Atos golpistas: pastores de Maringá foram condenados a 14 anos de prisão

Pastores da Igreja CIA, de Maringá, foram condenados a 14 anos de prisão por participar e organizar atos golpistas de 8 de janeiro; um deles, Éder Furlan (foto), já foi preso pela PF em 1998 e respondeu a 12 inquéritos

Dois pastores da CIA – Igreja Centro Internacional de Avivamento, criada em Maringá, foram condenados por terem participado dos atos antidemocráticos em Brasília (DF), em 8 de janeiro de 2023. Éder Carlos Furlan, um dos fundadores da igreja, e Cícero Aparecido Fernandes, que era presbítero e se tornou pastor em dezembro passado, foram condenados a 14 anos de prisão cada um, com início de cumprimento em regime fechado.

A condenação ocorreu em dezembro de 2025, mas não havia sido divulgada até agora. Circula inclusive que os condenados não estariam mais em Maringá, mas tanto a igreja quanto o escritório de advocacia de Curitiba não responderam aos questionamentos enviados pelo Maringá News.

No ano passado, o empresário, ex-sindicalista e ex-candidato a vereador Antonio Teodoro de Moraes, 74, o Tony, começou a cumprir a pena de 14 anos em março do ano passado, também pelo 8 de janeiro; ele recebeu a mesma condenação dos pastores, por 14 anos por associação criminosa armada, golpe de estado, dano qualificado (violência, grave ameaça, prejuízo considerável) e deterioração de patrimônio tombado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal pelos atos golpistas de 8 de janeiro.

A condenação dos dois pastores não foi divulgada à época da condenação. A CIA, conhecida por ser frequentada por fiéis de classe social elevada, durante o período eleitoral de 2022 apoiava os motoristas que fecharam rodovias; o púlpito trazia sempre uma bandeira do Brasil. A mobilização política terminou após o pastor Eder Furlan, que já foi preso pela Polícia Federal e indiciado em 12 inquéritos, gravar vídeo em redes sociais convocando maringaenses que queriam ir a Brasília, quando ocorreram os atos golpistas.

No total, de acordo com o acórdão da ação penal 2.500/DF, que teve como relator o ministro Alexandre de Moraes, 84 pessoas deixaram Maringá e foram transportadas até a capital federal a partir da iniciativa dos dois pastores. A Igreja CIA alugou o Estádio Regional Willie Davids em 2025 para realizar o evento Milagres Maringá; os dois participaram. Não se sabe se participarão do evento deste ano.

A condenação de Éder Carlos Furlan e Cícero Aparecido Fernandes, que tem uma empresa em Mandaguaçu, foi pedida pelo Ministério Público Federal. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, julgou totalmente procedente a ação penal e condenou os dois réus pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. Os crimes praticados foram configurados como crimes multitudinários praticados em associação criminosa armada, com o objetivo de abolir o Estado Democrático de Direito por meio de violência e grave ameaça, incluindo tentativa de golpe de Estado. Confira as penas aplicadas aos dois:

CrimeDispositivoPena aplicada
Abolição violenta do Estado Democrático de DireitoArt. 359-L do CP4 anos e 6 meses de reclusão
Golpe de EstadoArt. 359-M do CP5 anos de reclusão
Dano qualificado (violência, grave ameaça, prejuízo considerável)Art. 163, parágrafo único, I, III e IV do CP1 ano e 6 meses de detenção + 50 dias-multa
Deterioração de patrimônio tombadoArt. 62, I, da Lei 9.605/19981 ano e 6 meses de reclusão + 50 dias-multa
Associação criminosa armadaArt. 288, parágrafo único, do CP1 ano e 6 meses de reclusão

Cada réu foi condenado, de forma solidária, ao pagamento mínimo de R$ 30 milhões por danos morais coletivos, em favor do fundo previsto no artigo 13 da lei 7.347/1985.

Os dois pastores da CIA organizaram e financiaram dois ônibus (84 passageiros no total) que saíram de Maringá com destino a Brasília para os atos golpistas. Usaram empresas de fachada (Amazon Energy) e nomes de terceiros para ocultar a origem dos recursos. Cícero Aparecido Fernandes negociou os contratos, recebeu os PIX e repassou listas de passageiros.

Éder Carlos Furlan incentivou a viagem, gravou vídeos convocando manifestantes e era figura de destaque no acampamento golpista em frente ao Tiro de Guerra de Maringá. Ambos frequentavam o acampamento e tinham plena ciência do caráter antidemocrático e violento do movimento, segundo o acórdão da sentença.

A decisão cita dezenas de precedentes de outras ações penais julgadas pelo STF sobre os mesmos atos de 8 de janeiro de 2023. Com a ação penal julgada procedente, após o trânsito em julgado, serão expedidas guia de execução, lançamento no rol dos culpados e pagamento de custas processuais. O documento completo tem 145 páginas (ementa mais relatório detalhado com provas, depoimentos, contratos, mensagens de WhatsApp e extratos bancários). A decisão completa está aqui.

Antes de ser pastor, Éder Furlan foi notícia nacional em setembro de 1998, quando foi preso e considerado o maior pirateiro do país, já que reproduzia ilegalmente e em alta escala CDs e DVDs. A operação que desmontou o esquema criminoso foi realizada pela Polícia Federal (de Santa Catarina e do Paraná), que mobilizou mais de 60 agentes.. Ele também era dono de uma empresa de revenda de motocicletas. A apreensão dos equipamentos e materiais usados para a falsificação trouxe a Maringá o então ministro da Justiça, Renan Calheiros.

Durante a realização de atos antidemocráticos defronte o Tiro de Guerra, além do pastor evangélico ter gravado vídeo, outras figuras da cidade marcaram presença na avenida Mandacaru, que se tornou um inferno para a vizinhança. Algumas delas foram candidatas em 2024; uma delas foi a hoje vereadora Giselli Bianchini (PL), que discursou pedindo intervenção militar depois da eleição do presidente Lula e bancou alimentação para as pessoas que ficavam na frente do TG. Bianchini, que frequentava a Igreja Batista Renovada, depois mudou-se para a CIA, que há alguns anos iniciou a construção de sua sede, na avenida Amorim Pedrosa Moleirinho, sem autorização legal e teve a obra embargada.

Foto: Reprodução/Redes sociais