Crônica

Nem tudo é verdade

Do padre Orivaldo Robles:
Sócrates (470 a.C.-399 a.C.), filósofo grego, era um pensador cuja sabedoria sobrepujava em muito à dos conterrâneos. Dono de admirável autodomínio, não perdia a serenidade nem mesmo por causa de ofensas que recebesse de forma gratuita. Opondo-se ao sistema de vida dos concidadãos, foi condenado à morte. Aceitou-a sem nenhum protesto. Conta-se que, certa vez, envolvido em debate filosófico com discípulos, recusou-se a atender Xantipa, sua mulher, que o chamava com insistência e em tom cada vez mais alto. Depois de algum tempo, irritada com o descaso do marido, ela se aproximou e, sem que ele notasse, derramou-lhe uma vasilha de água na cabeça. Ele nem se moveu. Todo ensopado, comentou calmamente: “Era natural que, depois da trovoada, caísse uma tempestade”. Continue lendo ›

Pelos caminhos do bem

De José Luiz Boromelo:
Eles chegam alegremente e com as mãozinhas juntas nos fitam nos olhos. Impossível não se encantar com tamanha simplicidade, no momento em que ouvimos um tímido “a sua bênção, tio”. Em resposta recebem o esperado “Deus lhe abençoe” acompanhado de abraços e afagos, motivo para um sorriso cativante e a demonstração espontânea de felicidade estampada no rosto, cientes do dever cumprido. Esse ritual é religiosamente desempenhado pelo trio de irmãos com idades diferentes, mas de comportamento rigorosamente igual quando se põem a cumprimentar os familiares e visitantes.Continue lendo ›

O futuro da Nação

Do padre Orivaldo Robles:
Ou me engano ou tenho memória curta. Parece-me que em anos passados havia menos pedintes em nossas ruas. Hoje encontramo-los por todo o lado. Nos anos 1980, fiz um curso de especialização em país latino-americano ao norte do Brasil. Impressionou-me o número de mendigos. Pensei: “No Brasil não se vê isso”. Hoje, não me arrisco a dizer o mesmo. E todos os indicadores apontam que nosso País melhorou ultimamente.
Uma das causas é, sem dúvida, a desgraça das drogas, que domina parcela considerável da população. Hoje, ela não se restringe às grande cidades. Invadiu todos os espaços. Naquele curso ouvi falar de “drogadictos”, mas não tinha ainda noção exata da calamidade escondida por trás dessa palavra. Em poucos anos assolou-nos uma tragédia que reduz pessoas a farrapos, sem perspectiva de dignidade nem de futuro. Em Maringá, a Igreja Católica oferece pelo menos quatro instituições, mas nem de longe sonha em resolver o problema. Os voluntários do Marev, do Projeto Plantando Vidas, do Recanto Mundo Jovem e da Casa de Nazaré sabem que apenas despejam uma gota d’água num deserto de miséria. É a contribuição católica para nossa comunidade ferida por uma chaga que parece não ter fim.Continue lendo ›

As dores e a Páscoa

Do padre Orivaldo Robles:
Desde 2003 ouço dizer que três dores, se não são as maiores, seguramente estão entre as três mais terríveis que alguém pode experimentar. São a dor do parto, a cólica de rim e a neuralgia do nervo trigêmeo. Uma eu tenho certeza de que jamais sentirei. As outras duas conheço bem e não as desejo ao pior inimigo. A bem da verdade, não tenho inimigo. Eventualmente, alguém me causa irritação, intensa até, não nego, mas passageira. Não por virtude pessoal, mas por bondade de Deus, fui preservado de guardar rancor. Pois nem à pessoa mais irritante eu desejaria uma crise renal ou uma neuralgia do trigêmeo.
Fui contemplado, na semana santa que passou, com manifestações frequentes daquilo que médicos e dentistas conhecem e denominam dor paroxística. E bota paroxismo nisso.Continue lendo ›

Páscoa da ressureição

De José Luiz Boromelo:
A agitação é intensa. Pessoas amontoam-se em filas intermináveis, principalmente nas grandes redes de varejo. As crianças fazem a festa impondo suas vontades, com direito a choro e esperneio. Os pais atônitos, tentando satisfazer os insaciáveis pirralhos na busca pelo tão falado símbolo pascal. E eis que lá estão eles, de cores, tamanhos, sabores, formatos e preços dos mais variados. Há opções para todos os gostos e bolsos. Desde os tradicionais de marca famosa, com recheios refinados que inclui avelã e outras iguarias (muitos deles contendo brinquedos em seu interior) aos mais simples, sem tantos predicados. As cestas também estão com a procura em alta, incluindo diversos itens que variam de ovo a coelho, de urso de pelúcia a arranjos dos mais criativos possíveis. O que vale mesmo é o simbolismo da aquisição, se possível com bastante antecedência, fazendo uma boa escolha e com tempo suficiente para poder comparar preços. E nessa imensidão de ofertas, o produto mais bem apresentado ganha a preferência dos pequenos consumidores, que fazem questão de impor com energia sua irredutível escolha.Continue lendo ›

Uma sociedade mais fria e violenta

De Zé Roberto Balestra, no blog de Joaquim de Paula, ao comentar sobre a prisão de uma mulher que furtava roupas em Paranavaí:
A propósito, há sonegadores tributários, o que me parece um crime de alcance e dano maiores, porque atinge a todos os cidadãos. Entretanto a sociedade aceita que se mantenham no mandato enquanto correm os recursos legais. Pode ser legal, mas não me parece moral. Talvez por isso, ignotos blogleitores, que a nossa sociedade esteja cada vez mais fria e violenta… Leia mais.

Nosso poeta maior

Do padre Orivaldo Robles:
De vez em quando me pego assobiando a melodia de um jingle que só os mais antigos de Maringá conheceram. É uma musiquinha que, há uns cinquenta anos, nossas emissoras de rádio tocavam. A letra dizia: “Motorista inteligente / De todo o Paraná /Confia o motor do seu carro /À Retificadora Maringá”. Levou tempo para eu descobrir que o autor é um amigo muito querido, a quem costumo chamar de poeta maior de Maringá. Muita gente se cansou de ler, sem saber, matérias suas. Usou vários pseudônimos em tempos passados. Hoje, tudo o que produz vem com a inconfundível assinatura de A. A. de Assis. Só os mais íntimos sabem que A. A. abreviam Antônio Augusto.Continue lendo ›

O adeus ao mestre do riso

De José Luiz Boromelo:
A cultura brasileira perdeu mais um de seus legítimos representantes. Foi-se embora aos 80 anos o inesquecível Chico Anysio, humorista, ator, escritor, compositor e criador de centenas de personagens que fizeram a história da televisão no país. Artista completo, crítico refinado, que incorporava com sutileza e perfeição suas criações. Detentor de uma inteligência privilegiada costumava mostrar toda sua competência utilizando-se apenas de um microfone, uma platéia e um palco, local onde se mostrava totalmente à vontade para fazer o que mais gostava: o humor sadio, irreverente e perspicaz, fazendo do espectador um coadjuvante voluntário, transformando o colóquio improvisado numa perfeita interação entre apresentador e público.Continue lendo ›

Thor

De Ruth de Aquino, na revista Época:
Na mitologia, Thor é o deus do trovão, mestre das tempestades. Na vida como ela é, Thor é filho do homem mais rico do Brasil e de uma de nossas musas de Carnaval. Ele tem 20 anos. Na semana passada, deve ter envelhecido. Thor matou na estrada um ciclista, Wanderson Pereira dos Santos, ajudante de caminhoneiro, de 30 anos.Continue lendo ›

Lixo que não é lixo

De Donizete Oliveira:
Revirando meus papéis de escola encontrei uma redação, dos tempos do antigo segundo grau, classificada num concurso sobre reaproveitamento do lixo. O tema era “Lixo que não é lixo”. A participação me deu um prêmio. Uma viagem a Foz do Iguaçu com outros estudantes classificados. Fizemos um passeio divertido pelas cataratas.
Escrevi aquelas linhas na década de 80. Na época, morava e estudava em Apucarana. O então prefeito José Domingos Scarpelini, fervoroso ambientalista, incentivava a separação do lixo.Continue lendo ›

Espécime genuinamente brasileiro

De José Luiz Boromelo:
A fauna brasileira é rica em diversidade de espécies, muitas delas em extinção. Algumas acabam migrando para a área urbana causando transtornos diversos, reproduzindo-se de maneira espantosa. As andorinhas são um exemplo marcante desse desequilíbrio biológico. O jacu é outra praga urbana que se espalhou pelo país afora, e se mostra de difícil combate. Sabe-se que seu controle é praticamente impossível, mesmo com o emprego de técnicas avançadas e alta tecnologia. Animal de fácil localização, sua posição é alardeada naturalmente. O termo torna-se pejorativo para classificar aqueles indivíduos que demonstram ter pouca (ou nenhuma) instrução e de convívio e modos rústicos, sem o necessário traquejo social. O jacu em questão utiliza o veículo de quatro rodas para dar vazão às suas sandices. Continue lendo ›

Ataque por terra e ar…

De Maria Newnum, na Folha de Maringá:
Nesses últimos tempos pode-se afirmar que Maringá é uma ilha cercada de perigos por todos os lados. Engana-se, porém, quem pensa que o perigo está apenas no ar com a instalação da Usina de Incineração de Lixo e suas partículas cancerígenas que flutuará ao gosto do vento e das sandices dos gananciosos por dinheiro. Na íntegra.

A bolsa ou a vida

Era um senhor idoso podre de rico, mas muquirana de não pagar cafezinho para a própria mãe. Trabalhara duro na roça até comprar uma propriedade. Daí para frente, a coisa deslanchou. Conseguiu acumular fortuna considerável. Filhas casadas há tempo, vivia agora com sua velha num confortável casarão de fazenda, cercado de todos os confortos da vida urbana.
Depois dos tantos anos de luta, começou a acusar os sintomas da idade. Com receio de ver reduzido o vultoso patrimônio, recusava-se a consultar um médico. Pouco valia a insistência da mulher e das filhas. Ele se esforçava para disfarçar qualquer sinal de dor. Se aparecia algum desconforto maior, recorria a remédios caseiros. Até que, não suportando mais os reclamos do velho corpo, foi obrigado, um dia, a pedir arrego. Acabou no consultório.Continue lendo ›

A penitência da saúde

Do padre Orivaldo Robles:
Anedota conhecida conta que Jesus Cristo, condoído dos pobres, certo dia, vestiu um jaleco e veio a um posto de saúde do Brasil. Entrou no consultório e disse ao médico: “Pode ir, colega. Vim substituí-lo”. Entrou o primeiro doente, um atropelado. Arrastava-se com o apoio de duas muletas. Jesus falou: “Volte para casa, você está curado”. Ele botou as muletas embaixo do braço e saiu andando normalmente. Na recepção outro doente quis saber: “Como é esse novo médico”? E ele, mal-humorado: “Ah, igual aos outros. Não gastou dois minutos. Não relou a mão em mim, não pediu exame, não receitou remédio nenhum”.
É uma piada, mas mostra a ideia que nosso povo faz do atendimento dado a doentes pobres. Três quartos dos brasileiros têm como única esperança o socorro oficial do SUS. Desiludidos com o que recebem, dirigem sua raiva aos profissionais que veem. Sobre estes desaba a revolta pelo descaso com a saúde em nosso meio. Não apenas nos grotões aonde não chega a mídia. Situações que nos envergonham acontecem até em metrópoles como São Paulo e Rio.Continue lendo ›

Mulher por dentro

De Railda Masson Cardozo
Nós Mulheres com “m” maiúsculo não somos fáceis de sermos distinguidas. Não nos  adequamos a um único gênero, número ou grau, depois da desconstrução e do grito feminino, estamos sendo modeladas cada uma com suas próprias mãos. Desistimos apenas, de contar quantas mulheres há em nós, pois vamos trocando de atitudes da mesma maneira que mudamos três ou quatro vezes de roupa por dia. Perseveramos nas tentativas de mudanças.Continue lendo ›

Uma grande cachorrada

De José Luiz Boromelo:
De acordo com a Associação Nacional de Fabricantes de Alimentos para Animais o Brasil possui aproximadamente 28,8 milhões de cães. Obviamente que esse é um valor estimado, uma vez que os animais registrados não são cadastrados num sistema único de dados, acrescentando-se a esse rol os cães sem raça definida e os que vivem em estado de abandono, perambulando pelas ruas. Ainda segundo essa entidade, nas duas últimas décadas houve um crescimento extraordinário na comercialização de rações e seus complementos, de acessórios e tudo o que se refere aos “pets”, denominação importada de outro idioma, inserida no cotidiano do brasileiro e que faz referência aos animais.
Interessante seria conhecer o método utilizado para quantificar com exatidão a soma encontrada nessa conta altamente fantasiosa. É só sair pelas ruas e sem muito esforço nos deparamos com cães na imensa maioria das residências, algumas com vários deles mostrando toda a precisão de suas privilegiadas cordas vocais, para concluir que o resultado dessa adição é algumas vezes superior daquele divulgado.Continue lendo ›

Homenagem às mulheres

De José Luiz Boromelo:
No dia 8 de março de 1910 aconteceu na Dinamarca uma conferência internacional feminina e a data foi escolhida como Dia Internacional da Mulher, em homenagem às mulheres de todo o planeta. Historicamente as mulheres sempre estiveram na condição de subserviência perante aos homens, porém algumas representantes do chamado “sexo frágil” tomaram a iniciativa e mudaram os rumos da história, mostrando seu valor. Foram tantas as discriminações que as mulheres se uniram para reivindicar seus legítimos direitos perante a sociedade. No Brasil da era Vargas as mulheres conquistaram os mesmos direitos trabalhistas que os homens, o direito ao voto e a cargos políticos do Executivo e do Legislativo. As mulheres sempre tiveram competência, versatilidade e muita força de vontade. Continue lendo ›

Cidade “indormível”

Do padre Orivaldo Robles:
Relato a experiência minha e de muitos outros: há noites em que é impossível dormir. Como esta. Levanto-me e vou escrever. São quatro da madrugada. Desde as duas, estive me virando na cama. Não é insônia. É o ruído que sobe da rua. Como a coisa mais normal do mundo. Vozerio e gargalhadas que furam até janela antirruído. Quem não pode comprar isolamento acústico tem que fugir para o campo? Noites de sexta e de sábado, em especial, são um suplício. Jovens (e não jovens) varam a noite conversando e rindo alto. Danem-se os panacas que tentam descansar como gente normal. Calculo o tormento dos pobres pais de crianças pequenas. “Varam a noite” não é exagero. Quem se levanta às seis da manhã ainda os vê na calçada. Latinhas e garrafas vazias foram descartadas diretamente no passeio ou na sarjeta. Ainda que perto se encontrem cestos de lixo. Para que se preocupar com isso? Nossas calçadas e ruas são tão espaçosas!Continue lendo ›

Quaresma hoje

Do padre Orivaldo Robles:
Quem viveu no Brasil rural do século passado lembra o pavor que a Quaresma incutia no povo simples com a ameaça do lobisomem. Havia muitas crendices, que hoje provocam risos até em crianças. Por isso, gente desinformada dirige, às vezes, críticas ferozes à prática religiosa. Nada a ver; fé é uma coisa, superstição é outra. Apesar de alguns não gostarem, religiões sérias firmam-se em bases sólidas. Não se identificam com a ignorância, o fanatismo ou a malandragem que, infelizmente, se podem ver aqui e ali. A Quaresma nasceu do antigo catecumenato, período de preparação ao batismo. Para receber a vida nova da Páscoa, os candidatos deviam abandonar o modo pagão de viver. Eram instados à conversão, isto é, à mudança de caminho. Esse é o sentido original de penitência. Com o passar dos séculos, o enfoque se perdeu. O povo passou a se contentar com a mera observância de ritos exteriores.Continue lendo ›

A educação vem de berço?

De José Luiz Boromelo:
O trânsito seguia lentamente quando o motivo do transtorno urbano naquela movimentada via pública foi conhecido: dois veículos de luxo parados em fila dupla com seus jovens condutores conversando tranquilamente, como se estivessem no sofá de casa. Ambos devidamente acompanhados por latas de bebida que eram atiradas pela janela sem constrangimento algum, transformando o canteiro central em lixeira particular e o congestionamento cada vez mais insuportável pela ocupação irregular da faixa de rolamento. A ousadia dos folgados era evidente e por diversas vezes, em resposta às buzinadas dos mais exaltados, estendiam a mão com o dedo médio em riste num típico ato de provocação e desprezo. Após algum tempo de confusão na via, os dois veículos partiram em alta velocidade deixando para trás uma porção de motoristas indignados com esse comportamento e no gramado os vestígios de tamanha ignorância.Continue lendo ›

Um cardeal filho de açougueiro

Do padre Júlio Antônio da Silva:
Estamos certos de que Jesus Cristo não concedeu nenhum título honorífico para os seus amigos mais chegados. Ele ensinou que a maior titulação de um cristão é o serviço oblativo e gratuito ao próximo. Ele deu o exemplo desta tarefa essencial do cristão. E determinou a seus discípulos que, depois de terem feito tudo aquilo que devem fazer, considerem-se “servos inúteis”, pois fizeram o que deveriam ter feito (Cf. Lc 17, 10). Porém, no processo histórico de institucionalização da comunidade eclesial, vão aparecendo titulações dadas aos servidores do povo de Deus, para determinar a missão e função que devem exercer em vista do bem da comunidade eclesial.Continue lendo ›

O senhor da razão

De José Luiz Boromelo:
Um assunto que ganhou destaque na mídia recentemente são os problemas apresentados pelas próteses de silicone implantadas em milhares de brasileiras. É de pleno conhecimento do paciente que o produto tem prazo de validade e que o mesmo deve ser substituído de acordo com a recomendação do fabricante, a fim de evitar algum efeito danoso ao organismo. Nesse caso específico, existem registros de irregularidades com determinadas marcas de próteses em todos os países, mostrando a total falta de controle de qualidade em sua fabricação, expondo os usuários do produto a riscos dos mais diversos.Continue lendo ›

Dez anos

Do padre Orivaldo Robles:
Cigarro é um cilindro branco com uma brasa numa ponta e um imbecil na outra. Não vi até hoje melhor definição. Fui esse imbecil durante longos anos. Com o agravante de ter começado na fase adulta, já com 26 anos. Eraldo, meu irmão, e eu crescemos vendo o pai, fumante desde menino, cumprir o delicado ritual de fazer o seu cigarro de palha. Talvez o prazer estivesse não tanto em fumar, mas em executar, sem pressa, cada etapa da operação. Aprendemos a escolher as palhas de milho que ele recortava no tamanho exato, dava uma alisada com o fio do canivete e guardava na gaveta esquerda do guarda-louça. Alguém aí ouviu falar de guarda-louça? Ainda temos um lá em casa. A mãe dizia que era do seu tempo de recém-casada. Voltando ao pai, tornamo-nos expertos na escolha do fumo de corda que lhe agradava. Lá uma vez ou outra, trazíamos um rolete que ele olhava com desconfiança, cheirava e, depois da primeira pitada, concluía com desalento: “Ih, filho, você comprou um macaio que não dá, não. Amanhã, na volta da escola, me traga um diferente”. Em geral, porém, acertávamos na compra.Continue lendo ›

Gato que nasce em forno

De Ruy Castro, na Folha de S. Paulo:
Carlos Gardel (1890-1935), o cantor de “Mano a Mano”, nasceu na França (em Toulouse). Mas algum argentino duvida que ele foi o maior portenho de todos os tempos? E a brasileira e carioquíssima Carmen Miranda (1909-55), nascida em Marco de Canaveses, a 40 km do Porto, em Portugal? E o francês Yves Montand (1921-91), marselhês e malandro até o último Gitanne, que nasceu em Monsummano Alto, na Itália?Continue lendo ›

Pór de pirlimpimpim

Do padre Orivaldo Robles, que agora entra em períod0 de descanso e só retorna com eus escritos em fevereiro:

Na minha última crônica cometi uma imprecisão imperdoável. O pó de pirlimpimpim (que tinha o poder de transportar a pessoa para onde ela desejasse) é uma criação do nosso Monteiro Lobato (1882-1948), não de Walt Disney (1901-1966), criador de Peter Pan e da fada Sininho. Monteiro Lobato é nosso primeiro autor de autêntica literatura infantil, com as imortais criações de Emília, Pedrinho, Narizinho, dona Benta, tia Nastácia, Visconde de Sabugosa etc., personagens do mundo encantado do Sítio do Picapau Amarelo. Peço perdão aos leitores do seu blog por lhes ter dado informação equivocada. Quem me corrigiu o engano foi minha comadre, professora aposentada Tania Eloiza Cividanes, a quem agradeço a gentileza.

Novo ano à vista

Do padre Orivaldo Robles:

Você, que lê, e eu, que escrevo, somos privilegiados. Ano passado, neste dia e hora, estavam vivas pessoas possivelmente melhores que nós. Hoje, não fazem parte do nosso convívio. Por que misteriosa razão foram daqui levadas, enquanto nós ficamos? A mim, tenho certeza, o Senhor concede nova chance de me corrigir das minhas falhas. Ouvimos, a cada início de janeiro, o surrado “ano novo, vida nova”. Um ano que começa abre aos nossos passos uma nova estrada, que pode ser diferente da anterior, se quisermos. Entretanto, o que se dá, na maioria das vezes, é que passam os meses, termina dezembro, vira a folhinha e a vida prossegue na mesmice de sempre. E olhe lá se a gente não acaba mudando, sim, mas para pior.
É engraçado como as pessoas se repetem. Não há abertura de ano em que não nos venham aporrinhar as manjadas previsões de pretensos adivinhos.Continue lendo ›

O Natal do progresso

Do padre Orivaldo Robles:

Tenho a sensação de que o Natal está vindo mais depressa a cada ano. Não só eu. Outras pessoas me fizeram a mesma observação. Em nossa infância, o Natal demorava a chegar. Era um custo atravessar o ano, lerdo feito um cágado e comprido como um século. Até percebermos em casa as primeiras providências para o Natal. Nossa fantasia se aguçava. Éramos tomados por esquisita (mas gostosa) excitação. Tratava-se de preparativos extremamente simples. Não iam além da aquisição dos ingredientes básicos, todo ano repetidos, que revestiam de glamour o almoço natalino. Por força da origem espanhola, o pai sempre achava jeito, não obstante a pobreza, de comprar nozes, amêndoas e avelãs. Comparado à austeridade da refeição dos outros dias, aquele era um autêntico banquete para encher de encanto nossa mesa. Um luxo ocasional dos ingênuos roceiros que éramos.
Hoje sei que Natal, do latim “dies natalis”, quer dizer dia do nascimento. Nascimento de Jesus, evidentemente. Na infância, nunca me falaram dele. Natal era só um almoço de festa. Continue lendo ›

O que fica do que passou

Do padre Orivaldo Robles:

Tirante a amplitude da circunferência abdominal, a dificuldade de subir ladeira, a urgência em levantar à noite várias vezes e o esforço de fazer a memória pegar no tranco, não posso dizer que os anos me pesem muito. Tempo houve em que tudo era mais fácil. Ainda assim, não me queixo. Aborrecem-me saudosistas de olhos sempre fixos no passado. Não sofro por não ter de volta o que já foi. “Tudo tem seu tempo” (Ecl 3,1). Comento situações que vivi porque me ensinaram alguma coisa. “O saber não ocupa lugar”, dizia o pai. Já ouvi que, se alguém fala: “Tenho muita experiência”, o que quer dizer é: “Já fiz muita burrada na vida”. Pode ser. Sem negar as tolices que cometi, entendo que a idade também me forneceu lições determinantes de bem viver.
Exemplo: quem viveu meia dúzia de décadas lembra como funcionavam as coisas em família. Pai e mãe davam ordens, filhos obedeciam. Não se respeitava a individualidade dos filhos? Pais eram dominadores? Havia casos, sim, não dá para esconder. Continue lendo ›

Um velhinho do barulho

O padre Orivaldo Robles revela em seu artigo semanal: na inauguração do Auditório Papa João Paulo II, há uma semana, dom Jaime Luiz Coelho chegou ao recinto e deu de cara com um vereador, desses que votaram pelo aumento abusivo de R$ 12 mil. Ao cumprimentar o primeiro bispo da cidade, este, do alto de seus 95 anos, a maior parte deles de serviços prestados a Maringá, disse: “Quero distância de vocês. Que vergonha! Vocês só se preocupam com os próprios interesses. Não olham para as necessidades do povo”.

No artigo, padre Orivaldo fala da obra e da convicção geral de que as construções da Igreja se fazem com o palpite dos ricos e o dinheiro dos pobres. Leia na íntegra “Brio quase centenário”:Continue lendo ›