Crônica

Medo de Deus

Do padre Orivaldo Robles:

Professora conversa com aluninhos sobre tema para eles importante. “Vamos ver: do que é que vocês mais têm medo?”. A pergunta é o tiro de largada para um desfile de variados tipos de receios. Com maior ou menor intensidade, a sala inteira admite sentir algum. Ou de quarto escuro, ou de ladrão, de defunto, cachorro, sapo, barata, fantasma ou do mendigo barbudo que, às vezes, vem remexer no contêiner de lixo da escola. Prosaicos temores próprios da idade.
Até que uma garotinha de assustados olhos negros sai com esta: “Eu morro de medo do malamém”. “Malamém? O que é isso, querida?”, surpreende-se a professora. E a menina: “Ah, tia, o que é eu não sei, não. Mas acho que é um bicho muito ruim. Porque, toda noite, quando vou dormir, minha mãe me faz rezar uma oração que fala assim: Mas livrai-nos do malamém”. Chiste à parte convém refletir. O medo angustia e fragiliza uma criança. Na íntegra.

Corrupção o dia inteiro

De Jorge da Cunha Lima:

Mantive o radio ligado durante toda a tarde. CBN e Band News. Quase todo o noticiário se referia a práticas de corrupção. Corrupções municipais, estaduais e federais. Poucas referências à corrupção em empresas privadas. As questões mais noticiadas: enriquecimento ilícito, super faturamento, propina, aumento de patrimônio, compra sem licitação, aumento do custo da obra, desvio de mantimentos de merenda escolar e de doações, compra de carros de luxo para vereadores, deputados e senadores, pagamentos de diárias em dias inúteis, viagens ao exterior, uso de jatinhos etc.etc.etc. Leia mais.

Aniversários

Por padre Orivaldo Robles:

Desde cedo, nos acostumamos a comparar a vida com um percurso feito do berço ao túmulo. Não posso afirmar com certeza, mas acredito que todas as línguas conheçam a expressão “estrada da vida”. Até porque andar é uma das mais gratas conquistas dos albores da nossa infância. Nascemos não para ficar parados, mas para caminhar.

Ao atingir setenta anos, finalmente compreendo por que idosos preferem olhar para trás em vez de para diante. O caminho percorrido se revela mais venturoso do que faz prever o resto de estrada ainda por vencer. Ignoro quem teve a idéia de apelidar de melhor idade esta fase. Melhor para quem? Para a indústria farmacêutica? Duvido que, em todo o planeta, um único idoso recusasse ter de volta, se jeito houvesse, os seus, digamos, trinta anos. Quando menos, pela chance de reduzir o número das burradas que cometeu. Quem nunca lamentou: “Ah, se arrependimento matasse”? Sem falar que, aos trinta, a vida é bem mais radiosa do que aos setenta. Ou alguém duvida? Na íntegra.

Um cartão postal

Por Donizete Oliveira:

No livro “Identidade”, o sociólogo polonês Zigmunt Bauman faz muitas reflexões sobre a pós-modernidade. Bauman, aliás, é mestre em discorrer sobre o tema. Já o fez com maestria em “Amor líquido”, “Medo líquido”, “Vida Líquida”, entre outros.
Para ele, nossa época líquido-moderna, em que o indivíduo livremente flutuante, desimpedido, é o herói popular, “estar fixo” – ser “identificado” de modo inflexível e sem alternativa – é algo cada vez mais malvisto.
Quer dizer, vivemos numa época em que se predomina o transitório. Não há mais laços que nos prendem ao outro. Tudo parece se cumprir numa eterna ciranda. Importa o que virá depois, mesmo que “esse depois” seja superficial e improvável.
Com as cidades ocorre a mesma coisa. Não se valoriza os espaços como algo ligado à nossa identidade. Quando saímos pelas ruas com alguém que visita nossa cidade, queremos mostrar o presente, mas também falar do passado. Continue lendo ›