhei para trás. É provável que outras estivessem fazendo o mesmo. O leitor já deve ter visto alguém conversando na rua, mas não percebeu com quem. Fique tranquilo. Não é nenhum daqueles infelizes que conversam sozinhos. Pode ver que ele mantém um aparelhinho colado na orelha. Existem até adaptações que permitem falar deixando as mãos livres. Inventadas, quem sabe, por algum italiano, que gosta de conversar agitando os braços, feito um helicóptero.
Não sei qual a relação entre o número de habitantes e o de celulares. Acredito que seja de empate. Em média, um celular por habitante. Como o automóvel, o celular marca a vida contemporânea. Não adianta ficar bravo. Ambos vieram para ficar. Em qualquer cidade é provável que a parcela maior da população disponha de carro e de celular. Mais de um até. Para os veículos é um suplício garantir vaga de estacionamento ou garagem de prédio. Para os celulares, ao contrário, nenhuma restrição. Estão aí, de todos os modelos, tipos, cores e preços. Dotados ainda dos mais impensáveis recursos, que os transformam no mais avançado Bombril das famosas mil e uma utilidades. Celulares podem hoje ser usados até como telefones.Continue lendo ›

Que futuro haverá?

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoAlguém se lembra do filme “O Dia Seguinte”? Produção norte-americana de 1983, feita originalmente para a TV, desenhava os efeitos de uma guerra nuclear entre União Soviética e Estados Unidos. Era ambientada para Lawrence, no Kansas, cidade escolhida por situar-se no centro do país. Pretendia mostrar que uma guerra nuclear iria afetar a vida de todos, não importando onde vivessem. Hoje, a bem da verdade, nada acontece que não se faça sentir no mundo inteiro. Desde Herbert Marshall McLuhan (1911-1980), é aceito que vivemos numa “aldeia global”. Pelo menos no que tange ao comportamento. Basta um maluco inventar alguma idiotice num canto qualquer onde o Judas perdeu as botas para, do outro lado do mundo, alguém achar bonito imitá-lo. A macaquice patrocinada pelos meios de comunicação de todos os calibres faz tempo que mandou a privacidade para as cucuias.
Cada “especialista” que beberica sua cerveja no bar apresenta um diagnóstico para as barbaridades dos noticiários. Continue lendo ›

Dia das mães

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoUm colega meu de seminário, nos anos 60, durante as férias, tinha o costume de reunir em casa os irmãos menores para explicar-lhes passagens da Bíblia. Numa dessas ocasiões, contou-lhes a parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32). Ao final, quis saber se haviam entendido ou restava alguma dúvida. Na inocência dos seus cinco anos, a irmãzinha caçula surpreendeu-o com um grande problema: “E onde estava a mãe dele”? Para a pequena deve ter parecido estranho que figura tão importante como a mãe não tivesse lugar na história. A parábola fala do filho descabeçado; do mais velho, ciumento; do pai misericordioso; cita até os empregados – mas sobre a mãe, nenhuma palavra. Pode?
Deus deve ter inventado a mãe a partir das necessidades do filho pequeno. Ao menor desconforto, ele exige-lhe a presença. Dela, de mais ninguém. Vá o pai acudir, se a hora for de mamar no seio! Quando chegar o tempo da mamadeira, ele poderá intervir. Mas aí já o grude do nenê com a mãe será tão firme que nem formão afiado remove. Igualmente a ligação dela com seu bebê. Continue lendo ›

Nossa violência de cada dia

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldo“Quando eu era criança pequena”, não lá em Barbacena, mas no Estado de São Paulo, ouvia contar maldades atribuídas a Dioguinho, Lino Catarino ou Aníbal Vieira, o Lampião paulista, que sobreviveram no ideário popular como desafiadores da lei e da ordem. Lei e ordem que, na sua época, não deviam ser grande coisa. No sertão de Rio Preto, Triângulo Mineiro ou Mato Grosso do Sul, no início do século passado, viver era quase ter a espada de Dâmocles sobre a cabeça. Pouca gente, muito mato, fazendas se abrindo, estradas e comunicações rudimentares… – o que não faltava eram arruaceiros e matadores. Claro que o povo exagera quando conta seus causos. Para Menotti del Picchia, “cada ‘valentão’ se multiplica, cataliza façanhas alheias, deforma-se sentimentalmente a tomar atitudes vingadoras de cavaleiro andante e a enriquecer-se com o halo quixotesco de façanhas inidentificáveis”. Nem sempre dá para separar a história da lenda. Contudo, é certo que houve homens ignorantes, violentos, para quem matar não produzia desconforto nem remorso. Julgavam-se acima do bem e do mal. Não conheciam outra lei senão a própria vontade, que impunham à força.Continue lendo ›

Educação vem do berço

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoOs filhos de hoje são todos lindos. Os pais capricham no visual do único ou dos dois que têm. Para os oito ou dez de outrora não havia isso. Não sobrava tempo nem dinheiro. Mas cada um recebia séria formação, sob o olhar atento e cuidado permanente. Coisa que hoje muitos esquecem. Fiz esta reflexão há doze anos, mas considero-a ainda atual.
Era domingo cedo. O homem pegou o jornal no jardim da bela residência e passava os olhos pelas manchetes. Foi quando viu um matinho à toa, na base da calçada, no fundo da casa. Como foi nascer ali, numa fenda do concreto? Qualquer hora eu o arranco, pensou o homem.
Após algum tempo, comprou uma chácara. Seus fins de semana tornaram-se bucólicos, como dizia. Os meninos não, mas ele e a mulher, por nada deste mundo, dispensavam a semanal fuga para o silêncio do campo. A rica mansão deixou de merecer a atenção de antes.
Anos depois, verificou que o matinho verde de um dia – na verdade, uma seringueira, aquela árvore que não produz borracha, mas se torna imensa – tinha rachado calçada, parede e ameaçava a estrutura da casa.
Historinha besta, dirá o gentil leitor. Imagine se alguém deixaria passar tanto tempo sem notar o risco que corria uma casa que custou tanto. É verdade. Quando há dinheiro em jogo, a gente cuida. Em se tratando de outros valores, nem se preocupa.Continue lendo ›

Um dia para o índio

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldoNas décadas de 80 e 90 fui, algumas vezes, com uma família amiga ao Mato Grosso, perto do Pará, em férias de poucos dias. A gente aproveitava julho, quando não chovia. De uma feita, não sei por que, viajamos em janeiro. Então descobri a que, naquela região, chamam inverno. Dia sim, outro também, amanhece um céu azul que dá gosto. Quente como tampa de panela. Logo, logo começa a nublar. Pelas duas da tarde, pouco mais, despenca um aguaceiro de não se enxergar um metro à frente. Não demora e o céu limpa de novo. O dia termina num pôr do sol de pintura. Por que viajar para o Mato Grosso nas férias de meio do ano? É que boa parte dos familiares mudou para aquelas lonjuras. O casal, ambos professores, todo ano, levava as crianças a visitar avós e tios. Os de lá e os daqui mostravam prazer em que eu também fosse. Quiçá para fazer lastro no carro. Ou para ajudar a dirigir. Mais de dois mil quilômetros ao volante, sem parar, ninguém merece. Estou brincando. Amigos queridos, eles apreciavam, muito além do que vale, a minha companhia. Na época, depois de Cuiabá a BR 163 era chão puro até Santarém (PA). De tanto em tanto, desvios e máquinas. O solo preparava-se para o asfalto.Continue lendo ›

Casamento e tempo

Do padre Orivaldo Robles:
padreorivaldo“Não podemos esquecer o tempo. Ele também passa pelo corpo que envelhece. A garota que conheci com vinte anos não é a mesma aos setenta. Existem ainda as enfermidades. Mas o mundo atual não quer que vejamos. Todos são jovens, bonitos, sem doenças. Ora, isso é contrário à experiência humana de todos os dias. Na hora da verdade, basta atravessar a rua para ver que a realidade é outra. Isso acontece porque há um materialismo de fundo que destrói o tempo. Porque não há vida interior e relação com Deus. A juventude e a obsessão com o corpo querem estar no mesmo nível que o espiritual. Se o corpo estabelece as regras de vida, tudo muda. A isso se acrescentam as enormes dificuldades econômicas que as famílias enfrentam; os problemas no trabalho, o desemprego, e até mesmo o fato de que o casal chega a casa exausto do trabalho. No final do dia, cada um viveu uma experiência diferente e não é possível compartilhá-la, porque a sociedade não permite. Tudo isso tem um preço, que é pago pela família. É preciso refletir sobre todos esses condicionamentos sociais da vida familiar”.
Quem passou dos setenta endossa as colocações acima, feitas por Georges Cottier, cardeal e teólogo pontifício emérito. É incrível com que brutalidade o tempo impõe ao nosso corpo transformações que, na infância e juventude, sequer em sonho calculávamos que aconteceriam. Até admitíamos que a vida é passageira, que a idade provoca mudanças. Mas não sabíamos, como agora, o que é suportá-las, quando chegam e se instalam.Continue lendo ›