Crônica

Aniversários

Por padre Orivaldo Robles:

Desde cedo, nos acostumamos a comparar a vida com um percurso feito do berço ao túmulo. Não posso afirmar com certeza, mas acredito que todas as línguas conheçam a expressão “estrada da vida”. Até porque andar é uma das mais gratas conquistas dos albores da nossa infância. Nascemos não para ficar parados, mas para caminhar.

Ao atingir setenta anos, finalmente compreendo por que idosos preferem olhar para trás em vez de para diante. O caminho percorrido se revela mais venturoso do que faz prever o resto de estrada ainda por vencer. Ignoro quem teve a idéia de apelidar de melhor idade esta fase. Melhor para quem? Para a indústria farmacêutica? Duvido que, em todo o planeta, um único idoso recusasse ter de volta, se jeito houvesse, os seus, digamos, trinta anos. Quando menos, pela chance de reduzir o número das burradas que cometeu. Quem nunca lamentou: “Ah, se arrependimento matasse”? Sem falar que, aos trinta, a vida é bem mais radiosa do que aos setenta. Ou alguém duvida? Na íntegra.

Um cartão postal

Por Donizete Oliveira:

No livro “Identidade”, o sociólogo polonês Zigmunt Bauman faz muitas reflexões sobre a pós-modernidade. Bauman, aliás, é mestre em discorrer sobre o tema. Já o fez com maestria em “Amor líquido”, “Medo líquido”, “Vida Líquida”, entre outros.
Para ele, nossa época líquido-moderna, em que o indivíduo livremente flutuante, desimpedido, é o herói popular, “estar fixo” – ser “identificado” de modo inflexível e sem alternativa – é algo cada vez mais malvisto.
Quer dizer, vivemos numa época em que se predomina o transitório. Não há mais laços que nos prendem ao outro. Tudo parece se cumprir numa eterna ciranda. Importa o que virá depois, mesmo que “esse depois” seja superficial e improvável.
Com as cidades ocorre a mesma coisa. Não se valoriza os espaços como algo ligado à nossa identidade. Quando saímos pelas ruas com alguém que visita nossa cidade, queremos mostrar o presente, mas também falar do passado. Continue lendo ›